O novo Clough

Já escrevi duas colunas sobre Harry Redknapp. A primeira tinha como título “O Pior Técnico do Mundo”, e foi no dia seguinte à derrota diante do rebaixado e falido Portsmouth na semifinal da FA Cup do ano passado. A seguinte, poucas semanas depois, tinha nome diferente: “O Melhor Técnico do Mundo”, e se seguiu à conquista do quarto lugar na Premier League.
Mudança radical, certo? Claro que no primeiro caso falou um pouco o torcedor, frustrado com um time burocrático que perdia uma chance histórica de disputar um título importante depois de tanto tempo. No segundo caso, claro, brinquei com o exagero do primeiro. O fato é que não fui o único a “mudar de opinião” sobre Redknapp. A Inglaterra também mudou.
A mídia inglesa divulgou ontem declarações de Alex Horne, secretário-geral da FA, dizendo que Redknapp certamente estaria em uma lista de candidatos a suceder Fabio Capello em 2012. “Uma lista que não será muito longa”, disse o dirigente, que acrescentou: “Harry Redknapp é um grande treinador, e o Tottenham está jogando ótimo futebol”.
A notícia veio poucos dias depois de uma coluna de Jonathan Wilson, um dos “magos táticos” da Inglaterra, na qual o jornalista colocava a questão: será que Redknapp está se dando bem por causa da tática. Wilson lembra que normalmente colocar Redknapp e tática na mesma frase causaria espanto. O treinador, como já dissemos aqui, é uma espécie de Joel Santana inglês, um cara qeu supostamente escolhe os onze melhores e os manda a campo. E sabe motivá-los.
Wilson sustenta, entretanto, que embora não seja “sexy” falar sobre tática, ninguém consegue o sucesso que Redknapp vem conseguindo ignorando-a. E menciona, para explicar sua teoria, o grande Brian Clough, lendário técnico do Nottingham Forest, que só se referia à tática para desmerecê-la. Clough, entretanto, venceu a Copa dos Campeões da Europa duas vezes. Não pode ter sido na base do “vamo aê”, certo?
Segundo Wilson, Peter Taylor, assistente que foi parte integrante do sucesso de Clough, sempre disse que eles conversavem sobre tática com frequência. Só que na hora de colocar isso para os jogadores, a coisa era simplificada. Para um era: “Não deixe o fulano jogar”. Para outro: “Fique na sobra dele: se o Fulano escapar, é seu”. Para um terceiro: “não saia da lateral do campo”. E por aí vai.
Nenhuma necessidade, como parecem ter alguns técnicos brasileiros (e muitos mais fora daqui), de dizer: “Vamos jogar num 442 que se converterá num 433 quando tivermos a bola”. O que importa é dizer ao lateral, que não é um intelectual: “Quando tivermos a bola, sobe, a não ser que o outro lateral já tenha subido. Sem a bola, você cobre o volante”. E pronto. O cara não precisa pensar no que está fazendo.
Corroborando a tese de que é assim que Redknapp trabalha, Wilson cita uma declaração de Rafael van der Vaart, de que há um lousa no vestiário do Tottenham, mas o técnico quase nunca escreve nada nela. Ao contrário, diz o holandês, dos intermináveis papos táticos do Real Madrid.
Harry Redknapp tem uma série de defeitos registrados em sua conta: na maior parte de seus clubes anteriores, gatou muito, e mal. Depois de sua passagem, West Ham, Southampton e Portsmouth quebraram, por exemplo. Além disso, muitas vezes ignora talentos que estão em baixo de seu nariz, como quase foi o caso de Gareth Bale, em detrimento de jogadores que já conhece.
Apesar disso, seu Tottenham é o melhos dos últimos tempos. Talvez porque não tenha sido ele o responsável por trazer os jogadores. Foi, porém, é inegável, o responsável por colocar os 11 melhores em campo – inclusive Modric ao lado de Van der Vaart, o que parecia taticamente arriscado – e fazê-los acreditarem que podiam vencer adversários do porte de uma Internazionale.
Harry Redknapp não é um gênio, um teórico, mas seu sucesso mostra que há uma outra mistura de qualidades que pode ser bem sucedida no futebol. Dada a falta de outros talentos ingleses e o clamor da torcida por um técnico local, não é absurdo imaginá-lo no comando do time nacional. O que Clough, por exemplo, nunca coseguiu.



