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A outra semifinal entre Tottenham e Manchester United que entrou para a história da FA Cup

Tottenham e Manchester United têm história de peso na também tradicional Copa da Inglaterra. Adversários na semifinal da atual temporada, ambos já estiveram por longos períodos na condição de maior vencedor do troféu, e ainda hoje estão entre os que detém mais taças (a liderança está com o Arsenal). Na história da centenária competição, os dois clubes já se cruzaram em dez edições, com incrível equilíbrio: foram cinco classificações para cada lado. Mas apenas em uma delas aconteceu na etapa em que se encontram agora – a mais aguda a registrar um confronto. Aconteceu na temporada 1961/62, em jogo disputado no campo neutro de Hillsborough, Sheffield, no dia 31 de março de 1962.

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Os dois clubes viviam momentos bem distintos. Os Spurs atravessavam o auge de um time lendário, dirigido por Bill Nicholson. Na temporada anterior, haviam se tornado o primeiro clube a fazer a dobradinha inglesa no século, vencendo a liga e a FA Cup. Agora, brigavam em três frentes: a liga (em disputa com o Burnley, campeão de 1960, e o surpreendente Ipswich, recém-promovido), a própria FA Cup (em que teriam os Red Devils pela frente nas semifinais) e a Copa dos Campeões (na qual, depois de despacharem Górnik Zabrze, Feyenoord e o forte Dukla Praga, mediriam forças com o Benfica de Eusébio também nas semifinais).

Já o Manchester United seguia com seu processo de reconstrução após o desastre aéreo de Munique, quatro anos antes. Havia chegado ao vice-campeonato logo na temporada seguinte à tragédia, mas de lá para cá, vinha fazendo campanhas mais discretas. Enquanto isso, como parte da renovação, o time receberia novatos como Nobby Stiles, Tony Dunne e Norbert Lawton e via o atacante Bobby Charlton se firmar como seu principal nome. O único reforço de peso para a temporada era o goleador escocês David Herd, ex-Arsenal. Por outro lado, em janeiro, o antigo ídolo Dennis Viollet havia saído para o Stoke.

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No caminho até a semifinal dos Red Devils superaram Bolton, Arsenal, Sheffield Wednesday e Preston North End. À exceção deste último, que disputava a segunda divisão, todos os demais estavam na elite e terminariam à frente do próprio Manchester United na liga, o que só valoriza a trajetória da equipe de Matt Busby. Os Spurs também enfrentaram majoritariamente equipes da primeira divisão. Eliminaram o Birmingham no replay, golearam o Plymouth Argyle (a exceção, quinto colocado na segundona) e o West Bromwich Albion fora de casa, antes de superarem o Aston Villa por 2 a 0 em White Hart Lane.

Naquele sábado, 31 de março, cerca de 65 mil torcedores lotaram Hillsborough para a semifinal. Com os dois times armados no WM ainda vigente no futebol inglês da época (em números, uma espécie de 3-2-2-3), o Tottenham entrou em campo com seu time completo: o escocês Bill Brown era o goleiro. Peter Baker e Ron Henry eram os laterais direito e esquerdo, respectivamente, com Maurice Norman no centro da defesa. Os médios eram duas lendas do clube: o norte-irlandês Danny Blanchflower (capitão do time) e o também escocês Dave Mackay, aliando a técnica do primeiro à força do segundo.

O terceiro escocês do time era o meia-direita John White, que faleceria precocemente dali a dois anos, ao ser atingido por um raio. Mais à frente, pelas pontas, dois galeses: Terry Medwin na direita e o habilidoso Cliff Jones – que traria sérios problemas à defesa do Brasil num amistoso entre as duas seleções disputado no Maracanã, dali a dois meses – na esquerda. E pelo centro do ataque, atuavam nada menos que os dois maiores artilheiros da história dos Spurs: o centroavante Bobby Smith (208 gols em 317 jogos) e o lendário Jimmy Greaves (266 tentos em 381 partidas).

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O Manchester United tinha o importante desfalque do lateral-direito Shay Brennan, substituído naquele dia pelo defensor canhoto Tony Dunne, com Noel Cantwell entrando pelo lado esquerdo. Curiosamente, os três eram irlandeses, reforçando a ligação histórica do clube com o país. No mais, os titulares habituais daquela temporada, começando pelo goleiro David Gaskell (que tomara o lugar do experiente norte-irlandês Harry Gregg, antigo titular) e o zagueiro central Bill Foukes.

O duro Nobby Stiles e Maurice Setters formavam a dupla de médios defensivos, enquanto Albert Quixall, pela direita, e Norbert Lawton eram os armadores. Na frente, dois ponteiros que se consagrariam atuando na faixa central do meio-campo: o jovem talento irlandês Johnny Giles pela direita e o já consolidado Bobby Charlton, único nome daquela equipe na Copa do Mundo do Chile disputada dali a alguns meses, pelo lado esquerdo. No centro do ataque, o escocês David Herd.

Os Spurs começaram pressionando desde o início e saíram na frente logo aos quatro minutos, quando o oportunista Jimmy Greaves recebeu na área, na altura da marca do pênalti, e só desviou de David Gaskell. Senhor do jogo na maior parte do tempo, o Tottenham ampliou aos 23, numa bola alçada por John White da meia direita que cruzou a área até a cabeçada certeira do ponta Cliff Jones.

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Na etapa final, os dois times voltaram a campo sob uma intensa chuva de granizo, que durou alguns minutos. Mesmo com o United precisando reagir, foi o Tottenham quem seguiu controlando as ações, até perto do fim do jogo. Até que Bobby Charlton, o mais lúcido dos mancunianos, fez grande jogada pela esquerda e passou a David Herd, que chutou forte e cruzado, quase sem ângulo, vencendo Bill Brown.

O gol reacendeu as esperanças do time de Matt Busby, recolocando-o de volta no jogo. Mas não por muito tempo. Dois minutos depois, numa troca de passes precisa pelo lado direito, a bola caiu nos pés de Cliff Jones, que, numa inversão de lados, cruzou para Medwin escorar de cabeça na segunda trave, marcando o terceiro para os Spurs e selando a classificação para a final.

Na decisão, o Tottenham venceria o Burnley por 3 a 1 em Wembley, numa partida muito tática e estudada, que seria eternizada no jogo do país como “a final do tabuleiro de xadrez”. Aquela acabaria sendo a única taça levantada pelos londrinos na temporada: derrotados por 3 a 1 pelo Benfica em Lisboa, venceriam apenas por 2 a 1 na volta, perdendo a chance de decidir a Copa dos Campeões (a equipe de Eusébio bateria o Real Madrid na decisão). Enquanto isso, a liga inglesa assistiria à conquista inédita do Ipswich.

De qualquer forma, aquele troféu da FA Cup seria o passaporte do Tottenham para a conquista da Recopa no ano seguinte – primeiro título continental de um clube britânico – goleando o Atlético de Madrid por 5 a 1 na decisão em Roterdã. Já o Manchester United usaria a eliminação como aprendizado: no ano seguinte, seria a sua vez de levantar a FA Cup, batendo o Leicester na final. Seria a primeira taça dos comandados de Matt Busby desde a tragédia de Munique.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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