Em agosto de 1996, o Barcelona cumpriu sua missão na visita ao Estádio Carlos Tartiere. Com dois gols de Hristo Stoichkov e outros dois de Luis Enrique, o time treinado por Sir Bobby Robson derrotou o Real Oviedo por 4 a 2. Aquela partida, porém, não seria marcada apenas pela estreia de Ronaldo em La Liga. Após o jogo, ouviu alguém bater na porta de sua sala dentro do estádio. Quando o treinador do Oviedo abriu a porta, viu que ali estava , então um meio-campista de 25 anos que defendia também a seleção. “Amo seus times, ouvi grandes coisas sobre você. Podemos ser amigos?”, falou o jogador ao técnico – então com apenas 30 anos, mas uma carreira promissora. “Como é que eu não vou querer ser amigo de um jogador que eu admirava, como o Guardiola?”, contou Lillo, 20 anos depois, ao Guardian.

A amizade perdura ainda hoje. Lillo serviu como uma espécie de mentor a Guardiola. Ambos compartilham uma visão parecida sobre o futebol e trocaram muitas figurinhas, muitas ideias. O maestro do Barcelona costumava ouvi-lo bastante e, durante sua passagem pelo futebol mexicano, já no final da carreira, realizou uma espécie de estágio intensivo com o treinador. Desde então, mantiveram a ligação, mas Lillo apenas admirava de longe a trajetória fantástica construída por seu pupilo. Já nesta terça-feira, os amigos voltaram a se reunir, com o anúncio oficial de que Lillo será o assistente técnico de Guardiola no – ocupando a vaga deixada por Mikel Arteta em dezembro.

Lillo é daquelas personalidades fortes do futebol, cuja importância não deve ser medida pelo currículo. Costuma ser majoritariamente lembrado pelo jogo ofensivo que gosta de praticar em suas equipes e pela leitura tática que faz das partidas, mas sua inteligência vai além das pranchetas. Também é valorizado pela relação humana que mantém com seus jogadores e por seu vasto conhecimento, de quem mantém uma biblioteca com mais de 10 mil livros. O futebol é a mais forte paixão, de quem é considerado como um filósofo da bola.

“Esse é um jogo disputado pelos atletas. Os técnicos que expressam seu significado parecem querer reivindicar algum protagonismo ou status através dos outros. Nosso papel é menor que muitos treinadores acham ou querem acreditar. Dito isso, dentro dessas limitações, há coisas que você pode traçar. Primeiro, porém, você tem que falar sobre a diferença entre o futebol profissional e o futebol formativo. Você precisa perguntar: o que é um técnico? Alguns são mais didáticos, alguns desejam mais o protagonismo, alguns são ortodoxos. Alguns são estimulados pela competição, outros pelo próprio jogo”, declarou Lillo, à revista Blizzard, em 2011.

“Todos os técnicos são amálgamas de coisas, mas eu me considero didático. Quero facilitar aos jogadores para que ganhem consciência do que são e do que estão fazendo. Não é apenas sobre o jogo, é sobre pessoas. É sobre tudo. Não pode ser descontextualizado. Como você vive, quem é você, qual importância dá aos relacionamentos, ao comportamento, à interação… Tudo isso afeta como um time joga. Em nossa sociedade, há muitos professores, mas poucos educadores, poucos facilitadores”, complementava. “A sociedade te leva ao individualismo. O futebol é um esporte coletivo e você precisa tratá-lo assim. Todo mundo tem seu próprio jeito de ser, você encoraja relacionamentos, associações. Quero tentar incentivar a auto-descoberta entre os jogadores, o diálogo e a compreensão”.

A história de Lillo como treinador começou quando tinha 16 anos. Prodígio na casamata, chegou a dirigir o Mirandés na quarta divisão com apenas 23 anos e conquistou o acesso à frente da equipe. Nesta época, bebia da fonte de César Luis Menotti, campeão do mundo com a Argentina em 1978 e que, à frente do Atlético de Madrid, virou amigo daquele jovem que tanto queria aprender. Já a partir de 1992, Lillo conseguiu levar o Salamanca da terceira divisão à primeira em apenas três temporadas. Aos 29 anos, tornou-se o técnico mais jovem a trabalhar em uma partida de La Liga. Acabaria destituído antes do final da campanha, com os resultados ruins, mas logo depois ganhou uma chance no Oviedo. Foi neste momento que Guardiola o procurou e propôs a amizade.

A carreira de Lillo não decolou como se esperava. Não durou muito tempo no Oviedo, fez um trabalho suficiente para livrar o Tenerife do rebaixamento nas últimas rodadas, dirigiu também o Zaragoza. Por mais que mantivesse ótima relação com os jogadores, a personalidade forte era vista também como um obstáculo à sua ascensão. Mas nada que atrapalhasse os laços com Guardiola, de quem recebia ligações constantes para falar sobre seus conceitos e suas análises do jogo. Lillo, aliás, foi o introdutor de um esquema que floresceria na Espanha: o 4-2-3-1, tão eficiente que se tornou base a diversas equipes ao redor do mundo, bem como a times vitoriosos dentro do próprio país na virada do século – a exemplo do Deportivo de Javier Irureta ou do Valencia de Rafa Benítez.

Em 2003, quando Guardiola já vivia os últimos anos da carreira no futebol italiano, quase voltou ao Barcelona em outro posto. O volante seria o diretor esportivo se Lluís Bassat ganhasse as eleições presidenciais. Perdeu para Joan Laporta. Caso o resultado do pleito fosse outro e Guardiola assumisse o cargo, Juanma Lillo era o favorito para se tornar o técnico, e não Frank Rijkaard. O veterano seguiu em campo e, depois de defender o Al-Ahli do Catar por duas temporadas, assinou com o Dorados de Sinaloa. Quem o levou para o México foi justamente Juanma Lillo, então comandante da equipe.

A parceira durou seis meses, os últimos na carreira profissional de Guardiola como atleta. Meses estes que serviram bastante ao nascente treinador. O Dorados de Sinaloa não tinha muitas perspectivas, mesmo reunindo também Loco Abreu em seu elenco. O time disputava apenas sua segunda temporada na elite do Campeonato Mexicano e sofria com as dificuldades financeiras, a ponto de atrasar os salários com frequência. Pep estava lá para aprender com Lillo sobre o posicionamento da equipe, a marcação forte no campo de ataque, as transições limpas, o trato com os comandados, a relação nos vestiários. Somava isso ao conhecimento adquirido por quem já havia sido treinado por Johan Cruyff.

Guardiola pouco atuou em sua passagem pelo Dorados. Acumulando lesões, muitas vezes ficou no banco de reservas. E isso também era uma oportunidade para absorver mais do técnico principal, e até mesmo ajudar com as instruções aos companheiros. Naquele momento, seu objetivo ainda era modesto, planejando formar os garotos nas categorias de base do Barcelona. Pena que a campanha no Campeonato Mexicano terminaria de maneira amarga. Embora oitavo colocado no Clausura 2006, o Dorados sofreu o rebaixamento no promédio e sequer pôde disputar os playoffs. Assim, o contato entre os amigos voltou a ser restrito ao telefone.

Em 2007, Guardiola começou a formar os garotos do Barça B – com ligações constantes a Lillo para preparar suas sessões de treinamento. A ascensão do novato no clube seria meteórica e renderia diversas taças a partir de 2009. Ao mesmo tempo, Lillo recebeu a chance de treinar seu time do coração e dirigiu a Real Sociedad na segundona, antes de assumir o Almería. Quando cruzou com Pep à beira do campo em novembro de 2010, pela primeira divisão do Campeonato Espanhol, sofreu uma goleada por 8 a 0 que custou seu emprego. Mas não rompeu, ainda assim, o elo. “Penso muito nele e sou bastante grato, porque Lillo foi muito generoso comigo e passou seu conhecimento”, declararia Guardiola, posteriormente.

Guardiola seguiu fazendo história com Barcelona, Bayern, Manchester City. Lillo traçava um caminho errante em que não durou muito tempo em diversos clubes. Seus melhores anos vieram entre 2015 e 2017, quando se reuniu a outro pupilo e foi assistente de Jorge Sampaoli, trabalhando no Chile campeão da Copa América e também no Sevilla. Os voos solo do espanhol, em contrapartida, não foram tão bem sucedidos. Ganhou a chance de substituir Reinaldo Rueda no Atlético Nacional, mas não desenvolveu o processo de renovação. Dirigiu Andrés Iniesta, um de seus jogadores preferidos, e também ficou parcos meses no Vissel Kobe. Já no ano passado, levou o Qingdao Huanghai ao acesso no Campeonato Chinês.

Lillo estava na Espanha em março, quando a pandemia do coronavírus estourou na Europa. Deveria retornar à China para iniciar a pré-temporada com o clube, se preparando para estrear na Super League. Entretanto, com casos positivos em sua família e saindo de um dos focos da doença na Espanha, preferiu permanecer em sua casa. Acabou renunciando ao emprego no Qingdao Huanghai. E estaria livre para o convite de Guardiola. Aos 54 anos, chega à equipe mais forte de sua carreira, quem sabe para erguer os troféus que tanto merece.

“Estou muito satisfeito por ter me juntado à comissão técnica do Manchester City. Minha relação com Pep vem de vários anos e estou emocionado por poder me juntar a ele, como parte deste empolgante time. O City teve muito sucesso nas últimas temporadas e jogou um belo futebol, que esperamos deste clube e de seu técnico. É um prazer fazer parte deste grupo e espero dar contribuições importantes para os sucessos daqui para frente”, declarou Lillo, ao site do Manchester City. Quem sabe, para receber o verdadeiro reconhecimento do grande público – mais próximo daquele reconhecimento que recebe do próprio Guardiola.