Inglaterra

O Senhor Liverpool: Ronnie Moran e a lealdade que atravessou cinco décadas

Bill Shankly chegou ao Liverpool e mudou tudo. Práticas, métodos, pequenas tradições, filosofias e estilo de jogo. Era mais do que necessário em um clube preso à segunda divisão há cinco anos. Suas conquistas e, principalmente, as de seus sucessores provam que ele estava certo.  Uma coisa permaneceu intacta: a equipe técnica. Uma das chaves do sucesso de Shankly, por incrível que pareça, era uma salinha em Anfield onde ficavam guardadas as chuteiras dos jogadores, uma espécie de almoxarifado. Era ali que ele se reunia com seus mais próximos conselheiros. Discutia jogadores, quais contratar, quais escalar, com quais conversar, táticas e ações a se tomar com Bob Paisley, Joe Fagan e Reuben Bennett, que já estavam no clube quando ele chegou. A partir de 1966, também com Ronnie Moran, o último membro vivo do lendário bootroom staff daquela época, que morreu, aos 83 anos, nesta quarta-feira.

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Shankly foi o que revolucionou: pegou um Liverpool sem confiança, com instalações caindo aos pedaços e fadado a perambular pela segunda divisão por um bom tempo, e o transformou, com talento e carisma, em uma máquina. Paisley foi o que venceu: sucedeu o mestre e alcançou sucesso absoluto, com seis títulos ingleses e três Copas dos Campeões da Europa. Dalglish foi o que venceu como jogador e técnico: 172 gols em 515 jogos, 15 troféus com a chuteira, sete com a prancheta (e a chuteira, afinal, ele foi jogador-técnico).

Ronnie Moran foi o ponto de referência, a constante em todas essas histórias, e nas histórias antes de Shankly, e depois de Dalglish: chegou às categorias de base em 1949 e prestou serviços ao Liverpool até 1998, com uma lealdade que atravessou cinco décadas, nove treinadores, duas tragédias, muitas derrotas, muitas vitórias e 29 títulos importantes. Não à toa, entre tantas lendas, é o que ganhou o apelido de Senhor Liverpool.

Moran é um daqueles garotos que nasceu em Liverpool e realizou o sonho de se tornar jogador de um dos grandes clubes cidade. Aos 15 anos, atuava pela equipe da sua escola, quando foi abordado por um homem vestindo “chapéu e um longo casaco”, como conta nesta entrevista ao Independent, em 2013. “Ele disse: ‘O Everton quer contratá-lo, filho’. Respondi que ele estava com azar: ‘Você está sete dias atrasado, amigo. Assinei com o Liverpool uma semana atrás'”.

Três anos depois, o lateral esquerdo realizou a primeira de suas 379 partidas pelo clube em uma derrota para o Derby County, por 3 a 2, no Baseball Ground. Os primeiros passos da sua carreira foram dados na segunda divisão inglesa, e ele, apesar de bom jogador, nunca fez questão de buscar uma transferência para a elite. Uma outra forte prova de lealdade veio em 9 de março de 1957, quando Moran atuou na vitória por 2 a 1 sobre o Barnsley no mesmo dia em que se casou com sua mulher Joyce. Foi para a cerimônia na igreja St. Helen, no subúrbio onde cresceu, pela manhã, calçou chuteiras à tarde, e retomou as comemorações matrimoniais à noite.

A comissão técnica na famosa sala das chuteiras: Moran, à esquerda, com Paisley ao seu lado, e Fagan, abaixado, ao centro (Foto: Liverpool)
A comissão técnica na famosa sala das chuteiras: Moran, à esquerda, com Paisley ao seu lado, e Fagan, abaixado, ao centro (Foto: Liverpool)

Como jogador, Moran deu bastante azar. O momento em que Shankly chegou ao Liverpool, em 1959, foi o mesmo em que ele começou a sofrer com uma série de lesões. Capitão da equipe, disputou apenas 16 partidas da campanha que devolveu o clube à primeira divisão, em 1961/62. Contribuiu, no entanto, para o título inglês de 1963/64, ficando fora de apenas sete jogos daquela campanha. A temporada seguinte foi de ascensão para Chris Lawler, outro garoto nascido em Liverpool, que assumiu a titularidade na lateral direita, com Gerry Byrne sendo deslocado para a esquerda. Moran não jogou a final da Copa da Inglaterra de 1965, a primeira vez que o Liverpool conquistou a competição.

Sua última partida oficial, aos 31 anos, foi no jogo de volta da semifinal da Copa dos Campeões daquele ano, contra a Inter de Milão. Continuou sob contrato, atuando pelos reservas, porque, com 47 jogos como capitão nas costas, era uma ótima influência para os jovens. Até que foi chamado para uma conversa na sala de Shankly, no verão europeu de 1966. “Eu sabia que não havia feito nada de errado, mas achei que era o fim, que ele iria me dizer que eu estava acabado”, afirmou, ao Liverpool Echo. “Naqueles dias, você só assinava um contrato a cada 12 meses. Desta vez, Bill perguntou se eu queria trabalhar com os jovens. Disse que pensaria sobre isso e responderia no dia seguinte. Eu havia ouvido boatos de que um ou dois clubes me queriam. O Brighton era um deles, mas eu estava casado e não queria me mudar.”

Segundo o livro Bill Shankly: It’s Much More Important Than That, Shankly gostava de Moran porque era um cara simples, direto, que falava o que estava pensando e lutava muito em campo. “Estava sempre gritando, mesmo como jogador, motivando o time, tentando organizá-lo em torno dele”, escreveu o autor. Era o responsável por dar as broncas que colocavam os pés dos jogadores no chão. “Havia um jogador – não vou dizer o nome -, mas era um defensor de seleção e ele estava fazendo passes perigosos na frente da defesa. Estava nos colocando sob pressão. Eu disse a ele, claramente, que ele precisava aprender a dar chutão de vez em quando. Queríamos que o time mantivesse a posse de bola, mas não se isso significasse conceder um gol. Eu gritei com o rapaz por semanas até ele parar de fazer isso”, contou Moran ao Independent.

Moran passou a frequentar as reuniões na salinha das chuteiras e mantinha diários detalhados com informações sobre partidas, sessões de treinamento, lesões e qualquer coisa que pudesse servir como referência, quando fosse necessário. Ao contrário de Paisley e Joe Fagan, dois tenentes de Shankly que assumiram o comando do Liverpool, Moran sempre ficou nos bastidores, desempenhando diversas funções, como treinador da equipe reserva e assistente técnico de Roy Evans. Foi técnico interino do time principal duas vezes. Em 1991, depois do pedido de demissão de Dalglish, e no ano seguinte, quando o destino lhe deu um presente.

Moran, liderando a fila do Liverpool, em Wembley, na final da FA Cup de 1992
Moran, liderando a fila do Liverpool, em Wembley, na final da FA Cup de 1992

O Liverpool estava na final da Copa da Inglaterra, contra o Sunderland, e o técnico Souness precisou passar por uma cirurgia emergencial no coração, dias antes da partida. A operação foi bem sucedida, mas o escocês não tinha condições de trabalhar em Wembley, naquele 9 de maio de 1992. Por isso, quem liderou os jogadores ao gramado do estádio, assinou a súmula e deu as ordens a partir do banco de reservas foi Ronnie Moran, o mesmo que havia sido obrigado a assistir de longe o primeiro título de FA Cup dos Reds, 27 anos antes. “Foi um momento de muito orgulho para mim”, disse, ao site do clube, em 2012. “Eu ainda tenho o vídeo em casa e será algo para meus netos assistirem. Foi uma grande ocasião para nós e eu apresentei a equipe para a Duquesa de Kent. Eu já havia ido para Wembley algumas vezes, mas eu nunca joguei lá”.

Moran continuou trabalhando por mais alguns anos, até 1998, quando se aposentou na transição entre Roy Evans e Gérard Houlier. Na reta final, deu tempo de deixar alguns presentes para o futuro. “O homem que decidiu que eu deveria jogar como zagueiro antes de qualquer um pensar nisso”, lembrou Carragher, na homenagem que publicou em seu Twitter. Steven Gerrard não chegou a trabalhar diariamente com ele. Era das equipes inferiores enquanto Moran treinava o time principal. Mas como outras lendas aposentadas do Liverpool, o ex-lateral-esquerdo visitava Melwood frequentemente, para fazer exercícios, manter contato com os amigos e, basicamente, ter alguma coisa para fazer.

“Se você soubesse que Ronnie estava dando sua caminhada diária, sempre torcia para ter alguns minutos porque ele sempre lhe daria um conselho sobre o jogo anterior ou o próximo jogo que ficava na sua cabeça”, afirmou. “Houve vários momentos em que eu joguei pelo Liverpool com algo que ele disse na cabeça. O que eu amava nele era o tratamento igual com todo mundo, do capitão a quem estava apenas começando. Ele tratava todos exatamente igual”.

Ronnie Moran era um homem do Liverpool por inteiro. Como jogador, como treinador, como aposentado. O Senhor Liverpool.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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