Deixar-se levar pelo clima fantasioso e os cenários épicos de Guerra dos Tronos e usar isso como inspiração para romantizar o mundo do futebol não é lá uma novidade. Bem, pelo menos não neste blog. No ano passado, o estilo da saga serviu como referência para posts em que relatei sobre as semifinais da Liga dos Campeõeso título inédito do Chelsea o seu encontro com o Corinthians, no Mundial de Clubes. Fico feliz em saber que não sou o único maluco dessa história (além de Aerys II, pai de Daenerys e vovô dos dragões, claro).

Para celebrar o retorno do seriado, que está em sua terceira temporada, o tumblr “The Fifth Pitch”, dedicado a debochar dos clubes ingleses e seus principais personagens, teceu um paralelo entre os mais conhecidos participantes da Premier League e algumas das tradicionais “casas” presentes na série de livros “As Crônicas de Gelo e Fogo”, escritos pelo americano George R. R. Martin.

Os símbolos dos clubes foram revisitados e ganharam lemas alternativos, que parodiam os adotados pelas famílias mais destacadas nos livros. O resultado você confere a seguir, com a tradução do material original (a parte divertida), acompanhada de algumas cornetadas deste que vos escreve (a parte cretina):

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Coube aos gunners a comparação com aqueles que, a princípio, podem ser considerados os mocinhos da história: a família Stark (não confundir com a família Restart, pelo amor dos deuses antigos). O autor da brincadeira justifica a escolha com base nos acontecimentos trágicos que ambos os clãs andam enfrentando. Embora no caso do Arsenal, tragédia seja um termo muito dramático para algo que eu definiria como acomodação crônica.

Sobra também para o treinador Arsène Wenger, considerado orgulhoso e teimoso, assim como o patriarca Ned Stark. Os valores familiares de um clube que gosta de pegar jogadores jovens para criar (sem maldade) também entram na comparação, ainda que não se tenha notícia de nenhum Stark que tenha sido vendido a outra casa, tão logo assumisse a faixa de capitão de seu exército.

O famoso lema da Casa Stark, “O inverno está chegando”, que até serviu de slogan para a primeira temporada do seriado, foi adaptado como “A glória está chegando” e retrata a mentalidade de “na próxima temporada, nós vamos ganhar” que sempre toma o clube londrino, antes que a realidade inevitavelmente desabe sobre a sua cabeça. Em bom português brasileiro, poderia ser traduzido como “Agora vai!”.

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O leão da Casa Lannister serve de inspiração para a reinvenção do felino estampado no escudo dos blues. Afinal, os membros desse clã gostam de sair por aí prometendo mundos e fundos, expondo a sua riqueza inesgotável e se gabando de que um Lannister sempre paga as suas dívidas. Ainda que e Paris Saint-Germain tenham colocado a gastança do Chelsea em segundo plano, é notável que o povo de Stamford Bridge curte uma ostentação. Resta saber se os Abramovichs também continuarão com o seu Carnê do Baú rigorosamente em dia quando (ou se) o dinheiro se tornar escasso pelas estepes russas.

Chelsea e Lannisters guardam semelhanças também na forma ruidosa com que gostam de defender a sua reputação. Embora o site inglês zombe que muitos torcedores rivais continuam se perguntando: “mas que reputação?”. O pomposo lema “ouça-me rugir” foi traduzido pelo Fifht Pitch como “Ouça-me lucrar”, mas há de se perguntar se o barulho que tanto ouvimos não é apenas o som de moedas escorrendo pelo ralo. A verdade é que para os torcedores fanáticos da equipe, os títulos recentes valem cada centavo gasto, pois marcam a fase mais grandiosa da história da agremiação.

Praticamente alijado da briga por uma vaga na próxima edição da Liga dos Campeões, o Liverpool vai se acostumando, a contragosto, com a realidade de coadjuvante na Premier League. Da mesma forma, os Targaryen foram exilados de Porto Real, a capital dos sete reinos, ao serem expulsos do poder para dar lugar aos dias de glória de Starks e Baratheons. O clube da terra dos Beatles sabe bem o que é passar por isso, já que acabou subjugado pelo crescimento de e Arsenal, muito antes da invasão dos investidores excêntricos ao futebol inglês.

Desesperados para recuperar o seu lugar entre os grandes, tanto Liverpool quanto os Targaryen acabaram confiando em que não deviam, o que acabou atrasando no seu processo de retomada. No caso do clube, podemos citar os magnatas americanos George Gillet e Tom Hicks, que até levaram os Reds a uma final de Liga dos Campeões, mas não enganaram por muito tempo.

“Fogo e Sangue”, o mote da Casa Targaryen, soa um tanto violento demais para quem prefere a poesia de um igualmente voluntarioso “You’ll never walk alone”. Por isso, o site inglês optou por uma frase que reafirma o orgulho com que o torcedor do Liverpool relembra o seu glorioso passado. A partir da crença em “História e História”, os vermelhos buscam reviver os seus melhores dias e esperam que John W. Henry, o novo dono do clube, Brendan Rodgers, o seu esforçado treinador, e o interminável Steven Gerrard tenham a força de três dragões para reerguer a instituição o mais rápido possível.

Manchester City

Os citzens poderiam também se encaixar na Casa Lannister, devido à abundância de seus recursos e a indisfarçável sede de poder que os move. Mas, ao contrário do Chelsea, o Manchester City ainda busca reconhecimento de peso pesado do continente. Ainda que os adversários torçam o nariz para a sua riqueza repentina, o clube parece atrair menos antipatia que o Chelsea. O que talvez se explique pela forma menos assertiva que o clube expressa a sua ambição. Sendo assim, nada mais justo que comparar os sky blues aos Tyrell, que também buscam o topo, mas comendo sempre pelas beiradas.

Os Tyrell são, por assim dizer, alpinistas sociais. Evitam confrontos diretos e preferem subir na vida por meio de alianças, fazendo uso de voz mansa e jogo de cintura. Mas que ninguém se deixe enganar: eles querem muito. Eles querem tudo. O lema “Crescendo forte”, deixa isso bem claro. O Manchester City foi presenteado com um jocoso “Pagando forte”, uma referência aos gastos exorbitantes do clube com a folha salarial. Que o diga Yaya Touré, o quarto jogador mais bem pago do mundo, atrás apenas dos alienígenas Messi e Cristiano Ronaldo e do garoto-propaganda David Beckham.

Manchester United

Logo de cara, o Fifth Pitch já anuncia: o United é o time com que ele mais implica. Não sem razão, dado que os red devils são bem sucedidos, ardilosos e continuam fazendo de tudo para alcançar os seus objetivos. Os rivais constantemente o acusam de apelar para a desonestidade e juram de pé junto que Sir Alex Ferguson tem os árbitros no bolso, para que sirvam aos seus propósitos. Chororô de derrotado? Ou, como diria Chico Science, um homem roubado nunca se engana?

Ainda que não faça uso de táticas ilícitas, fica difícil para Ferguson negar o seu pacto muito bem amarrado com o tinhoso. O United raramente tropeça, enquanto os adversários sempre caem em um feitiço ali e outro acolá. Sem falar nos gols marcados nos acréscimos do segundo tempo, o já tradicional Fergie Time. O lendário treinador é comparado então a Melisandre, a sacerdotisa do fogo, que tem Stannis Baratheon na mão, cheia de promessas, caras, bocas e poses. Afinal, a Casa Baratheon também está sempre por cima, ainda que não suje tanto as mãos quanto os Lannister (repare que estes são sempre o centro das atenções).

A cornetada mais ácida fica para a tradução do lema Baratheon. De “Nossa é a fúria”, saiu um “Nossa é a fraude”. Os diabos vermelhos são mesmo “o coisa ruim” na cabeça de quem fez a adaptação.

Frequentemente subestimado, o Tottenham é visto como um coadjuvante por boa parte de seus principais adversários. O mesmo acontece com os membros da Casa Greyjoy. Eles mandam nas Ilhas de Ferro, mas… ninguém dá a mínima para aquela coleção de rochedos. Têm por hábito não incomodar ninguém, mantendo-se alheios ao ambiente tumultuado que os cerca. Na única vez em que destoaram dessa postura, declararam guerra ao trono de ferro e foram derrotados sem muita dificuldade. E ainda tiveram de engolir o desaforo de ver o herdeiro do clã sendo tomado como refém pelos Stark.

Surgia assim uma animosidade nem um pouco disfarçada entre as duas casas. Lembra que o Arsenal foi comparado mais acima à Casa Stark? Pois bem, gunners e spurs respiram uma rivalidade tão ou mais acirrada, manifestada a cada derby do norte de Londres. E é assim, nas sombras, suspirando alto, que Tottenham e os Greyjoy seguem pela vida, sonhando com um futuro melhor, mas sem se mexer muito para conquistá-lo. As novas gerações, no entanto, parecem mais ambiciosas. Gareth Bale e Theon esperam conseguir alcançar tudo que os seus antecessores mal se atreviam a cobiçar. Entre eles, acredito bem mais na capacidade do primeiro.

O lema dos Greyjoy é dúbio: “Nós não plantamos”. Serve tanto para se referir à impossibilidade de praticar a agricultura em terras pouco ou nada férteis, quanto ao fato de que a maioria de seus habitantes sobrevive de pilhagens feitas a embarcações estrangeiras. O criado para o Tottenham é tão sincero quanto, mas transbordando pessimismo: “Nós não triunfamos”. Que fase. Que já dura 52 anos, quando os lilywhites levaram o título inglês pela última vez.