Premier League

O Norwich sobe à Premier League com um projeto interessantíssimo, que aponta ao futuro

O Norwich City ocupa uma posição de coadjuvante na história do Campeonato Inglês, mas sua relevância é inegável durante as últimas décadas. Ainda que costume frequentar a metade inferior da tabela, sempre foi um costumeiro participante da Premier League. Chegou a protagonizar um surpreendente terceiro lugar na primeira edição do torneio, antes de conviver com a gangorra rumo à elite. E poucos clubes conhecem tão bem os atalhos na Championship. Neste sábado, os Canários consumaram o acesso, o terceiro conquistado desde 2011. Premiam um trabalho de recuperação da agremiação, que conta com uma visão interessante sobre o futuro e o engajamento amplo da torcida.

Há exatos dez anos, o Norwich viveu o drama de ser rebaixado à terceira divisão do Campeonato Inglês. E, entre a alegria do retorno imediato à Premier League em 2012 e o sobe-e-desce que viveu depois, a equipe não conseguiu uma estabilidade financeira para manter sua curva de crescimento. Não à toa, quando caíram pela última vez na primeira divisão, em 2015/16, os Canários encararam um problema comum a diversos outros times: sentiram o impacto do fracasso e viraram figurantes na segunda divisão. Os auriverdes vêm de duas campanhas medianas na Championship, zanzando pelo meio da tabela. O encaixe desta temporada foi de certa maneira surpreendente, embora premie os acertos da diretoria.

O maior deles aconteceu em 2017, quando o Norwich procurava um novo técnico para substituir Alex Neil. Foram até a Alemanha e confiaram no trabalho de Daniel Farke, um ex-jogador de carreira obscura nos gramados, que nunca trabalhara nos níveis profissionais de seu país. No entanto, as ideias do jovem de 40 anos começavam a reluzir à frente do Borussia Dortmund II e os Canários o escolheram para conduzir um novo projeto. Seria não apenas o responsável por aproveitar melhor as categorias de base, como também teria passe livre para desenvolver um novo estilo de jogo, baseado na posse de bola, e buscar novas promessas. Desde o início, a diretoria tinha à sua frente um horizonte de médio e longo prazo. Por isso mesmo, o 14° lugar na temporada anterior não ameaçou a continuidade do alemão cargo. E, em pouco tempo, a equipe acelerou a ascensão.

A janela de transferências do Norwich para 2018/19 foi bastante movimentada. Um grande número de jogadores deixaram Carrow Road para fazer caixa, com menções principais a James Maddison e Josh Murphy. Em contrapartida, o clube buscou alternativas no mercado para Daniel Farke – sobretudo na Alemanha. Chegaram alguns jogadores tarimbados, incluindo o goleiro Tim Krul e o atacante Teemu Pukki, embora a maioria dos novatos fosse composta por ilustres desconhecidos. Desta maneira, era possível se manter reticente e questionar se os Canários teriam força para alcançar os playoffs. O desempenho saiu muito melhor do que a encomenda, mirando o acesso e também o título da Championship.

Não foi um bom começo de campanha ao Norwich, cabe ponderar. O time conquistou apenas uma vitória nas primeiras seis rodadas e acabou derrotado justamente por aqueles que seriam os seus principais concorrentes à Premier League. Os 3 a 0 do Leeds em Carrow Road, diante da empolgação pelo impacto de Marcelo Bielsa, botava o time de Daniel Farke sob dúvidas. Todavia, o entrosamento começou a fluir e o trabalho engrenou a partir de setembro. Ao final do mês, os Canários já apareciam na zona de classificação aos playoffs, emendando uma boa sequência de vitórias. Alcançaram a vice-liderança no começo de novembro, pouco antes de passarem à primeira colocação. E ainda que o fim do ano tenha gerado uma breve turbulência, com a queda ao terceiro lugar, logo os auriverdes recuperaram o ritmo. Sofreram apenas uma derrota em 2019 pela Championship. Assumiram a liderança em fevereiro, para não largar mais.

Dá até para dizer que o acesso do Norwich demorou a se concretizar, diante das circunstâncias. Neste mês de abril, a equipe chegou a acumular quatro empates consecutivos, quando poderia carimbar a promoção. Por sorte, os principais concorrentes também sofriam suas oscilações e a gordura acumulada ao longo da campanha garantia a tranquilidade. Tudo para que a festa se confirmasse neste sábado, diante de 26 mil torcedores em Carrow Road. Marco Stiepermann e Mario Vrancic anotaram os gols na vitória por 2 a 1 sobre o Blackburn, que desencadeou a insana comemoração entre os auriverdes.

“É um momento cheio de felicidade e orgulho. Esse sentimento é incrível. Para mim, a Championship é a liga mais difícil do mundo. Todos os jogos são muito equilibrados, então terminar entre os dois primeiros significa que você mereceu. Penso na maneira como crescemos ao longo da temporada. Tivemos muitas pressões financeiras no clube e precisamos que vender alguns de nossos melhores jogadores. Então, necessitávamos de criatividade nas contratações. O acesso é um sinal que tomamos o caminho certo”, afirmou Farke, após o feito. “Não gosto de vaidade nos vestiários. Todos aceitam que o grupo é maior que os indivíduos. Trabalho há muito tempo no futebol, ter essa atmosfera é excelente, não posso elogiá-los o suficiente. É uma grande alegria trabalhar com este elenco”.

Restando apenas uma partida para o final da campanha, o Norwich possui três pontos de vantagem na liderança e está com a mão na taça. Embora a defesa não seja tão segura assim, com 56 gols sofridos, o ataque é com sobras o melhor da Championship. Foram 91 tentos, 30 deles anotados nos 15 minutos finais – um fôlego extra que rendeu 19 pontos na tabela. E embora o número de vitórias conquistadas em Carrow Road seja maior, também há méritos no rendimento como visitante. Os Canários sofreram apenas duas derrotas na estrada, algo que explica suas sequências invictas ao longo da jornada. Excetuando-se aquele início ruim, são apenas três revezes nas últimas 39 rodadas do certame.

Em campo, o grande nome no acesso foi Teemu Pukki. O finlandês sobrou na Championship e, com todos os méritos, terminou eleito como o melhor jogador da competição. São 28 gols do artilheiro, segunda melhor marca da segundona desde a década passada. Depois de uma boa passagem recente pelo Brondby, o jogador de 29 anos redescobriu-se como centroavante – algo que não era o intuito inicial, quando o clube o contratou. Virou referência.

Outro setor a se sobressair foi o meio-campo. Marco Stiepermann, Onel Hernández e Mario Vrancic tiveram grande contribuição ofensiva, a um time que finaliza bastante. Se o Norwich havia sofrido na temporada anterior pela falta de objetividade, mesmo já se destacando pela posse de bola, desta vez o estilo agressivo e a valorização da qualidade individual resultaram em muitos gols. O elenco coeso e sem grandes hierarquias também permitiu que se aproveitasse melhor a boa fase de diferentes atletas ao longo do ano, dando espaço entre os titulares.

Além do mais, vale ressaltar a participação dos jovens no acesso. Emiliano Buendía foi o grande achado dos Canários no mercado. O argentino de 22 anos é cria do Getafe, mas tinha passado a temporada anterior defendendo a Cultural Leonesa na segundona espanhola. Virou também protagonista na equipe, como o principal responsável pela armação. Além da velocidade e da qualidade nos arremates, se sobressaiu como líder em assistências. Cria da casa, Todd Cantwell também causou seu impacto, geralmente aberto pelo lado esquerdo. E a linha defensiva contou com um punhado de novatos, com menções honrosas ao zagueiro Ben Godfrey, bem como aos laterais Jamal Lewis e Max Aarons – este, aos 19 anos, eleito a revelação da temporada na Championship. Transmitem a impressão de que podem engrenar cada vez mais, a exemplo do que aconteceu com James Maddison, que decolou após passar por Carrow Road.

A noção de um trabalho coletivo em evolução é compartilhada pelo time. Algo que Pukki expressou depois da promoção: “Para ser honesto, não tinha tantas expectativas quando cheguei. Mas desde os primeiros treinos eu vi que possuíamos muito potencial, pela maneira como os rapazes trabalhavam juntos. Depois do início ruim, quando começamos a fazer mais e mais jogos, você podia ver algo diferente neste time. Acho que merecemos totalmente. Eu me senti um pouco mais nervoso nos últimos jogos, porque sabíamos que o acesso estava próximo. É a minha melhor temporada e um prazer desde que cheguei. O apoio que recebi durante os últimos meses é inacreditável”.

Pela forte presença alemã no elenco e pelas próprias origens no Borussia Dortmund II, Daniel Farke pode ser considerado como um herdeiro de David Wagner na Championship. E o seu compatriota demonstra as dificuldades de fazer o salto para a Premier League. Manter o mesmo estilo de jogo na elite exige bastante, ainda mais considerando que os reforços se fazem necessários. O segredo é saber balancear a ascensão do presente elenco e a chegada de novatos – como conseguiu o Wolverhampton nesta temporada, em contraste à gastança que tomou o Fulham. Nomes como Pukki e Krul serão essenciais neste reinício, para os Canários fugirem da gangorra que determinou suas últimas aparições na elite. Até por sua situação financeira, a agremiação tende a manter os pés no chão e não repetir os erros do passado, quando trouxe mais gente do que deveria.

E o que permite acreditar em um novo final desta vez? O apoio da torcida dentro deste planejamento de longo prazo. Não é apenas a presença de Daniel Farke que indica isso. Há pouco mais de um ano, a diretoria lançou uma espécie de “empréstimo coletivo” para construir um novo centro de treinamentos às suas categorias de base. Os torcedores poderiam fazer investimentos a partir de £500, visando juntar £5 milhões para as obras. Em apenas seis semanas, 700 pessoas participaram do projeto e bateram a meta. Segundo os planos iniciais, os contribuintes devem receber o dinheiro de volta em cinco anos, com uma pequena margem de juros de 5% anuais. Pois o acesso confere também um bônus de 25% àqueles que realizaram o suporte. Confiança no clube que acaba recompensada duplamente, em campo e fora dele.

Nos bastidores, aliás, merece menção honrosa o diretor de futebol Stuart Webber. O galês de 35 anos possui uma carreira meteórica na Championship. Trabalhou como chefe de observação do Wolverhampton até 2015, foi diretor do Huddersfield no biênio seguinte e chegou ao Norwich em abril de 2017. As menções a David Wagner não são mera coincidência e, mesmo repetindo a fórmula vista em seu clube anterior, o executivo atingiu o sucesso ao apostar em Farke. Também foi ele quem conduziu o projeto de financiamento coletivo que, a partir da inovação, abre caminhos aos Canários. Compreensivelmente, possui muitos créditos com os acionistas majoritários e, ao renovar seu contrato no último mês de março, tem a chance de provar sua capacidade na elite.

Com as novas ideias, o Norwich pode tornar mais sustentável a sua própria permanência na Premier League. Embora as cifras suntuosas na elite representem um salto, o clube sabe que é preciso de mais para se estabelecer na primeira divisão. O acesso na Championship é um reflexo do que vem sendo bem feito até o momento e, aparentemente, esta visão pode agregar ainda mais aos Canários. Enquanto vivem a euforia pelo retorno à primeira divisão, já se preparam ao desafio maior. O tempo não dá margem a manobras.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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