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Quando Lemmy cantou “You’ll Never Walk Alone” para ajudar os torcedores do Bradford City

“Eu não gosto de futebol. Eu prefiro rodeio e bilhar”. Ao contrário de muitos músicos britânicos, Lemmy Kilmster nunca teve paixão pela bola. Talvez algum trauma familiar, já que seu padrasto era George Willis, atacante com passagens por Wolverhampton, Brighton, Plymouth e Exeter City entre as décadas de 1940 e 1950. No entanto, por mais que o jogo não lhe atraísse, o líder do Motörhead viu o futebol atravessar sua carreira algumas vezes. E emprestou a sua fama para ajudar em uma das maiores tragédias do futebol inglês: o incêndio de Valley Parade, que matou 56 pessoas durante jogo do Bradford. Pequeno capítulo da lenda do rock que faleceu nesta segunda, de câncer, quatro dias depois de completar 70 anos.

Nascido na região de Stoke-on-Trent, Lemmy nunca manifestou simpatia pelo principal clube da cidade, o Stoke City. No máximo, o músico viveu um dos principais momentos do início de sua carreira na casa do rival Port Vale. Em 1981, ao voltar da primeira turnê pelos Estados Unidos, o Motörhead protagonizou um festival de heavy metal em sua terra natal. Cerca de 40 mil pessoas se espremeram no Vale Park. Ozzy Osbourne era outra grande atração.

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Quatro anos depois, Lemmy teria seu gesto de solidariedade junto ao Bradford. Em maio de 1985, o incêndio consumiu as arquibancadas de madeira durante um jogo comemorativo pela conquista da terceira divisão inglesa. Foram 56 vítimas fatais, além de centenas de feridos, em tragédia ocasionada não apenas pelo fogo e pela fumaça, mas também pelo desespero em sair do estádio em estruturas precárias. Assim, acabou convidado para fazer parte de um grupo de músicos britânicos que se reuniu para regravar o clássico “You’ll Never Walk Alone” – originalmente composto a um musical, e que se notabilizou no futebol graças à torcida do Liverpool.

Além dos membros do Motörhead, dezenas de outros artistas participaram do disco – incluindo John Entwistle (The Who) e Phil Lynott (Thin Lizzy), assim como Paul McCartney, que gravou mensagens no Lado B. Lemmy aparece inclusive no clipe, ao melhor estilo “We are the world”. O grupo, chamado de The Crowd, chegou ao primeiro lugar das paradas no Reino Unido em junho de 1985 e ganhou o disco de ouro. Contudo, a distribuição das doações gerou controvérsias, já que a gravadora se recusou a abrir mão da maior parte de seus lucros.

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Independente das preferências de Lemmy, o Motörhead chegou até mesmo a apoiar um clube infantil na última década. O símbolo da banda estampava as camisas do Greenbank, time sub-10 da Inglaterra. “Eu tive essa ideia bizarra em uma noite. Mandei um e-mail a eles e me responderam dizendo que era uma grande ideia”, declarou o técnico Gary Weight, em 2005. “Eu conheci Lemmy alguns anos atrás e acho que ele deve ter dado boas gargalhadas ao pensar em um time de futebol com o logo do Motörhead”. A graça de quem viveu em busca da própria diversão e fazendo a diversão dos outros.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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