Necessário, mas controverso: Fair play da Premier League mina quem tenta furar o Big Six?
Regras de Lucro e Sustentabilidade Financeira (PSR) da maior liga do mundo recebem críticas e protestos de torcidas
No momento em que o Brasil discute a implementação de um fair play financeiro, é importante ver o funcionamento do sistema em outras ligas pelo mundo. A Premier League, por exemplo, utiliza as Regras de Lucro e Sustentabilidade Financeira (PSR, na sigla em inglês), mas essa medida pode ser considerada uma faca de dois gumes para alguns times.
De forma simples, as normas do principal campeonato do mundo impedem que os clubes tenham prejuízo acumulado antes dos impostos de 105 milhões de libras (R$ 771,4 milhões) nas três temporadas anteriores (desde que 90 milhões de libras sejam cobertos pelos proprietários das equipes, se não houver aporte o limite de perdas é de apenas 15 milhões).
Em tese, a medida, implementada durante a temporada 2015/16, veio como uma forma de garantir que os clubes sejam sustentáveis e evitem gasto excessivo e fora das capacidades de receitas, evitando falências.
Se houver prejuízo acima do teto estipulado pela liga, podem acontecer sanções contra os times — recentemente, Nottingham Forest e Everton foram punidos em pontos no Campeonato Inglês.
O sistema foi uma resposta às severas crises financeiras em times da primeira divisão, como o Leeds United nos anos 2000 e o Portsmouth na década seguinte, só que também serviu para evitar investimento sem freio de estrangeiros. Os grandes exemplos são o Chelsea com o oligarca russo Roman Abramovich entre 2003 e 2022 e o Manchester City, financeiro pelo governo de Abu Dhabi desde 2008.

Mesmo que o PSR isente investimentos nas categorias de base, infraestrutura e projetos comunitários, as regras podem ser consideradas um limitador para quem, mesmo com bons projetos esportivos, tenta furar a bolha do Big Six, o grupo dos seis times ingleses mais ricos formado por Arsenal, Chelsea, Tottenham, Liverpool, City e Manchester United.
As Regras de Lucro e Sustentabilidade Financeira devem mudar a partir da próxima temporada, mas ainda despertam a irá de algumas equipes. A primeira rodada da Premier League 2025/26 ficou marcada pela união das torcidas dos dois clubes que mais se aproximam de furar esse bloqueio se unindo para protestar contra o fair play financeiro da elite inglesa.
Torcidas de Aston Villa e Newcastle se unem contra PSR
“Premier League corrupta pra c***” e “F***-se, PSR” foram os cânticos que fãs dos Villans e dos Magpies se juntaram para entoar no Villa Park na partida que terminou 0 a 0 no último sábado (16). Os dois clubes são os exemplos perfeitos de como as regras o impedem de dar o passo seguinte na liga inglesa, freando ambos em momentos diferentes.
What they won’t have shown on TV.
— Aston Villa Updates (@avfcbreaking) August 16, 2025
Aston Villa and Newcastle fans unite against the Premier League.#AVFC #NUFC pic.twitter.com/bJh3AZVLO8
O Newcastle, comprado pela Arábia Saudita no fim de 2021, precisou gastar muito em Bruno Guimarães, Isak e Anthony Gordon para fortalecer o projeto e isso cobrou preço nas temporadas seguintes. Apesar da classificação à Champions League para 2024/25, os maiores reforços foram Sandro Tonali e Harvey Barnes.
Na temporada passada, sufocado pelo PSR, os Magpies praticamente foram obrigados a vender as promessas Elliot Anderson e Yankuba Minteh e quase não fizeram investimentos. Mesmo assim, o time lutou e terminou em quinto lugar, garantindo novamente vaga na Champions.
— A violação do fair play financeiro foi algo contra o qual lutamos muito no verão europeu para não ficarmos nessa posição – e é por isso que as saídas daqueles que não queríamos que acontecessem [Anderson e Minteh] tiveram que acontecer — disse Eddie Howe no ano passado sobre as vendas.
🏴❌ João Pedro, Delap, Ekitiké, Huijsen, Mbeumo… o Newcastle tem o dono mais rico do mundo e uma vaga na Champions League, mas faz uma janela decepcionante
— Trivela (@trivela) July 30, 2025
O que explica ninguém querer ir para os Magpies? Respondemos 👇
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Agora, é a vez do Aston Villa ser obrigado a negociar um jovem, justamente para o Newcastle. Jacob Ramsey, desde criança no Aston Villa e identificado com a torcida, precisou ser vendido por 40 milhões de libras (R$ 296,2 milhões).
Outra negociação na conta do PSR porque os Villans, saltando em competitividade com Unai Emery, pegaram top-4 há duas temporadas, jogaram a Champions na última e precisaram investir para isso.
Agora, com saldo negativo no fair play inglês, não trouxe nenhuma grande contratação e precisou vender Ramsey, pois negociar um garoto da base é computado todo o valor no fair play, enquanto a negociação de jogadores externos é considerado apenas o lucro em cima do valor pago nele.
— Foi um dia triste perder um grande jogador e pessoa, um dos nossos, mas parece ser assim que o futebol funciona hoje em dia — lamentou o capitão dos Villans, John McGinn, em post nas redes sociais.
O Villa se vê sufocado não só pelas regras da Premier League, mas também da Uefa, que limita os prejuízos a apenas 60 milhões de libras (R$ 444,2 milhões) para times que disputaram competições europeias nas últimas três temporadas (independente do torneio), como a equipe de Birmingham. Ou seja, eles são vítimas do próprio sucesso de chegar aos torneios da Europa.
A entidade do futebol europeu ainda limita gastos de até 70% da receita com salários de jogadores. Em janeiro, os Villans ocupavam 91% da receita com vencimentos de atletas, segundo o site “The Athletic”. Por conta desses custos ed as regras financeiras, o time foi punido pela Uefa em 9,5 milhões de libras (R$ 70,4 milhões), podendo ser penalizado em mais 15 milhões de libras (R$ 111,2 milhões) se houver novas infrações nas próximas temporadas.
Jacob Ramsey is a Mag! 🙌 pic.twitter.com/67pTuZXrLm
— Newcastle United (@NUFC) August 17, 2025
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Manobras para driblar prejuízos enfraquecem PSR
Rígido com Newcastle, Aston Villa e outros times, o PSR tem lacunas que podem favorecer os times mais endinheirados. O maior exemplo é o Chelsea, que gastou 1 bilhão de euros (R$ 6,5 bilhões) em reforços nas últimas três temporadas e até hoje nunca caiu no PSR. Uma das razões são manobras financeiras entre empresas que administram o próprio clube.
Por exemplo, a equipe feminina dos Blues foi vendida por 198,7 milhões de libras (R$ 1,4 bilhão) para BlueCo, consórcio do empresário Todd Boehly, dono do Chelsea. Aconteceu o mesmo com dois hotéis que estavam no nome do time londrino e foram para uma empresa irmã do consórcio por 76,5 milhões de libras (R$ 567,4 milhões). Ambas foram aprovadas pelo PSR.
Os Blues também se aproveitam da lacuna em relação aos contratos. Quando uma equipe contrata um jogador, o valor da transferência é dividido de acordo com quantos anos de contrato ele assinou. Ou seja, se foi contratado por 10 milhões e assinou contrato de duas temporadas, só entram no balanço 5 milhões em um ano e outros 5 no outro.
Como gasta muito nas janelas, o Chelsea tem oferecido contratos acima dos cinco anos — o que era considerado um “limite” antes — e apostando em vários vínculos de quase uma década. No elenco atual, 20 jogadores têm contrato até 2030 ou mais. Entra a capacidade financeira do clube de arcar com salários altos por tanto tempo, o que clubes menores não conseguem.
Uma manobra, que não é só do time londrino, também é “trocar” jogadores da base por conta do lucro líquido. Inclusive, Chelsea e Villans fizeram isso em 2024: Maatsen, formado nos azuis de Londres, foi para Birmingham, enquanto Omari Kellyman deixou o time bordô e assinou com os Blues.

Unai Emery quer revisão no fair play da Premier League
O economista Cesar Grafietti, especialista em gestão e finanças no futebol, disse em contato à Trivela que a própria Premier League se descredibiliza ao aceitar essas medidas, mas acredita que isso possa mudar com a implementação de um regulador no futebol inglês pelo governo do Reino Unido. Ele destaca que a Uefa recusa boa parte desses “dribles” nas finanças.
— Quando a PL aceita essas manobras, desmoraliza o próprio sistema. Há discussões para mudar os controles, e agora que o governo britânico criou um órgão de controle do futebol é possível que passem a ter mais atenção com isso — disse.
— A Uefa, nos seus monitoramentos, exclui essas movimentações que forjam desempenho positivo, reforçando a necessidade de mudança nos controles. […] A dificuldade das regras de controle é que os controlados estão sempre à frente em busca de frestas na lei — completou.
O técnico do Aston Villa, Unai Emery, limitado pelas regras financeiras da liga inglesa, sugeriu que isso deve ser revisto, pois evita que bons projetos esportivos não podem sonhar muito. Na mesma linha sobre sonhar, a torcida levantou um mosaico com a frase “Não há limites para os nossos sonhos” na estreia na Premier League.
— Não podemos evitar que o verão tenha sido desafiador porque as regras financeiras estavam condicionando nosso investimento no elenco. As regras de controle financeiro chegaram ao futebol para evitar falências e inadimplências com um bom propósito — escreveu Emery em uma coluna no material de pré-jogo de Villa x Newcastle.
— Mas como profissionais devemos revê-la, pois essa boa ferramenta se tornará uma limitação para os clubes que estão fazendo uma boa gestão, que nunca poderão sonhar e alcançar objetivos mais altos, porque a receita, chave para essas regras financeiras, precisa de tempo para se tornar realidade depois do sucesso esportivo — completou.
Aston Villa fans unveil a tifo paying tribute to Unai Emery. 🔥 pic.twitter.com/BSz8jerICF
— The Touchline | 𝐓 (@TouchlineX) August 16, 2025
Grafietti vê que o discurso pode mudar a depender do time que você está — o Big Six, com exceção do United, não costuma questionar o PSR. O economista ressalta uma das ideias do PSR, de evitar que os clubes sejam “brinquedos” de bilionários.
— A questão da revisão das regras é muito da conveniência de cada interessado. Se Unai estivesse no Liverpool, não defenderia isso. De qualquer forma, minha visão é de que o futebol precisa ser sustentável, e não um brinquedo na mão de bilionários que podem cansar a qualquer momento. Os clubes precisam ser financeiramente viáveis e buscar suas eficiências dentro da melhor gestão esportiva — finalizou o especialista.
No momento, já há testes sobre a mudança do PSR para novos modelos de controle financeiro. Desde a última temporada, são testados dois sistemas que coexistiriam para substituir o atual: a Regra de Custo de Elenco (SCR, na sigla em inglês) e a Ancoragem de cima para baixo (TBA).
A SCR limita os gastos com transferências, salários e comissões a empresários a até 85% da receita de futebol de cada clube, enquanto a ancoragem cria um teto de gastos com base na receita do clube com menor arrecadação da liga, multiplicada por cinco — esse valor da multiplicação pode alterar. Ou seja, se o time mais pobre ganha 100 milhões, então todos só poderiam gastar até 500 milhões com salários, agentes e negociações.
No momento, as duas medidas estão sendo testadas e analisadas antes que possam ser implementadas — podendo acontecer já para 2026/27, se os clubes votarem a favor –, mas já encontram resistência em Manchester City, Aston Villa e Manchester City, especialmente sobre a regra de ancoragem pelo risco de limitação de investimentos. O SCR é mais aceito, porém também é alvo de reclamações.
— O SCR tem uma cara de medida para controlar custos, mas o TBA tem outro motivo que é limitar a diferença entre clubes e supostamente aumentar competitividade. Se for vista dessa forma pode ser eficiente, ainda que seja uma forma de limitar o crescimento dos clubes. Por que fazer grandes campanhas com torcedores e com patrocinadores se o clube não pode gastar o dinheiro? — indagou Cesar Grafietti.
Ao mesmo tempo que limitantes, essas medidas podem contribuir para evitar distâncias tão grandes nos valores dos times. Por exemplo, só o que gastaram em salários, Arsenal (327,8 milhões de libras), Chelsea (337,8 milhões), Manchester United (364,7 milhões), Liverpool (386,1 milhões) e Manchester City (412,6 milhões) superam todo o faturamento do Newcastle em 2023/24 (320,3 milhões).
A ver se encontrarão uma solução para resolver e tornar mais fácil que o Big Six, pelo menos financeiramente, não seja um grupo quase impossível de ser alterado pelas regras atuais.



