Inglaterra
Tendência

O Sheffield United manteve as bases do trabalho e garantiu o retorno à Premier League dois anos depois da queda

O Sheffield United optou por não realizar mudanças drásticas após a lanterna da Premier League e conquistou o acesso com relativa tranquilidade, quase sempre no G-2 da Championship

A espera em Bramall Lane não precisou ser tão longa. O Sheffield United confirmou sua volta à Premier League nesta quarta-feira, apenas duas temporadas depois de seu rebaixamento na lanterna da primeira divisão. As Blades bateram na trave durante a última Championship, com a queda nos playoffs contra o Nottingham Forest. Já desta vez, a consistência do United se manteve durante toda a campanha. À frente do elenco desde 2021, Paul Heckingbottom contou com a confiança da diretoria e pôde conduzir mais uma vez o grupo na segunda divisão. A aposta deu frutos, com uma trajetória segura na zona de acesso. A confirmação veio com duas rodadas de antecedência, graças à vitória por 2 a 0 sobre o West Brom.

O Sheffield United experimentou uma gangorra nas divisões do Campeonato Inglês durante as últimas temporadas. O time se via atolado na League One, a terceira divisão, até iniciar sua ascensão em 2016/17. Antigo jogador do clube e até gandula na infância, Chris Wilder era o responsável por uma campanha arrasadora, de 100 pontos. Duas temporadas depois, as Blades também subiram na Championship, com a segunda colocação após ultrapassarem o incensado Leeds United de Marcelo Bielsa. E o time retornou à Premier League em grande estilo, com a nona colocação em 2019/20. A equipe beliscava uma vaga nas copas europeias até março, mas a pausa da temporada por causa da pandemia provocou uma quebra. A maneira como o United atuava, com variações táticas e movimentos surpreendentes, criava certa empolgação sobre o futuro. Era um time unido coletivamente e muito aguerrido.

No fim das contas, a Premier League 2020/21 fez com que a torcida do Sheffield United quebrasse a cara. Com um elenco curto e problemas de lesão, o time entrou em espiral e passou quase toda a campanha na lanterna. Wilder deixou o comando em março de 2021, com apenas quatro vitórias, e deu lugar a Paul Heckingbottom, então comandante do time sub-23 das Blades. O novo treinador não conseguiria o milagre e o descenso se tornou inescapável. Para a Championship 2021/22, o United trouxe Slavisa Jokanovic ao comando técnico, mas o time começou mal a segundona e chegou a ficar uma posição acima da zona de rebaixamento. O técnico foi demitido em novembro de 2021, com Heckingbottom de volta ao cargo. O treinador liderou a recuperação e o time subiu de produção no segundo turno, a ponto de entrar na zona dos playoffs. Todavia, não passaria pelo Nottingham Forest nas semifinais, com uma derrota dramática nos pênaltis.

Heckingbottom deixou de ser apenas interino para virar o técnico permanente. E a confiança depositada pelo Sheffield United no treinador teria a sua recompensa. A nova empreitada na Championship, em 2022/23, seria muito boa. As Blades passaram 35 das 44 rodadas disputadas até o momento dentro da zona de acesso direto, e só em três não pintaram ao menos nos playoffs. Uma consistência que seria recompensada com a segunda posição, mesmo que tenha sido muito difícil de acompanhar o Burnley de Vincent Kompany, avassalador em sua caminhada que confirmou a promoção com ampla antecipação e também a taça.

O Sheffield até demorou um tempo para engrenar, com só uma vitória nas primeiras três rodadas. Depois disso, o time cresceu e conquistou quatro triunfos nos cinco compromissos seguintes, o que valeu a primeira colocação. As Blades sustentaram a dianteira por 14 rodadas, até o início de outubro. Foi quando aconteceu a pior fase do time, com três derrotas e três empates em seis compromissos. O United chegou a escorregar para o quinto lugar e parecia perder fôlego no campeonato. Mas a equipe virou a chavinha, num embalo essencial para fincar o pé no G-2.

A partir do fim de outubro, justamente contra o West Brom, o Sheffield United emendou oito vitórias consecutivas. Chegou inclusive a derrotar o líder Burnley em Bramall Lane, com um triunfo inapelável por 5 a 2. As Blades fecharam 2022 na segunda posição, com uma vantagem de 11 pontos dentro do G-2. Era uma situação confortável demais para se desperdiçar. A sequência invicta ainda durou mais seis rodadas, com quatro vitórias, até que o time sucumbisse de novo em fevereiro. Só então se notou certo desgaste, com quatro derrotas em cinco duelos consecutivos – três delas para times logo abaixo na tabela. A sequência ruim permitiu que o Burnley deslanchasse na ponta, além de reduzir a folga do United dentro do G-2 para dois pontos.

O mês de abril marcou a recuperação do Sheffield United. O time ganhou seis de seus últimos sete jogos, com a única derrota exatamente para o campeão Burnley, na visita a Turf Moor. De resto, a equipe pulverizou oponentes mais frágeis e dizimou as esperanças dos perseguidores. Pode não ter sido a folga que alguns torcedores imaginavam, mas o objetivo se cumpriu com êxito. A vitória por 2 a 0 sobre o West Brom serviu de cereja no bolo nesta quarta e permitiu a comemoração em Bramall Lane. Sander Berge e Anel Ahmedhodzic anotaram os gols decisivos no segundo tempo.

Iliman Ndiaye foi o grande destaque do Sheffield United na Championship. O atacante de 23 anos deixou boa impressão na Copa do Mundo com Senegal, mas conseguiu ser ainda mais consistente na segunda divisão. Foram 14 gols e 10 assistências para o jovem, uma aposta e tanto do clube após ser descoberto tardiamente no futebol de várzea. Existem dúvidas genuínas, e naturais, se o versátil e habilidoso atacante permanecerá em Bramall Lane para a Premier League – há gente graúda de olho em seus serviços. Mas, óbvio, Ndiaye não foi o único a impulsionar a campanha do United.

Outro destaque no ataque foi Ollie McBurnie, autor de 13 gols e nome também importante na produção ofensiva. Mais atrás, quem apareceu foram os garotos James McAtee e Tommy Doyle, meio-campistas emprestados pelo Manchester City. A faixa central teve como outros esteios Oliver Norwood e Sander Berge, velhos conhecidos da torcida desde a Premier League. Já a defesa se respaldou com os serviços do tarimbado John Egan, bem acompanhado pelo recém-contratado Anel Ahmedhodzic, trazido do Malmö. Não tão preponderantes quanto em outros tempos, Chris Basham e Billy Sharp garantiram boa dose de experiência em aparições pontuais. Os dois, ao lado de Jack O'Connell e John Fleck, são os únicos presentes em todos os três acessos conquistados desde 2017. Sharp, aliás, está num lugar muito privilegiado entre os maiores ídolos da história das Blades.

A maior desconfiança sobre o Sheffield United se concentra nos bastidores. O clube teve problemas financeiros nesta temporada, a ponto de sofrer um embargo no mercado de transferências por não pagar dívidas com outros clubes. Somente na última semana é que o banimento foi retirado. Desde fevereiro, o United está em vias de ser adquirido por Dozy Mmobuosi, empresário nigeriano, num negócio estimado em £90 milhões. A compra junto ao atual dono, o saudita Abdullah bin Musaid Al Saud, ainda não foi selada. E a venda seria um alívio para a torcida: o príncipe não investiu o que se pensava e até por isso entrou em atrito com Chris Wilder no passado. Independentemente disso, o retorno à Premier League torna as condições financeiras melhores.

Outro sinal positivo para o Sheffield United é a campanha na Copa da Inglaterra. As Blades terminaram amassadas pelo Manchester City nas semifinais, mas ainda assim fizeram uma caminhada longa no torneio – com classificações sobre Millwall, Wrexham, Tottenham e Blackburn. Pelo futebol apresentado, o United não empolga tanto quanto o Burnley. Mas possui capacidade para sonhar com a permanência, com um elenco cheio de remanescentes dos tempos na elite e uma estrutura básica que permanece parecida, com o 3-5-2 utilizado desde os tempos de Chris Wilder. Paul Heckingbottom agora terá melhores condições de provar sua competência na primeira prateleira do Campeonato Inglês.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
Botão Voltar ao topo