Inglaterra

Paul McCartney, 75 anos: Quando o beatle emprestou sua voz em solidariedade a Hillsborough

As conexões entre os Beatles e o futebol, vez ou outra, são motivo de debates e pesquisas. Em uma cidade na qual os clubes fazem parte da identidade local, seria natural relacionar os músicos com Everton ou Liverpool. No entanto, nenhum dos membros do Fab Four era exatamente fanático pelo esporte. Quem mais se aproxima desse status, ainda que à distância, é Sir Paul McCartney. Mesmo sem carregar consigo uma febre irremediável pela bola, Macca possui um gosto especial pelos dois gigantes de Merseyside. Relação, aliás, que vai além dos momentos de alegrias.

Segundo suas próprias palavras, McCartney cresceu com hábitos de um torcedor comum. “Eu costumava jogar futebol na rua, mas eu não era muito bom nisso. Você acaba se desligando quando há garotos poderosamente maiores ou melhores que você. E foi assim com os Beatles, ninguém tinha a cabeça voltada aos esportes. Eu gosto de assistir aos jogos na televisão, vou de vez em quando ao estádio, mas não sou um grande torcedor”, analisou.

VEJA TAMBÉM: Por que a tragédia de Hillsborough aconteceu, e o que mudou depois dela

Ainda assim, McCartney costuma ter o seu nome ligado ao Everton. A explicação é simples: seu pai era fanático pelo Everton, assim como o restante de sua família. Entretanto, nada que impedisse o músico de ter também uma quedinha pelo Liverpool. Com o tempo, ele aprendeu a respeitar e a reverenciar as duas paixões de sua cidade.

mccartney

“Depois de um concerto na Wembley Arena, eu peguei amizade com Dalglish, que estava na plateia, e pensei comigo: ‘Quer saber? Vou torcer pelos dois times, porque todos são de Liverpool. Eu não me importo com essa coisa entre protestantes e católicos’. Então, tive uma dispensa especial do Papa para fazer isso. Torço para ambos. São dois grandes clubes. Mas, se houver um clássico, sou Everton, por causa da minha família”, declarou, em 2008.

VEJA TAMBÉM: Paul McCartney foi entrevistado por Suárez e deu para perceber que ele não entende muito de futebol

Durante a década de 1960, McCartney acompanhou o Everton em duas finais da Copa da Inglaterra. Primeiro, em 1966, foi até Londres junto com John Lennon para ver a vitória sobre o Sheffield Wednesday. Já em 1968, se misturou à multidão e, após a derrota para o West Brom, desceu aos vestiários para oferecer cigarros e uísque aos jogadores dos Toffees. Além disso, também se empolgou com os Reds em certos momentos, especialmente durante o ápice do esquadrão de Bob Paisley nos anos 1970. Em 1977, chegou a acompanhar pelo rádio, na mansidão de seu iate no caribe, a final da Copa da Inglaterra contra o Manchester United – vencida pelos Red Devils por 2 a 1. E em 2011, quando realizou um concerto em Anfield, convidou os dois elencos.

O maior gesto em relação ao Liverpool, de qualquer maneira, aconteceu dentro dos próprios estúdios. Em 1989, logo após o desastre de Hillsborough, que matou 96 torcedores dos Reds, o astro se solidarizou com as vítimas e seus familiares. Convidado por um produtor musical, participou de um single para arrecadar dinheiro aos afetados pela tragédia. Emprestou sua voz ao lado de outros artistas na regravação de ‘Ferry Cross the Mersey’, canção de 1964 ligada a Merseyside e que fala sobre superação. O hit atingiu o topo da parada britânica e permaneceu três semanas na primeira posição.

“Eu era DJ na Radio City e estava no ar naquele fatídico sábado de manhã em que aconteceu o desastre de Hillsborough. Depois, recebi o chamado para fazer o single em tributo. Fui para Liverpool e procurei McCartney. Conversei por telefone e ele me disse: ‘Em tudo o que você quiser, eu te ajudarei’. Ele veio ao estúdio e foi magnífico. Ficou bastante emocionado. Eu me lembro de mandar o álbum para sua casa e Linda me ligou, dizendo que eles tinham amado o resultado”, contou Pete Waterman, responsável pela produção.

VEJA TAMBÉM: Quando Lemmy cantou “You’ll Never Walk Alone” para ajudar os torcedores do Bradford City

E não seria a única vez que McCartney estenderia sua mão a Hillsborough. Em dezembro de 2012, ele se juntou a uma série de outros artistas na regravação de ‘He Ain’t Heavy, He’s My Brother’, balada de 1969 famosa na voz da banda The Hollies. O single alcançou o primeiro lugar da parada britânica durante o Natal. Os fundos levantados auxiliaram o Justice Collective, voltado a projetos de caridade relacionados a Hillsborough. Solidariedade que ressalta bem a grandeza de espírito do sir.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo