Inglaterra

O que é o Football Index, o “mercado de ações” do futebol acusado de ser um esquema de pirâmide

Quanto vale o seu conhecimento sobre futebol? Muita gente gosta de testar nas casas de aposta, mas, desde 2015, uma plataforma britânica chamada Football Index oferecia um sistema mais atraente: como um mercado de ações, o usuário podia investir o seu dinheiro em um ou mais jogadores e esperar que eles se valorizassem, com uma grande transferência ou uma fase especialmente boa. Enquanto isso, recebiam dividendos a cada rodada com base em gols, assistências, jogos sem ser vazado e vitórias dos seus times, como um Fantasy, mas com dinheiro de verdade.

Oferecia. Porque, nesta sexta-feira, o Football Index entrou em intervenção judicial e suspendeu a sua plataforma enquanto avalia uma reestruturação, ao fim de uma semana em que o seu mercado desabou, após a empresa mudar o esquema de pagamento desses dividendos.

A decisão gerou revolta de clientes que alegam ter perdido milhares de libras e colocou o foco em cima dos órgãos reguladores da Inglaterra que permitiram que o Football Index operasse durante anos como se um mercado e ações, embora ele fosse oficialmente regulado como uma casa de apostas.

O que exatamente é o Football Index? O que o levou a suspender a sua plataforma e buscar intervenção jurídica? Como tanta gente acreditou no que estava sendo pregado? Bom, é para isso que estamos aqui.

O que é o Football Index?

Ninguém melhor do que eles próprios para explicar: “O Football Index é uma plataforma de apostas que opera como um mercado de ações, permitindo que os usuários (conhecidos como “Traders”) façam apostas em desempenhos futuros de jogadores de futebol com dinheiro de verdade (o que chamamos de comprar “Ações”). Uma vez que você comprou uma ou mais ações de um jogador de futebol, você tem a chance de ganhar pagamentos mensais com base nos desempenhos futuros do jogador em campo ou na imprensa (o que chamamos de “Dividendos”)”.

A descrição começa dizendo que se trata de uma plataforma de apostas, e o vocabulário das regras também segue essa denominação, mas, na campanha ao público, a parte do mercado de ações era muito mais enfatizada. O Football Index se auto-batizou de o “mercado de ações do futebol”. Segundo a Bloomberg, dois anos atrás, contava com mais de 100 mil usuários, mas começou a perder terreno depois que o órgão regulador do Reino Unido determinou que ela deveria se apresentar mais como um jogo do que como uma oportunidade de investimento.

No Football Index, porém, o usuário não trabalha com cotações para quem vencerá uma partida ou fará um gol, mas com mecanismos de oferta e demanda e pagamentos de dividendos de acordo com o desempenho dentro de campo e também na imprensa.

Por exemplo, neste momento, embora a plataforma esteja suspensa, a ação de Erling Haaland está listada a £ 0,99 para a compra e £ 0,73 para a venda. O preço para “comprar agora” se baseia na média das 900 menores ofertas de venda disponíveis no mercado. Logo, se você comprar dez ações do Haaland, por cerca de £ 10, e ele se transferir para o Real Madrid, gerando um aumento na procura por suas ações, o preço vai subir. Se você conseguir vender cada ação por £ 2, arrecada £ 20 e dobra o dinheiro investido.

Além disso, cada ação gera dividendos mensais de acordo com o rendimento do jogador dentro de campo. Esses dividendos se baseiam em três critérios: o que acontece nas rodadas, o time do mês e aparições na imprensa.

Esse sistema se assemelha (muito, um pouco demais) com os jogos de Fantasy – no Brasil, o Cartola. O Football Index tem uma tabela com critérios para atribuir pontos. Se Haaland faz um gol, ele ganha 45 pontos. Se ele dá uma assistência, mais 20 pontos. Cada chute no alvo rende cinco pontos. O melhor goleiro, defensor, meia, atacante e a estrela da rodada geram dividendos de acordo com a importância de cada dia, separados nas categorias bronze (entre um e quatro jogos naquele dia), prata (5-14) e ouro (mais de 15).

 

Disputar a Champions League e a Liga Europa rende um bônus. Ao fim de cada mês, os três melhores atacantes, os quatro melhores meias, os três melhores defensores e o melhor goleiro são selecionados para o Time do Mês, o que gera dividendos extras. Além disso, há os dividendos por aparições na imprensa. O Football Index analisa as manchetes de 20 sites, como ESPN, Guardian, Daily Mail, Daily Mirror, BBC, Goal.com e Sky Sports. Quem for mais mencionado em dia de jogos gera dividendos. Em dia em que não há partidas, os três primeiros colocados rendem alguma coisinha.

Alguma coisinha: segundo a Bloomberg, o Football Index diz que pagou £ 11 milhões em dividendos durante a temporada 2019/20 do futebol europeu.

Parece ótimo, certo? Vamos aos problemas: primeiro, é uma operação de baixo risco para o usuário – e muito em função disso a plataforma se tornou um sucesso. O próprio site enfatizou bastante que ninguém perderia mais do que o investimento inicial, o que é pouco alento quando esse investimento inicial chega na casa das dezenas de milhares de libras.

Ou, pelo menos, é uma operação de menos risco do que apostas tradicionais em vitórias ou quantidades de gols em uma partida. A melhor equivalência seria com apostas em longo prazo – como um de seus representantes disse no vídeo patrocinado no canal da revista FourFourTwo que levou à ação do governo britânico.

Se eu aposto que o Manchester City será campeão da Premier League, a minha aposta se valoriza a cada jogo que o time ganha e se desvaloriza a cada jogo que o time perde. Mesmo antes do fato consumado, eu posso vendê-la de volta para a casa de aposta – na maioria delas – para garantir um lucro sem mais riscos ou diminuir o prejuízo.

Mas no Football Index, não há fato consumado – tirando aposentadoria. O dinheiro não desaparece como quando você aposta na vitória de um time e ele perde. Os jogadores do seu portfólio podem se machucar, ter problemas extra-campo ou entrar em uma má fase, como o Manchester City pode de repente ter uma epidemia de lesões, ou parar do nada de jogar futebol, mas são variáveis mais raras do que um erro de arbitragem, um escorregão ou o puro acaso que interferem nos jogos individuais.

Mas por que isso é um problema? Porque as casas de aposta ganham dinheiro nas apostas do dia a dia e lucram porque a gigantesca maioria dos seus clientes erra mais do que acerta. As mais bem estruturadas têm dinheiro para pagar quem acerta mais do que erra.

Quando Haaland faz um gol, o Borussia Dortmund ganha uma partida e, se ganhar várias, pode ser campeão, receber prêmios, melhores contratos de patrocínio, disputar a Champions League, levar mais torcedores ao Signal Iduna Park. Se Haaland se transferir para o Real Madrid, então, o Dortmund receberá provavelmente dezenas de milhões de euros. Ótimo para a família Haaland e para o seu agente Mino Raiola também.

Ao mesmo tempo, o crescimento de status de Haaland fará com que mais traders busquem as suas ações. Gerará um aumento de demanda. Gerará um aumento de preço. Quem comprou na baixa poderá lucrar vendendo as suas ações na alta. Como o Football Index não faz parte do Borussia Dortmund, nem da família Haaland e nem da agência de Mino Raiola, de onde tira o dinheiro para cobrir a valorização? Onde está o lastro?

O que aconteceu?

O mercado já vinha despencando. Em meados de janeiro, uma matéria do Guardian identificou que a ação de Jadon Sancho valia £ 15 no começo de setembro e estava em £ 5.28 naquela semana. Um apostador esportivo profissional com canal no YouTube – que passou a ser alvo de ofensas e intimidações de usuários por criticar a plataforma – identificou os problemas principais em contato com o jornal:

“O uso do termo ações, quando usuários, na verdade, compram contratos com limite de tempo; a remoção do mecanismo que permitia usuários de ‘vender instantaneamente’ as ações de volta ao Football Index para recuperar o que havia investido na plataforma; a habilidade de afetar os preços ao ‘emitir’ novas ações; e o seu direito, dentro dos termos e condições, de fazer mudanças significativas na estrutura de dividendos e regras depois que as ações são compradas”.

Então, sobre isso. Na sexta-feira da semana passada, o Football Index emitiu um comunicado alertando que reestruturaria o pagamento de dividendos para “assegurar a sustentabilidade de longo prazo da plataforma”. No próprio texto, admite que, “quando pensamos em liquidez, a maioria vem de vocês (clientes)”. Ela também informou que paralisaria um acordo com a Nasdaq, que já estava em fase de testes, para o desenvolvimento de um novo sistema de operações com uso de nuvem.

Nesses contextos, reestruturações sempre significam cortes. E foi isso que o Football Index fez: reduziu dramaticamente os dividendos pagos aos usuários após “fenomenais aumentos ano a ano que são apenas possíveis em um mercado aquecido e a realidade é que não o temos neste momento”. O máximo pago em dividendos por ação era 14 centavos de libra. Caiu para três. Usando a linguagem do mercado, os acionistas perderam confiança e tentaram se livrar dos seus portfólios o mais rápido possível. Não precisa de um PHD em economia para saber a consequência disso.

Uma ação de Bruno Fernandes valia £ 7,23 na manhã de sábado. Agora, ela pode ser comprada por £ 0,90 ou vendida por £ 0,68. A plataforma permite a compra máxima de 300 ações por transação, apenas para ter uma ideia de que geralmente as pessoas não compravam apenas uma, duas ou dez ações de um jogador.

O Guardian encontrou usuários reclamando que perderam até £ 32 mil – e indivíduos alegando até £ 250 mil em prejuízos, embora sem verificação. No The Athletic, traders relatam que portfólios em que haviam investido £ 30 mil agora valem apenas algumas milhares de libras. Um usuário contou ao site que havia contraído um prejuízo de £ 8 mil e se recusou a se identificar porque ainda tinha que explicar para a esposa o que havia acontecido.

Uma conta no Twitter que acompanha (ou acompanhava) o Football Index calculou que, em 5 de março, os valores de mercado chegavam a £ 87 milhões. Dois dias depois, estavam em £ 25 milhões. Os preços de venda despencaram de £ 67 milhões para £ 6,7 milhões. Segundo seus dados, em um outro tuíte mais recente, foram pagos £ 2 milhões de dividendos em fevereiro. Dentro da nova estruturação, teriam sido pagos apenas £ 500 mil.

Segundo o Guardian, o Football Index oferece proteção apenas ao dinheiro que o usuário tem em seu balanço e não ao que está investido em ações, caso o mercado seja suspenso, porque esse dinheiro “não é armazenado em nenhuma conta ou protegido porque são valores em risco”. Afinal, vale lembrar, ele é regulado como casa de apostas e não como mercado de ações.

As alegações de que o mercado não está grandes coisas pegaram os usuários de surpresa porque, antes do crash, houve repetidas confirmações de representantes do Football Index de que a posição financeira da empresa era forte. Um e-mail do serviço do consumidor em resposta a esses questionamentos diz: “No momento da comunicação, o Football Index tinha substanciais reservas de receitas. No entanto, nos últimos meses, o Football Index passou por consistentes e substanciais perdas pelos baixos níveis de depósitos que esgotaram nossas reservas”.

O CEO do Football Index, Mike Bohan, em uma sessão de perguntas e respostas, afirmou que a empresa tentaria uma abordagem “de baixo para cima para ter liquidez que eu acredito que acrescentará confiança aos traders e encorajará mais usuários a se inscreverem”. Como a plataforma emitiu muitas novas ações dias antes de reestruturar os dividendos, uma interpretação comum dessa declaração tem sido que o Football Index deliberadamente reduziu o preço das ações para atrair mais usuários à plataforma, derrubando o valor dos portfólios que já estavam montados.

Mas calma aí. Como que chama mesmo aquele esquema em que você precisa atrair novos clientes para pagar os clientes mais antigos? “Sérias questões existem sobre por que essa empresa foi regulamentada em primeiro lugar”, afirmou Matt Zara-Cousin, um representante da entidade Clean Up Gambling, que combate os efeitos nocivos do jogo no Reino Unido, ao The Athletic. “Não sabemos o que sustenta seu modelo de negócio, mas, pelo que vimos até agora, parece que dependem de um constante fluxo de novos clientes para pagar dividendos aos clientes que já existem. Isso é mais parecido com um esquema de pirâmide do que com uma plataforma de apostas. Todo esse desastre enfatiza a falta de mecanismos de reparação para o consumidor de apostas. É por isso que precisamos de um ombudsman independente”.

O Football Index negou ao The Athletic que os pagamentos são relacionados a novos depósitos. “Nós categoricamente negamos que o modelo do Football INdex é similar em qualquer aspecto com um esquema de pirâmide. O Football Index é um produto de apostas regulado pela Comissão de Jogo e opera dentro de uma indústria rigidamente regulada”.

Como as pessoas caíram nessa?

É claro que o Football Index negaria que é um esquema de pirâmide. Mesmo que realmente seja, e ainda há muita coisa pouco clara nessa história, não admitiria. Mas a parte em que alega que a indústria de apostas é rigidamente regulada na Inglaterra é especialmente engraçada porque ela claramente não é. O caso do Football Index é apenas mais um exemplo. Os usuários se convenceram a confiar o seu dinheiro a uma plataforma desconhecida, e com um sistema diferente ao que estão acostumados no mundo das apostas, porque foi realizado um extenso processo de legitimação por meio de propaganda.

Até os órgãos reguladores britânicos ordenaram que parasse de se considerar uma “oportunidade de investimento”, e assumisse que não passava de uma casa de apostas com roupas diferentes, o Football Index bradava aos quatro cantos que era mais responsável do que as empresas tradicionais da indústria e que ajudaria os usuários a fazer dinheiro com base em análise, estratégia e conhecimento de futebol, e não em palpites e chutes. O slogan era realmente “Quanto vale o seu conhecimento sobre futebol?”.

Veículos de imprensa importantes da Inglaterra ajudaram. O próprio The Athletic, que publicou uma reportagem crítica ao esquema, tinha uma parceria com o Football Index. A ação do governo britânico aconteceu depois de um vídeo patrocinado no canal de YouTube da FourFourTwo, uma das revistas mais conceituadas do mundo. As propagandas estavam em rádios, jornais e também na posição mais nobre das camisas de clubes de futebol: o Queens Park Rangers e o Nottingham Forest.

O QPR já anunciou a rescisão do contrato. “Como clube de futebol, entramos em um acordo de um ano com o Football Index em boa fé. Diante dos eventos mais recentes, a frente da camisa dos uniformes do QPR não terá mais o logotipo do Football Index”, afirmou o clube, em um comunicado. O Forest ainda não se manifestou oficialmente.

Enquanto isso, os traders que perderam dinheiro esperam os próximos passos. O comunicado do Football Index indica uma reestruturação mais ampla. Fala até em abrir participação acionária aos clientes e uma nova equipe administrativa com representação dos usuários. Mas todas as operações foram suspensas e, mesmo que voltem, quem vai confiar dessa vez?

.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Bloqueador detectado

A Trivela é um site independente e que precisa das receitas dos anúncios. Considere nos apoiar em https://apoia.se/trivela para ser um dos financiadores e considere desligar o seu bloqueador. Agradecemos a compreensão.