O maior desafio de Big Phil

Pela primeira vez na história, um time da Premier League vai ser treinado por um brasileiro. E não vai ser qualquer time, não: trata-se do Chelsea, que contratou na última semana Luiz Felipe Scolari.
Vai ser um desafio imenso para Felipão. O técnico notoriamente gosta de assumir equipes com expectativas relativamente baixas e fazê-las crescer, pegando adversários de surpresa. Definitivamente, essa não é o caso no Chelsea. Logo na primeira temporada, Scolari terá que ganhar algum título e, na segunda, tem que faturar a Liga dos Campeões. São objetivos ambiciosos? Sim, mas não dá para esperar menos do que isso nos Blues – vale lembrar que Avram Grant foi demitido por não alcançar o primeiro alvo, e Mourinho por não atingir o segundo.
A palavra-chave para Felipão vai ser ‘adaptabilidade’. O técnico brasileiro já tem experiência suficiente na Europa para saber que as coisas por lá não funcionam como por aqui. E, como não é nenhum bobo, sabe que vai ter que mudar muitas coisas em seu estilo para lidar com um elenco de estrelas provenientes de diferentes países. Tudo isso sem dominar perfeitamente a língua inglesa.
Os dois primeiros meses de Scolari no Chelsea serão cruciais para seu sucesso. Nesse período, o técnico tem que avaliar quais jogadores não se encaixam em seus planos e trocá-los por outros mais interessantes no mercado. É bom lembrar que, diferentemente de outros treinadores na Inglaterra, Felipão não terá total autonomia para comprar e vender jogadores – mas, mesmo assim, terá mais influência do que em um clube brasileiro.
Sabe quem pode ter ajudado muito o trabalho do brasileiro? Ninguém menos que Avram Grant. Foi uma ajuda involuntária, claro. Acontece que José Mourinho deixou um legado muito forte no Chelsea. Não só montou a base do time atual, como era admirado pela maioria dos jogadores, torcedores e jornalistas. Sua ‘sombra’ certamente prejudicaria seu sucessor. E nisso Grant foi providencial, ao ser ele o alvo das comparações com Mourinho, abrindo um espaço entre o português e Felipão. Em vez de ser comparado com o carismático Mourinho, o trabalho de Scolari terá como medida o insosso Grant (que, vale dizer, não foi tão mal, em termos de resultados).
Por mais que se confie em Felipão, não dá para dizer com certeza que ele será bem-sucedido. A exigência é muito grande, e o ambiente é muito diferente de tudo o que ele enfrentou antes. Só dá para estar certo de uma coisa: vai ser divertido, para nós, torcedores. Tendo como adversários principais os turrões Alex Ferguson e Arsène Wenger, polêmicas não vão faltar. E, nesse departamento, Scolari é mestre.
É hora de rever a temporada (parte 2)
Como já é tradição nesta coluna, seguimos fazendo nosso balanço time a time da temporada que se encerrou. Nesta segunda parte, comentamos o ano de Blackburn, Bolton, Chelsea, Derby, Everton e Fulham.
Blackburn
Destaque: Roque Santa Cruz
Classificação final: 7º lugar (58 pontos)
Resultados na Europa: eliminado na primeira fase da Copa Uefa pelo Larissa (Grécia)
FA Cup: eliminado na terceira fase pelo Coventry (2ª divisão)
League Cup: eliminado nas quartas-de-final pelo Arsenal
O Blackburn tem sido o time mais discretamente eficiente dos últimos anos. Mais uma vez, os Rovers não atraíram os holofotes – até porque seu estilo de jogo está longe de ser bonito –, mas brigaram cabeça a cabeça com times que têm muito mais recursos do que eles.
Para mostrar a consistência do Blackburn, basta dizer que o time passou apenas uma rodada na metade de baixo da tabela – feito que só o Everton, fora dos quatro ‘grandes’, conseguiu igualar. O problema é que, apesar de toda a regularidade, o time acabou a temporada de mãos vazias: ficou em sétimo lugar e não se classificou nem para a Intertoto.
Não ter ido para a Copa Uefa pode até ter sido uma coisa boa. Afinal, foi nessa competição que aconteceu o pior momento do Blackburn na temporada: logo na estréia, o time foi eliminado pelo pequeno Larissa, da Grécia.
Para a próxima temporada, a incerteza no Blackburn é grande. O time perdeu o bom técnico Mark Hughes para o Manchester City, e ainda não definiu seu substituto. Se já estava difícil para o time continuar progredindo, agora ficou praticamente impossível.
Nota da temporada: 6
Bolton
Destaque: Jussi Jaaskelainen
Classificação final: 16º lugar (37 pontos)
Resultados na Europa: eliminado nas oitavas-de-final da Copa Uefa pelo Sporting (Portugal)
FA Cup: eliminado na terceira fase pelo Sheffield United (2ª divisão)
League Cup: eliminado nas oitavas-de-final pelo Manchester City
O Bolton foi, junto com o Reading, o time que mais regrediu da temporada passada para esta: fez 19 pontos a menos que no campeonato anterior. Por pouco, a equipe não foi rebaixada – o que teria sido um resultado até que justo, dada a pobreza do futebol exibido.
A origem do problema do Bolton foi o técnico. O time perdeu Sam Allardyce, que vinha sendo extremamente bem-sucedido, e cometeu o erro de colocar em seu lugar Sammy Lee, que só tinha experiência como assistente. Foi um fiasco: o time fez só cinco pontos nas primeiras nove rodadas, e Lee foi demitido.
Para seu lugar, foi contratado Gary Megson, bastante experiente em lutas contra o rebaixamento. Quando o time começava a dar sinais de vida, eis que seu melhor jogador, Nicolas Anelka, é vendido para o Chelsea, em janeiro. O Bolton se arrastou no resto da temporada e em alguns momentos parecia aposta certa para a queda. Mas uma seqüência de cinco jogos invicto no final do campeonato acabou salvando a equipe. Para a próxima temporada, no entanto, muita coisa vai ter que melhorar – se não, vem aí mais um ano no pé da tabela.
Nota da temporada: 4
Chelsea
Destaque: Frank Lampard
Classificação final: 2º lugar (85 pontos – classificado para a Liga dos Campeões)
Resultados na Europa: derrotado na final da Liga dos Campeões pelo Manchester United
FA Cup: eliminado nas quartas-de-final pelo Barnsley (2ª divisão)
League Cup: derrotado na final pelo Tottenham
É difícil qualificar a temporada do Chelsea. Por um lado, o time ficou sem nenhum título pela primeira vez desde 2004. Por outro, chegou à final da Liga dos Campeões, algo que nunca havia conseguido – e ainda foi vice-campeã do Inglês e da League Cup.
O personagem símbolo da temporada dos Blues é o técnico Avram Grant. Ao mesmo tempo, ele foi extremamente sortudo, por ter ganho o cargo – após a estranha demissão de José Mourinho, em setembro –, e extremamente azarado, por ser demitido numa temporada em que conseguiu resultados acima do que se esperava quando foi contratado. É o mesmo com o time: um ano que podia ser perdido quase acabou em glória.
Deve-se lembrar, sobretudo, que o Chelsea perdeu o Inglês e a LC por muito pouco – e, em ambos, foi derrotado pelo Manchester United, time que fez uma temporada perfeita. Por outro lado, não dá para dizer que ‘quase’ é suficiente para um clube que gasta o que o Chelsea gasta.
Para sair do ‘mais ou menos’, a direção dos Blues decidiu demitir Grant e trazer Felipão. O brasileiro é uma aposta relativamente arriscada, mas que, se der certo, trará imensos dividendos. Afinal, ganhar títulos é com Scolari mesmo.
Nota da temporada: 6
Derby
Destaque: Kenny Miller
Classificação final: 20º lugar (11 pontos – rebaixado para a segunda divisão)
FA Cup: eliminado na quarta fase pelo Preston (2ª divisão)
League Cup: eliminado na segunda fase pelo Blackpool (2ª divisão)
Recordes existem para serem batidos. Depois do vexame do Sunderland em 2005/6, imaginava-se que nenhum time seria capaz de fazer uma campanha ainda mais patética. Mas eis que surge o Derby, que ganha apenas 11 pontos na temporada e consegue quebrar o recorde dos Black Cats.
Os Rams ocuparam a lanterna da Premier League em 33 das 38 rodadas (em todas a partir da 11ª). No começo, com o técnico Billy Davies, ainda conseguia manter uma certa dignidade: estava na cara que ia cair, mas pelo menos mantinha-se perto dos outros na tabela.
Após a 14ª rodada, a diretoria decidiu demitir Davies, por sua ‘falta de ambição’ (o técnico admitia publicamente que o Derby dificilmente evitaria o rebaixamento). Foi um grande erro. Para seu lugar, chegou Paul Jewell, que não é um treinador ruim, mas não conseguiu nem motivar o elenco como Davies fazia. Resultado: os Rams fizeram só cinco pontos em 24 partidas e acabaram com a pior campanha de todos os tempos. Só não ganham nota 0 neste balanço porque, desde o início, todo mundo já sabia que o ano iria ser muito difícil para a equipe.
Nota da temporada: 1
Everton
Destaque: Yakubu Ayegbeni
Classificação final: 5º lugar (65 pontos – classificado para a Copa Uefa)
Resultados na Europa: eliminado nas oitavas-de-final da Copa Uefa pela Fiorentina (Itália)
FA Cup: eliminado na terceira fase pelo Oldham (3ª divisão)
League Cup: eliminado nas semifinais pelo Chelsea
A cada ano que passa, David Moyes reforça suas credenciais como melhor técnico da Premier League (pelo menos o melhor fora dos quatro ‘grandes’). Mais uma vez, ele conseguiu firmar o Everton como melhor time fora dos ‘quatro grandes’, mesmo contando com menos recursos que clubes como Manchester City ou Portsmouth.
Neste ano, o Everton foi mais longe ainda: chegou a incomodar o Liverpool, tirando os Reds do quarto lugar em algumas rodadas. O feito, por si só, não é inédito (em 2004/5, o clube terminou a temporada em quarto), mas nunca os Toffees haviam conseguido manter o bom desempenho numa temporada em que também disputaram a Copa Uefa. Na competição continental, aliás, o time fez campanha digna, só perdendo nos pênaltis para a forte Fiorentina, nas oitavas-de-final.
Como acontece com as outras equipes do ‘segundo escalão’, a grande dificuldade do Everton daqui em diante será continuar progredindo – ainda mais quando há times bancados por milionários crescendo logo atrás. Contam a favor dos Toffees a estabilidade e o ótimo treinador. Os ‘grandes’ que se cuidem, pois se alguém bobear, o Everton estará lá para roubar uma vaguinha na Liga dos Campeões.
Nota da temporada: 8
Fulham
Destaque: Danny Murphy
Classificação final: 17º lugar (36 pontos)
FA Cup: eliminado na terceira fase pelo Bristol Rovers (3ª divisão)
League Cup: eliminado na terceira fase pelo Bolton
Poucas vezes na história uma campanha tão ruim acabou tão bem. Por 35 rodadas, pouca coisa deu certo para o Fulham, tanto que o time chegou a estar matematicamente rebaixado, por alguns minutos. Mas aí aconteceu o milagre: na antepenúltima rodada, o time virou a partida contra o Manchester City de 0 a 2 para 3 a 2, manteve-se viva e ganhou fôlego.
E esse não foi o único milagre do fim de temporada dos Cottagers. A equipe venceu três partidas seguidas fora de casa, coisa que nunca havia feito em sua história. Ao todo, ganhou quatro dos últimos cinco jogos, conseguindo evitar milagrosamente o rebaixamento – depois de passar 18 rodadas seguidas na zona da degola.
Tudo isso aconteceu porque, na pré-temporada, o vai-e-vem de jogadores foi excessivo, e o técnico Lawrie Sanchez não conseguiu se acertar em nenhum momento. Acabou demitido após a 17ª rodada. Pouco depois, o clube contratou outra aposta arriscada: Roy Hodgson. Com outra baciada de contratações e saídas em janeiro, o técnico seguia o mesmo caminho de seu predecessor e não conseguia acertar o time. Mas eis que, de repente, tudo começou a dar certo nas últimas semanas da temporada, e o Fulham ganhou mais um ano na Premier League.
Nota da temporada: 5



