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Chelsea confirma Thomas Tuchel, que chega para ser o oposto de Frank Lampard

O Chelsea confirmou nesta terça-feira a contratação de Thomas Tuchel como seu novo técnico. O alemão, de 47 anos, chega depois de uma experiência de dois anos e meio à frente do Paris Saint-Germain, de onde saiu em dezembro. Seu contrato será de 18 meses, com opção para mais um ano, o que significa terminar esta temporada e mais um ano. Não é muito tempo e faz sentido que seja assim, considerando não só o histórico do treinador, em conflito constante com a diretoria dos clubes que dirige, como também pelo histórico dos Blues em fritarem os ocupantes da casamata.

Tuchel chega para substituir Frank Lampard, mas possui um perfil bastante diferente do antecessor. Segundo o Guardian, a negociação com a diretora Marina Granovskaia foi dura, mas o técnico alemão está empolgado com a oportunidade de dirigir o clube londrino. Ele será o 11º técnico permanente escolhido pela era Roman Abramovich, que começou em 2003. A estreia já será nesta quarta-feira, quando o Chelsea enfrenta o Wolverhampton no Estádio Stamford Bridge. O técnico disse a interlocutores próximos que quer assumir a responsabilidade pelo desempenho do time.

“Eu gostaria de agradecer ao Chelsea pela confiança colocada em mim e na minha equipe”, afirmou Tuchel, em comunicado. “Nós todos temos o maior respeito pelo trabalho de Frank Lampard e o legado que ele criou no Chelsea. Ao mesmo tempo, eu mal posso esperar para encontrar meu nome time e competir na mais empolgante liga no futebol. Eu sou grato por ser agora parte da família Chelsea, é um sentimento incrível”.

A trajetória de Lampard no Chelsea foi de um ídolo escolhido com uma missão difícil em uma temporada sem poder contratar a um problema depois de gastar mais de £200 milhões e estar em nono lugar, com risco de ficar fora da Champions League na próxima temporada. Mais do que o campo, há muitos outros motivos que levaram o Chelsea a demitir o ídolo Lampard depois de um ano e meio no cargo.

O nome preferido do Chelsea era o de Julian Nagelsmann, do RB Leipzig, mas nem o clube, nem o treinador quiseram sequer negociar. Só haveria uma possibilidade ao final da temporada e o Chelsea não poderia esperar. Ralf Rangnick também foi procurado, mas não aceitou assumir só até o final da temporada e depois migrar para um cargo de coordenação. Um nome especulado foi o de Andriy Shevchenko, mas o ex-jogador foi considerado muito inexperiente, um problema similar ao que tinha Frank Lampard. Tuchel, desejado pela diretoria do Chelsea quando Antonio Conte deixou o clube, mas sem conseguir acordo na época, foi o escolhido, então.

Tuchel é visto como um treinador muito tático, que gosta de times bastante organizados. Ele conversou com os atacantes Kai Havertz e Timo Werner antes do treinamento. Alemães como ele, os dois têm sido reservas do Chelsea e não conseguiram render bem com Lampard no comando. Tuchel vê um grande potencial nos dois jogadores para o ataque. Além disso, ele foi técnico de Christian Pulisic no Borussia Dortmund e é admirador do futebol de Callum Hudson-Odio.

Além disso, analisando o elenco, ele acredita que poderá montar um meio-campo com Mateo Kovacic, Jorginho e N’Golo Kanté no centro do campo. Também tem um relacionamento próximo com Thiago Silva, que era o capitão do time no PSG e queria que o jogador permanecesse em Paris, mas o clube decidiu pela sua saída. Até por isso, é provável que Thiago Silva tenha um papel importante no vestiário do clube para ajudar na adaptação do técnico.

No Chelsea, Tuchel é visto como uma espécie de oposto de Lampard. E uma frase dita anos atrás pelo treinador alemão, curiosamente, se encaixa perfeitamente na atual circunstância. “Ser técnico é algo que você precisa aprender e entender, não apenas uma coisa que você faz quando não resta mais nada ou porque parece o próximo passo lógico depois de 400 jogos profissionais”. Obviamente, a frase, dita há anos, como dissemos, não tinha como alvo Lampard, mas poderia tranquilamente ser dita agora em relação ao inglês.

Lampard era visto como um treinador sem experiência como técnico e como uma celebridade que ganharia as arquibancadas imediatamente. Tuchel chega sem qualquer carisma ou afeição do público, é muito preparado, estudado, um técnico detalhista em termos táticos e de preparação e que, por isso também, tem uma personalidade difícil e que nem todo mundo consegue lidar bem.

Querendo ou não, Lampard era uma estrela, uma celebridade. Foi um jogador de sucesso, muito amador e querido até por outros torcedores pela Inglaterra pelo seu papel na seleção. No mínimo, muito respeitado pelo país. Tuchel não. Nunca foi jogador, passa longe de ser um técnico carismático, tem trabalhos em que cria alguns detratores rapidamente e sequer é inglês, ou seja, além de tudo, é um cara de fora ocupando o lugar de um local. Ser uma estrela é tudo que Tuchel não acredita: ele acredita que ser técnico é algo que exige preparo e muito estudo, não uma experiência calçando chuteira por anos a fio nos maiores clubes do mundo.

A contratação de Tuchel lembra a de Conte: um perfil extremamente detalhista em termos táticos, muito exigente, controlador, estrangeiro e que passa lonfe de se preocupar em ter qualquer aspecto de carisma ou ser agradável. Diferente de Carlo Ancelotti, por exemplo, um técnico com muitas dessas qualidades táticas e de trabalho detalhado, mas com uma capacidade de gestão de grupo e, por que não, de lidar com a política do dia a dia do que Tuchel e Conte, explosivos por natureza.

O trabalho no PSG exigia de Tuchel algumas qualidades que Ancelotti – que tinha passado por lá anos antes – tinha, mas ele não. Quando o alemão reclamou sobre sentir que tinha um trabalho às vezes que lembrava de relações públicas, e não de técnico, ele irritou a hierarquia dos parisienses, mas ele tinha razão também. O clube também teve razão quando não o quis mais.

No Chelsea, há mais espaço para que ele trabalhe um time coletivo, que não tenha tanto que lidar com eventos, histórias e superestrelas. As estrelas são alemães, como ele, e têm um perfil muito mais discreto em Havertz e Werner, ou mesmo Pulisic. Nenhum deles tem o perfil de um Kylian Mbappé, ou mesmo um Neymar. Nem o Chelsea é um clube tão cheio de truques de marketing e necessidade de relações públicas constantes.

O técnico tem como característica do seu trabalho tentar priorizar o coletivo em detrimento do individual, uma tarefa quase impossível em um PSG estelar. Mesmo assim, levou o time à final da Champions League com um rendimento melhor que em anos anteriores, especialmente em termos coletivos. Só que Tuchel costuma ter uma duração determinada. Mais do que duas temporadas é algo complicado, ainda mais em clubes tão explosivos em termos de bastidores como o Chelsea. Por isso, o contrato de 18 meses, ainda que com opção de mais um, parece adequado.

O grande risco de Thomas Tuchel é que ele costuma ter problemas com a direção dos clubes que dirige, como já foi citado. Ele deixou o cargo no Borussia Dortmund depois de um conclito com a direção dos aurinegros, e a sua saída do PSG veio depois de uma guerra pública de declarações com a direção dos parisienses, que é comandada pela família real do Catar.

O objetivo dado a Tuchel é claro: estar entre os quatro primeiros colocados ao final desta temporada. Qualquer coisa pior do que isso será considerado um fracasso. Para a próxima temporada, será importante que o clube brigue pelo título, expectativa que a direção do Chelsea esperava já para esta temporada, ainda que alertados por Lampard que os reforços precisariam de tempo para se adaptar.

“Nunca é fácil mudar o técnico no meio da temporada, mas nós estamos muito felizes em assegurar um dos melhores técnicos da Europa com Thomas Tuchel”, diz Granovskaia, em comunicado. “Ainda há muito a se jogar e muito a conseguir, nesta temporada e nas próximas”, continuou a dirigente, indicando que a cobrança continuará forte – e o fogo alto também, caso o primeiro técnico alemão da história do clube não tenha sucesso.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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