Premier League

O que levou à demissão de Lampard no Chelsea, que deve ter Thomas Tuchel como substituto

O Chelsea anunciou nesta segunda-feira a demissão do técnico Frank Lampard, de 42 anos. O ídolo do clube deixa o clube depois de um ano e meio no cargo, em que conseguiu um bom primeiro ano, mas na segunda temporada faz campanha decepcionante. Já se sabe também que o substituto, embora ainda não confirmado pelo clube, será o ex-técnico do PSG, Thomas Tuchel.

Demitir um ídolo não é fácil, mas o clube de Stamford Bridge não é exatamente conhecido pela paciência com seus treinadores. Mais do que isso: o investimento alto no time fez com que a pressão também fosse maior. Lampard falhou em entregar tanto bom futebol quanto bons resultados.

“Esta é uma decisão difícil para o clube, não apenas porque eu tenho um excelente relacionamento pessoal com Frank e porque eu tenho o máximo respeito por ele. Ele é um homem de grande integridade e ele tem a maior das éticas de trabalho. Contudo, sob as atuais circunstâncias, nós acreditamos que o melhor é trocar o técnico”, afirma Roman Abramovich, dono do clube, em comunicado.

“Em nome de todos no clube, a diretoria e pessoalmente, eu gostaria de agradecer Frank pelo seu trabalho como técnico e desejar a ele todo o sucesso no futuro. Ele é um ícone importante para este grande clube e seu status aqui continua inalterado. Ele sempre será bem-vindo de volta a Stamford Bridge”, continua o dirigente.

Desgaste de Lampard no Chelsea vem de muito tempo

Segundo o site The Athletic, havia pressão sobre Lampard antes mesmo do início da temporada. “No momento que ele entrar em uma série de quatro ou cinco resultados, o Chelsea irá decidir fazer uma mudança”, afirmou uma fonte ao site, ainda em agosto, antes mesmo da primeira rodada da Premier League. “Lampard não irá durar muito se houver uma queda séria nos resultados, especialmente depois de todo o dinheiro que foi gasto. Ele está em uma situação muito precária e eu só posso ver isso acabando de um jeito”.

Poderia parecer um exagero, ainda mais depois da boa temporada no primeiro ano do jovem treinador pelo clube. Lampard levou o Chelsea os Blues ao quarto lugar, com algum esforço, garantindo a participação na Champions League. Dentro do resultado esperado, ainda mais em uma temporada que Liverpool e Manchester City estiveram tão acima dos rivais, especialmente os Reds.

Nesta temporada, porém, a expectativa era alta. Especialmente porque o clube abriu a carteira para reforçar o elenco. Kai Havertz (£72 milhões), Timo Werner (£47,7 milhões), Ben Chilwell (£45,18 milhões), Hakim Ziyech (£36 milhões) e Edouard Mendy (£21,6 milhões), Malanga Sarr (transferência livre) e Thiago Silva (transferência livre) chegaram para tornar o Chelsea mais forte. Foram £222 milhões gastos, uma quantia maior que todos os concorrentes.

O Chelsea chegou a liderar a Premier League no dia 5 de dezembro, depois de vencer o Leeds. Desde então, a situação se deteriorou muito e os Blues estão apenas no nono lugar, atrás de Everton, West Ham e Aston Villa. Tem 29 pontos, enquanto o líder, Manchester United, tem 40. O quarto colocado, Liverpool, tem 34. A situação em campo e nos resultados é ruim, mas isso é só uma parte da história. O desgaste de Lampard vem acontecendo aos poucos e os problemas em campo foram só o último capítulo dos problemas.

Um começo turbulento já na negociação de contrato

Lampard não era visto como o técnico ideal pela direção do Chelsea, mas tinha uma qualidade importante para um ano que se previa ser muito difícil: é um ídolo do clube. Os Blues foram punidos pela Fifa em 2019 com a proibição de contratar jogadores por duas janelas de transferências por irregularidades com menores de idade. A punição depois foi reduzida pela metade em dezembro, permitindo novas contratações em janeiro de 2020. Por isso, o clube sabia que seria difícil competir com os principais concorrentes. Ter Lampard era útil: ajudava a engajar os torcedores e que eles tivessem mais paciência, caso as coisas não dessem tão certo.

A negociação já criou problemas: havia uma proposta bem lucrativa de outro clube, mas quando o Chelsea bateu à sua porta, Lampard não teve dúvidas. Sabia que era arriscado assumir um clube com tamanha expectativa depois de apenas uma temporada como técnico. Sua relação com o clube, de 2001 a 2014, dava um certo lastro a ele. Só que a negociação foi complicada. O ex-jogador já tinha avisado ao Derby que deixaria o clube e a proposta do Chelsea foi muito menor do que o esperado. O salário era de cerca de £4 milhões por ano, muito menor do que outros técnicos contratados pelo clube. Claro, possivelmente justificados pela falta de experiência do ex-jogador, mas que fez com que o relacionamento entre o novo técnico e a diretora Marina Granovskaia já começasse mal.

Isso piorou quando Lampard trouxe a lista de quem ele queria trazer para a sua comissão técnica: Jody Morris, Joe Edqards e Chris Jones, que foram autorizados. Shay Given, que seria o treinador de goleiros, foi barrado. Além disso, Eddie Newton, gerente técnico de empréstimos, continuaria no clube e Lampard teria que trabalhar com ele. Era um nome de confiança da diretoria e o técnico sabia que o clube tinha uma estrutura política. Ele nunca foi muito envolvido no trabalho e acabou deixando os Blues em janeiro de 2020, seis meses depois do início do trabalho do treinador.

Divergências sobre transferências e reclamações públicas

Em janeiro de 2020, com a queda do embargo de transferências, e com o clube brigando para terminar entre os quatro primeiros, Lampard pediu dois reforços: Pierre-Emerick Aubameyang, que estava considerando deixar o Arsenal, e Hakim Ziyech. Nenhum dos dois chegou naquele mês. Ziyech, porém, acabou contratado em fevereiro, só para a temporada 2020/21, que começou em setembro.

Lampard começou a reclamar publicamente da falta de reforços. O relacionamento com Granovskaia já estava desgastado. Foi quando o Chelsea começou a considerar um plano B para o caso de demitir Lampard, com Mauricio Pochettino e Julian Nagelsmann na lista. Só que no fim da temporada, depois da paralisação por causa da pandemia, Lampard levou o time ao quarto lugar e à final da Copa da Inglaterra.

Além disso, ele fez algo que nenhum técnico anterior tinha feito: incorporar muitos jogadores da base no elenco, com alguns deles sendo importantes no desenvolvimento do time. Com tudo isso, Lampard ganhou crédito e foi mantido no cargo. Mas já não tinha um grande suporte na diretoria. Apesar disso, a relação de Lampard com o dono do clube, Roman Abramovich, ainda era boa e forte.

Outro ponto de discórdia foi a relação com o goleiro Kepa Arrizabalaga. Lampard tirou o jogador do time titular ainda na temporada passada, colocando Willy Cabalero. Depois, no verão europeu, no meio do ano de 2020, pediu a contratação de um novo goleiro. O clube achava que era mais importante tentar recuperar o goleiro, que custou uma fortuna (tornou-se o mais caro goleiro da história quando foi comprado por £71,6 milhões em 2018). O clube estava relutante em aceitar o pedido do técnico por um novo goleiro, mas as duas primeiras atuações do goleiro espanhol na temporada atual fizeram com que ele recebesse o que pediu: Edouard Mendy chegou e tomou conta da posição.

Outro ponto de discórdia foi o pedido por Declan Rice, do West Ham. Queria a contratação na última janela de verão e voltou a pedir nesta janela de inverno. O jogador passou pela base do Chelsea, mas foi dispensado e despontou nos Hammers. A insistência de Lampard na contratação irritou os dirigentes. Especialmente porque não queria gastar uma fortuna para contratar um jogador que já foi da sua base, pela repercussão negativa. Essa discussão já fez o técnico balançar.

Em relação a transferências, há outro ponto: segundo uma fonte do Athletic, só um dos seis contratados veio a pedido de Lampard, o lateral esquerdo Ben Chilwell. Todos os outros vieram por indicação do clube. Além disso, o técnico queria uma reformulação da defesa com a contratação de James Tarkowski, do Burnley, e vender Fikayo Tomori, Marcos Alonso e Antio Rudiger. O técnico estaria aberto até à possibilidade de negociar Cesar Azpilicueta, capitão do time, se chegasse uma boa proposta. Todos esses jogadores ficaram e Tarkowski não chegou. O Chelsea contratou Thiago Silva, o que não estava nos planos de Lampard, mas que não se opôs e achou que a experiência do jogador poderia ser importante.

Lampard também irritou a direção quando não conseguiu fazer com que as duas principais contratações do time, Kai Havertz e Timo Werner, rendessem bem. Mais do que isso: pareceu, em algum ponto, que o técnico desistiu de recuperá-los, especialmente Havertz. Mas mesmo no caso de Werner, o seu uso como um ponta esquerdo, mais do que um atacante, também gerou questionamentos. E agora, além de reclamar sobre a falta de transferências, o técnico também criticou os jogadores, como na derrota para o Arsenal por 3 a 1. Gerou insatisfação também no vestiário.

A fase ruim fez com que mesmo o dono do clube Roman Abramovich deixasse de apoiar o técnico. Ele mesmo estava insatisfeito com o que vinha acontecendo depois da derrota para o Manchester City. O ponto de não retorno, porém, aconteceu depois da derrota para o Leicester, de Brendan Rodgers, no último dia 19. Abramovich, então desistiu de Lampard e passou a procurar um substituto. A situação era tão ruim que o próprio técnico sabia que seu tempo tinha acabado. Ele cumprimentou os jogadores no vestiário e agradeceu pelos esforços feitos sob o seu comando.

A insatisfação era dos dois lados. Lampard teria se demitido antes do início da temporada se fosse outro clube que não o Chelsea, segundo o Athletic. Como era o clube com o qual tem uma ligação forte, permaneceu. Mas a relação era ruim e era muito desgastante para o técnico. A insatisfação dos dois lados deixava tudo por um fio antes mesmo da bola rolar em 2020/21.

Os jogadores também estavam insatisfeitos. Muitos deles reclamavam que o técnico não conversava com eles. Alguns sentiam que o técnico os tinha abandonado. Além disso, alguns jogadores sentiam falta de um detalhamento tático maior, algo que Lampard não fornecia. Sentiam que faltava um detalhamento sobre o plano de jogo para as partidas.

Por outro lado, foram oito jogadores da base que estrearam no time principal com Lampard, algo que nenhum outro técnico sob o comando de Abramovich fez. O Chelsea é conhecido por ser um grande formador de jogadores, mas é péssimo em aproveitá-los. Lampard parecia tentar mudar isso. Primeiro, porque sem contratações, era fundamental olhar para esses jogadores. Nomes como Mason Mount e Tammy Abraham se tornaram importantes na equipe.

Lampard recebeu a proposta de ir para o Chelsea muito cedo, ainda muito jovem na profissão, com apenas um ano de profissão. Talvez tenha faltado experiência para explorar um elenco que tinha muito talento, talvez tenha faltado tato para lidar com os jogadores e talvez tenha faltado até mesmo experiência para lidar com um clube muito cheio de política interna como é o Chelsea em relação a outros clubes ingleses. Tudo isso tem um peso. Os resultados e o futebol insatisfatório, foi mais um fator, não só o único.

A situação, porém, se tornou irreversível. Sem a confiança de Granovskaia e nem de Abramovich, com insatisfações na hierarquia do clube e no vestiário, Lampard perdeu todo o apoio que tinha. Os resultados ruins foram o fim da linha para o treinador. Ele ganhou um bilhete azul, anunciado nesta segunda-feira.

Busca de um substituto alemão

O Chelsea passou a buscar um técnico, mesmo que interino, para o lugar de Lampard. O experiente Ralf Rangnick recebeu a proposta de ser o técnico interino até o fim da temporada e depois ser convertido em diretor, mas ele recusou. O clube tinha a ideia de trazer um técnico que falasse alemão, justamente para tentar tirar o máximo dos seus contratados, Havertz e Werner, dois jogadores de seleção alemã.

Julian Nagelsmann foi sondado, mas o Leipzig não aceitou nem negociar. Thomas Tuchel passou a ser cotado como o substituto. Inicialmente, o ex-treinador do PSG não queria assumir durante a temporada, mas foi convencido a isso. Ele já tinha sido cotado para assumir o comando dos Blues dois anos antes, quando Antonio Conte deixou o clube.

Tuchel está sem trabalho desde a demissão no PSG, no final de dezembro. O técnico ficou duas temporadas no clube de Paris, com dois títulos franceses, além de levar a equipe à final da Champions League na temporada passada, quando perdeu para o Bayern de Munique. Trabalhou antes no Mainz, em 2009, e ficou até 2014, mantendo o clube na primeira divisão e usando muito a base. De 2015 a 2017, esteve no Borussia Dortmund, onde fez boas campanhas, ganhou uma Copa da Alemanha, mas deixou o clube após desgaste com a direção dos aurinegros.

O desgaste com a direção se repetiu em Paris, onde o treinador estava no meio da sua terceira temporada quando foi demitido. Veremos como será a relação de Tuchel, que é visto como alguém de personalidade forte, com a direção do Chelsea, que normalmente é dura na queda.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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