O pior técnico do mundo

Harry Redknapp me foi apresentado por Cassiano Gobbet, fundador desta Trivela, que considerava o inglês “o pior técnico do mundo”. Para quem o conheceu recentemente, o rótulo pode ser estranho. Redknapp, apesar da cara de pinguço, salvou o Portsmouth do rebaixamento há algumas temporadas, e, na sequência, ganhou a FA Cup com o Pompey. Retrospecto que o levou ao banco do Tottenham, então ameaçado de cair.
O negócio é que a carreira de Harry Redknapp não começou aí. E, hoje, tem em seu currículo tanto numerosos sucessos como um histórico de contratações caras e sem muito sentido. Coincidência ou não, o treinador passou nos últimos dez anos por West Ham, Southampton e Portsmouth. Os três têm sérios problemas financeiros, sendo que o Southampton esteve muito perto de fechar as portas, e atualmente milita na terceira divisão inglesa, sem chances de voltar à segunda neste ano.
É claro que não dá para culpar Redknapp inteiramente por estes problemas. Os três clubes têm, e tiveram, donos que quiseram ser mais do que eram, e, no mínimo, deram carta branca a ele para que gastasse. A lista de fracassos contratados pelo atual treinador dos Spurs é enorme, e não vale a pena. Em um West Ham que tinha, vindos da base, ninguém menos que Rio Ferdinand, Joe Cole, Michael Carrick e Frank Lampard, Redknapp contratou os famosos Marco Boogers e Florin Raduciou.
Se no West Ham poucos culpam Redknapp pela derrocada, a situação nos dois rivais do litoral sul britânico é outra. Para começar, é importante lembrar que Portsmouth e Southampton têm uma feroz rivalidade. O que não impediu o treinador de abandonar o primeiro para treinar o segundo em novembro de 2004.
No Portsmouth Redknapp vivia uma crise, com divergências com o dono Milan Mandaric. No rival, porém, o treinador ficou menos de um ano. Caiu para a Segundona, e, sem chance de voltar, abandonou o barco, voltando ao Portsmouth. É algo como um técnico largar o Inter, cair com o Grêmio para a Segundona e, depois de afundar o time um pouco mais, voltar ao Inter.
A história, entretanto, não para por aí. Redknapp salvou o clube do rebaixamento no final da temporada 2006, e foi o nono em 2007. Em 2008, ganhou a FA Cup. A final foi contra o Cardiff City, portanto, é justo dizer que a vitória mesmo foi diante do Manchester United, nas quartas – quando os Devils certamente ainda não estavam com a cabeça disponível para a competição.
Em outubro do mesmo ano, Harry não estava mais lá. Deixou o sul da ilha em direção a Londres, para salvar o Tottenham do rebaixamento. Na velha casa, porém, deixou um pesado fardo de jogadores caros, ruins e com salários altos. No começo da temporada 2006/7, por exemplo, o Portsmouth gastou quse 50 milhões de libras em jogadores como Muntari (9 mi), Utaka (9 mi) e David Nugent (8 mi).
Nos Spurs, Harry não mudou de tática. Tratou logo de comprar o ataque do Portsmouth, Defoe, ex-Spurs, e Crouch. Aproveitou para comprar Robbie Keane de volta do Liverpool, também. O Tottenham gastou inacreditáveis 130 milhões de libras, a soma do que gastaram Liverpool, Manchester United e Chelsea. Para deixar no banco Roman Pavlyuchenko e David Bentley, e emprestar Robbie Keane ao Celtic.
Pois bem: no último domingo o Tottenham enfrentou o Portsmouth. O ex-clube de Redknapp absolutamente quebrado, a ponto de fechar. E, mesmo assim, quem ganhou o jogo foi o Pompey. Quem assistiu à partida e não dormiu ficou em dúvida sobre qual era o time quebrado. Desorganizado e sem pegada, o Tottenham esteve longe do gol adversário o tempo todo. Embora o resultado tenha sido fortemente influenciado pela arbitragem, que anulou um gol legítimo dos Spurs e deu um pênalti inexistente para o Portsmouth, não há desculpa possível para uma derrota como esta.
A temporada para os Spurs só não acabou porque o time ainda tem, no papel, a esperança de conquistar uma vaga na Liga dos Campeões. O que, certamente, quebraria a equipe. A vaga, se viesse, cairia no colo do time, que não ganhou de nenhum grande, e ainda perdeu jogos ridículos para pequenos. Redknapp, sem merecer, ganharia uma licença para gastar. E seu time certamente seria eliminado antes de chegar à fase de grupos.
A derrota na semifinal, aliás, impede que o clube se classifique automaticamente para a Liga Europa. Vale lembrar que, embora ainda brigue pela LC, pela tabela que tem pela frente os Spurs podem até mesmo ficar fora da LE.
Pode ser que Harry Redknapp não seja o pior técnico do mundo, afinal produziu alguns resultados incomuns. Seu legado, entretanto, é venenoso, e, se não souber lidar com isso, o Tottenham pode demorar mais algumas décadas para aspirar de novo a ser grande. Que comece logo, se livrando do vírus.



