Inglaterra

Pesquisa: 44% dos torcedores britânicos acham que o VAR tornou o jogo pior

A introdução do árbitro de vídeo era uma demanda constante, especialmente quando o apitador cometia erros crassos que poderiam ser facilmente corrigidos se ele tivesse acesso a um monitor. A International Board, responsável pelas regras do jogo, finalmente cedeu em 2016, quando deu permissão para o início dos testes. Convivemos com o VAR desde então, algumas ligas há mais tempo, outras há menos. Até adotamos a sigla em inglês para se referir ao sistema cuja aplicação, da maneira como tem sido feita, causa mais impacto ao futebol do que muitos imaginavam. Não que haja alguma discussão séria no momento sobre voltar atrás, mas o que os principais interessados – os torcedores – pensam sobre o assunto?

Bom, o futebol é o esporte mais popular do mundo. Contar a opinião de duas bilhões de pessoas não parece prático. Mas é para isso que existem os institutos de pesquisa. A BBC encomendou uma longa pesquisa à empresa Savanta ComRes, que entrevistou 5.476 adultos britânicos entre 20 e 24 de novembro, 2.100 dos quais se descrevem como torcedores de futebol, o montante relevante para o questionário que ela preparou. Os dados, segundo a Savanta, foram ponderados para representar demograficamente adultos britânicos por idade, gênero, região e classe social. É uma amostra equivalente à maioria das pesquisas eleitorais.

O que ela descobriu? Primeiro, bom frisar, o universo se restringe ao público britânico, que tem lá suas opiniões peculiares, como achar que peixe e batata formam uma refeição. Não é uma boa ideia transportá-las à totalidade dos torcedores mundiais. A pesquisa traz apenas um recorte.

E ela mostra que há um questão geracional. No geral, as opiniões favoráveis ao VAR são mais presentes no grupo de torcedores entre 18 e 34 anos. Menos presentes entre 35 e 54 anos e a galera com mais de 55 anos realmente não curte muito o negócio.

Por exemplo: 30% dos entrevistados acreditam que o árbitro de vídeo tornou o jogo melhor. Esse número sobe para 36% entre 18 e 34 anos e cai para 25% entre os acima de 55 anos. Por outro lado, 44% do total pensam que o jogo ficou pior com o VAR. Entre os mais jovens, essa porcentagem é de apenas 30%. Entre os mais velhos, chega a 59%.

Tem muito a ver com a maneira como ele é aplicado. O protocolo, quando foi inserido, previa os dois adjetivos mais mencionados dos últimos quatro anos e, paradoxalmente, também os mais ignorados: claro e evidente. O VAR deveria tratar apenas de erros crassos. Agora, em muitas situações, ele é usado para procurar faltinhas ou impedimentos milimétricos que acabam anulando gols que parecem legais. Sem entrar no mérito de se é uma aplicação correta ou não, os torcedores entrevistados para a pesquisa não estão satisfeitos.

Metade deles acredita que o VAR é aplicado de maneira inconsistente, contra apenas 28% que acham que a prática é consistente. Como a pergunta foi feita dessa maneira, o uso consistente ou não também está relacionado à subjetividade humana. Na era pré-vídeo, reclamávamos muito dos árbitros que apitavam sem critério, dentro de um mesmo jogo ou entre eles. Esses mesmos árbitros agora estão operando as máquinas. Eles não se tornaram magicamente mais coerentes só porque estão sentados em uma cadeira.

E, novamente, há uma grande diferença geracional. Porque 35% dos entrevistados entre 18 e 34 anos acreditam que o VAR é aplicado de maneira consistente. Acima de 55 anos? Apenas 19%. Entre os mais jovens, 33% caracterizam o uso como inconsistente. Entre os acima de 55 anos, 67% estão insatisfeitos com a aplicação. Esse número não cai muito no grupo etário intermediário: entre 35 e 54 anos, 59% disseram que a prática é inconsistente.

Resultado disso: embora 30% acredite que o esporte ficou melhor, apenas 26% acham que ele ficou mais empolgante – que, no fim das contas, é o objetivo de um jogo de futebol, certo? Esse número cai para 15% entre os mais velhos. Ok, 44% disse que o jogo ficou pior, mas 49% o considera menos empolgante. Em outras palavras, quase metade dos torcedores britânicos acredita que o futebol está mais chato por causa do VAR.

E não é muito difícil entender o motivo. A pesquisa também fez algumas afirmações frequentemente relacionadas ao VAR e perguntou se os torcedores concordavam com elas. E 45% deles acha que o VAR ainda comete erros; 41% que ele tirou o momento da comemoração do gol; 37% que ele para demais o jogo; e 28% que as margens sobre as quais ele decide os lances são irrelevantes. Ou seja, que se danem aqueles dois milímetros que tornou o jogador impedido. Essas são as quatro perguntas em que há uma diferença geracional maior entre as respostas – sempre pró-VAR entre os mais jovens.

As seguintes são mais ou menos unanimidades em todos os grupos etários. E traz uma situação curiosa: apenas 24% das pessoas acreditam que os erros humanos dos árbitros são parte do jogo, tudo bem continuarem acontecendo, mas somente 16% acreditam que eles arruínam a partida. Logo, não mais do que 13% dos entrevistados acham que a precisão do VAR justifica qualquer outro impacto na dinâmica do jogo.

E, de novo, tem a ver com a prática. Porque apenas 22% dos entrevistados acreditam que o VAR é uma garantia de que as decisões são mais justas e somente 19% disseram que agora há menos erros de arbitragem do que antes – que não é factualmente correto, porque a maioria dos balanços das comissões de arbitragem identificou aumento no índice de acertos, mas reflete o sentimento desses torcedores sobre o jogo que eles estão vendo.

Apenas por curiosidade, entre os principais clubes da Inglaterra, os torcedores de Arsenal (39%) e Chelsea (37%) são os mais satisfeitos com a aplicação do VAR. Os fãs dos dois maiores do país, Manchester United (29%) e Liverpool (26%), não o têm curtido tanto assim.

Você pode ver a pesquisa inteira clicando aqui.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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