Premier League

Cheio de jovens talentos, como era o Southampton que havia liderado o Inglês pela última vez, em 1988/89

O Southampton possui uma história respeitável na elite do Campeonato Inglês. A estreia até demorou a acontecer, em 1966, mas o clube somou 44 aparições na primeira divisão desde então. O período mais relevante dos Saints aconteceu no início da década de 1980, quando bateram cartão na Copa da Uefa e registraram um vice-campeonato em 1983/84 – em campanha na qual tinham Peter Shilton como sua grande figura, pouco depois da saída de Kevin Keegan. A última vez que os alvirrubros chegaram a ocupar a liderança da liga, porém, foi posterior: em setembro de 1988, num desempenho que logo declinaria. Última vez até esta sexta, quando, depois de 32 anos, o Southampton voltou a dormir na liderança da primeira divisão inglesa.

Depois do vice em 1983/84, o Southampton não manteve seu nível. A equipe ainda registrou um quinto lugar na temporada seguinte, mas passou a frequentar o meio da tabela depois disso, variando do 12° ao 14° lugar de 1985/86 a 1987/88. Além do mais, os Saints também perderam os jogadores de seleção inglesa que compunham seu elenco. Shilton arrumou as malas para o Derby County em 1987, enquanto Mike Mills e Mark Wright também deixaram o estádio The Dell. Para 1988/89, os alvirrubros contavam com um grupo que mesclava medalhões e bons valores que logo fariam história.

Naquele momento, o Southampton era treinado por Chris Nicholl. O antigo zagueiro tinha sido um dos símbolos da ascensão do clube na virada dos anos 1970 para os 1980. Aposentou-se em 1984 e logo se tornou assistente do técnico Lawrie McMenemy. Nicholl assumiu o posto principal um ano depois, em 1985, e não teria uma missão fácil, considerando o peso do trabalho de seu antecessor – que, em 12 anos de clube, além do referido vice-campeonato de 1983/84, também faturou a FA Cup de 1976, em tempos nos quais os alvirrubros frequentavam a segunda divisão. O novo comandante possuiria como seu grande mérito o olhar às categorias de base, dando espaço a uma excelente fornada de talentos.

Entre os prodígios que figuravam no Southampton de 1988/89 estavam vários jogadores que marcariam seu nome na elite do Campeonato Inglês. Matt Le Tissier era uma figura frequente no ataque, em sua terceira temporada como profissional. Aos 20 anos, a lenda dos Saints já oferecia seu talento ímpar para proporcionar gols inacreditáveis, e teria um desempenho marcante justo no momento em que o time se alçou à liderança. Outra opção na linha de frente era Alan Shearer, que completara 18 anos e costumava frequentar mais o banco de reservas – apesar da estreia apoteótica meses antes, com hat-trick diante do Arsenal. A defesa ainda possuía Neil Ruddock, zagueiro que seria titular do Liverpool anos depois, mas na época entrava pouco pelos alvirrubros; e o lateral Francis Benali, que superaria as 300 aparições na agremiação, também reserva.

O protagonismo naqueles tempos cabia à família Wallace. Aos 19 anos, Rod Wallace eclodiu no ataque. O garoto anotou 13 gols no Campeonato Inglês de 1988/89 e foi o artilheiro da equipe na campanha. Faria mais duas ótimas temporadas com os Saints, antes de se transferir ao Leeds United para ser campeão nacional. Sua afirmação tinha a companhia de Ray Wallace, seu irmão gêmeo. O lateral não emplacaria como Rod, mas seria titular absoluto naquela edição da liga. E os dois eram guiados ainda por Danny Wallace, o mais velho dos irmãos. Aos 25 anos, era outra peça notável na linha de frente e tinha uma carreira mais consolidada. Chegou a atuar pelas seleções de base e também a entrar em campo pela Inglaterra em 1986. Em 1989, deixaria The Dell para vestir a camisa do Manchester United.

Dentre outros nomes mais tarimbados daquele Southampton, aparecia o meia Jimmy Case, estrela do grupo. O veterano de 34 anos tinha empilhado títulos com o Liverpool, incluindo três Champions e quatro edições do Campeonato Inglês. Era a referência dos Saints, famoso por seus chutes potentes. Também no meio, Glenn Cockerill foi uma bandeira do Southampton naquele período, com boa qualidade técnica. A zaga contava com Russell Osman, outro multicampeão. Parte importante do Ipswich de Sir Bobby Robson no começo da década de 1980, frequentou a seleção inglesa e até participou do filme ‘Fuga para a Vitória’. Também compunha o setor o lateral Derek Statham, com passagem pela seleção e bons momentos no West Brom do fim dos anos 1970.

O goleiro era o rodado John Burridge, de 37 anos, que possuía um currículo recheado de passagens por clubes tradicionais. Ele foi importante para ajudar a evolução de Tim Flowers, jovem de 22 anos trazido do Wolverhampton e que pouco tempo depois ganharia sequência nos Saints. Viraria um dos principais goleiros da Inglaterra na década de 1990, especialmente nas metas de Blackburn e Leicester. Já no ataque, vale mencionar ainda Paul Rideout, repatriado do Bari naquela temporada e que depois teria uma relação forte principalmente no Everton, autor do gol do título na FA Cup de 1995. Artilheiro em anos anteriores e presente na Copa de 1986 com a Irlanda do Norte, Colin Clarke jogou pouco naquela campanha, de saída dos alvirrubros. O meia Barry Horne, figurinha carimbada da seleção galesa, viria ao final da temporada, assim como lateral Micky Adams, símbolo do clube nos anos seguintes.

A liderança do Southampton no Campeonato Inglês de 1988/89 seria circunstancial. Afinal, o feito refletia o início imparável do time de Chris Nicholl naquela temporada. Foram três vitórias consecutivas nas três primeiras rodadas, que valeram a ponta à frente do Norwich City graças ao saldo de gols – os Canários tinham em seu plantel Andy Townsend, que deixara pouco antes The Dell. Um detalhe curioso dos Saints naquele período era sua camisa: o modelo era idêntico ao usado pela Dinamarca na Copa de 1986, produzido pela própria Hummel, empresa dinamarquesa que fornecia o material esportivo à seleção de seu país.

Com uma ofensiva formação pautada no 4-2-4, o Southampton deu largada no Campeonato Inglês 1988/89 com uma goleada por 4 a 0 sobre o West Ham em The Dell. Rideout foi o nome da partida, com dois gols. Cockerill também deixou o seu, enquanto Le Tissier balançou as redes saindo do banco – num golaço, no qual deixou três adversários pelo caminho antes de emendar às redes. Os Hammers acabariam rebaixados naquela temporada, apesar das presenças de Liam Brady, Paul Ince e Alvin Martin no plantel.

Le Tissier ganhou a vaga de titular e seria dele o gol da vitória no compromisso seguinte, 1 a 0 sobre o Queens Park Rangers em Loftus Road. Osvaldo Ardiles e Trevor Francis eram os medalhões dos londrinos na época, com David Seaman despontando no gol. Já na terceira rodada, de volta a The Dell, o Southampton derrotou por 2 a 1 o Luton Town – em seu principal período na elite inglesa, logo após faturar a Copa da Liga na temporada anterior. Rideout abriu o placar, Steve Forster empatou no finalzinho e Rod Wallace anotou um gol salvador nos acréscimos do segundo tempo. O esforço que valeu a primeira colocação.

Mesmo perdendo os 100% de aproveitamento, o Southampton arrancaria um bom resultado na quarta rodada. Empatou por 2 a 2 contra o futuro campeão Arsenal, em Highbury, com gols de Le Tissier e Rod Wallace. Contudo, o tropeço tiraria a equipe do topo da tabela e abriria uma série de quatro partidas sem vitórias pela liga, incluindo derrotas para Liverpool e Everton. Os Saints se mantiveram entre os cinco primeiros até o meio do primeiro turno, com direito a vitórias sobre Tottenham e Aston Villa, além do empate contra o Manchester United em Old Trafford. O problema é que o time despencou a partir disso.

O Southampton passou 14 rodadas sem vitórias de dezembro a março, que deixaram a equipe a uma posição da zona de rebaixamento. A recuperação, ao menos, evitou o descenso. Os Saints voltaram a embalar na reta final. Passaram seis rodadas invictos, incluindo triunfos sobre United e Aston Villa. Fecharam a campanha no 13° lugar, seguindo a tendência dos anos anteriores. Uma melhora ocorreria em 1989/90, com a sétima posição e o primeiro ano espetacular de Le Tissier, autor de 20 gols na liga. Seria a melhor campanha dos alvirrubros até 2014/15, quando repetiram a sétima colocação na Premier League, depois de um tempo na vice-liderança durante o primeiro turno. Superariam a classificação final com o sexto lugar de 2015/16.

A partir da década de 1990, o Southampton se manteria como figurinha carimbada no meio da tabela do Campeonato Inglês. O clube seguiu na elite de maneira ininterrupta até o rebaixamento em 2004/05. Na virada rumo à criação da Premier League, pôde desfrutar do talento de seu trio de ataque formado por Le Tissier, Rod Wallace e Shearer. Mas, apesar da artilharia pesada, a liderança era apenas uma utopia. Foi isso que Ralph Hasenhüttl conseguiu nesta sexta-feira, botando fim a uma espera de 32 anos e resgatando a memória de tantos nomes marcantes aos Saints.

A última vez de cada time da Premier League na liderança, segundo a Sky Sports:

Southampton 06/11/2020
Liverpool 05/11/2020
Everton 30/10/2020
Leicester City 02/10/2020
Arsenal 18/09/2020
Man City 16/08/2019
Chelsea 21/09/2018
Man Utd 10/08/2018
Tottenham 29/08/2014
Fulham 21/08/2012
Aston Villa 20/08/2011
Newcastle 13/08/2007
West Ham 22/08/2006
Leeds Utd 26/08/2002
Crystal Palace 05/10/1979
West Brom 02/02/1979
Burnley 31/08/1973
Sheffield Utd 08/10/1971
Wolves 05/10/1962

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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