O dono da bola

Southampton e Portsmouth têm entre si uma das maiores rivalidades do futebol inglês. Separadas por 17 milhas, as duas cidades portuárias são rivais, e as torcidas de seus times não poderiam odiar mais uma à outra. Embora já tenha ganho a liga inglesas duas vezes e a FA Cup outras duas enquanto o rival tem apenas uma FA Cup no currículo, é o Southampton que leva vantagem no dérbi entre os dois, com 34 vitórias contra 20.
Hoje, porém, um abismo separa as duas equipes: o Portsmouth está na Premier League, e o Southampton começará a League One com dez pontos a menos. Em um aspecto, porém, os Saints levam vantagem diante do Pompey: já sabem quem será seu dono no ano que vem, e, com isso, seu treinador (Alan Pardew, indicado na semana passada).
As duas equipes do Sul não são as únicas no país a terem problemas de “ownership” recentes: como todo mundo que acompanha o futebol inglês sabe, bem ao norte o Newcastle padece do mesmo mal. Está à venda desde o final da temporada, caiu para a segunda divisão e simplesmente não pode começar seu planejamento porque não se sabe a quem vai pertencer.
O último ato da direção foi declarar um embargo de transferências enquanto não se resolver a questão. O problema é que os Magpies têm uma folha salarial altíssima, e precisam se livrar de alguns de seus maiores salários enquanto é tempo. Para completar, consta que alguns dos jogadores mais importantes da equipe ameaçaram pedir transferência se Alan Shearer não for indicado logo com técnico para a próxima temporada.
As situações dos três clubes são diferentes não só na tabela, onde cada um disputa uma divisão, nem nas perspectivas para o futuro. Os motivos pelos quais chegaram onde chegaram e sua situação financeira também são variados. Os Saints, que pelo menos vão ter algum tempo para tentar saber com sair da enrascada em que se meteram, começaram sua derrocada com a construção do estádio St. Mary, inaugurado em 2001. Em 2002/03, o time foi finalista da FA Cup e oitavo colocado na liga, e se classificou para a Copa Uefa.
Apenas duas temporadas depois, porém, seu destino se cruza com o do maior rival: dias depois de se demitir do Portsmouth, Harry Redknapp foi indicado como treinador da equipe, para ira profunda da torcida. O time acabou rebaixado, e, para criar um clima bacana para o atual técnico dos Spurs em Southampton, Redknapp simplesmente pegou seu boné poucos meses depois e voltou ao Portsmouth.
Desde então os Saints caminham rumo ao colapso, que se tornou iminente no final da temporada passada. Em abril, a Southampton plc, dona do time, quebrou, e foi isso que levou à dedução de 10 pontos na próxima temporada – que teria acontecido nesta caso os Saints não tivessem caído. Em julho finalmente foi anunciado o novo dono do clube, um grupo de investidores cuja figura pública é Markus Liebherr. O suíço nascido na Alemanha é bilionário, e tem negócios em variadas áreas empresariais. Até onde se sabe, enxerga o clube como um bom negócio. Como não é árabe nem russo e tem feito dinheiro por onde passa, pode ser que realmente tenha razão.
Árabe entretanto, é Sulaiman Al Fahim. O homem que conduziu o processo de compra do Manchester City, do qual depois foi afastado, é muito menos rico do que os donos dos Citizens, mas certamente tem dinheiro para ajudar o Pompey a sair do buraco em que o clube esta querendo se enfiar. A questão é que a Football League exige alguns “atestados” dos proprietários de seus clubes. Considerando que Roman Abramovich os tem, não há porque Al Fahim não tê-los, mas a obtenção dos mesmos, ao lado da suspeita de que poderia haver um mesmo dono por trás de dois clubes da Premier League, está atrasando o processo.
O resultado disso é que, com a iminente saída de Peter Crouch, o Portsmouth terá em seu elenco 14 jogadores de linha – e nenhum técnico. É provável que o árabe se torne mesmo o novo dono do clube, mas tudo indica que sto só acontecerá de fato no começo de agosto. Ainda assim, mesmo que a equipe disponha de apenas um mês para se reformular completamente, é uma perspectiva melhor do que se o negócio não sair. Alexander Gaydamak, atual dono do clube, está longe de ser pobre, mas perdeu o interesse pelo time.
O que talvez não possa ser dito de Mike Ashley, dono do Newcastle, que provavelmente continua sendo um torcedor apaixonado da equipe. Ashley, entretanto, no mínimo percebeu que não tem competência para gerir um time de futebol. O milionário do ramo de lojas de artigos esportivos comprou o clube em maio de 2007, por cerca de 130 milhões de libras, e supostamente já injetou mais 100 milhões no clube. No princípio foi idolatrado pela torcida, e tudo parecia dar certo. A saída de Kevin Keegan, entretanto, em meio a uma disputa de poder interna, arruinou o ambiente do clube, e o resultado final foi o rebaixamento.
O Newcastle não tem grandes dívidas, e seu faturamento com patrocínio e com o “match day revenue” é enorme. O comprometimento de suas receitas, entretanto, também é grande, e começar a planejar em agosto não vai ajudar. Pior ainda se a venda do clube demorar mais do que isso. Ashley diz que há grupos interessados no Newcastle, mas ninguém sabe ao certo quanto uma transação está perto de acontecer.
Para os brasileiros, o modelo de clubes de futebol que têm um dono (de verdade, não um Marcelo Teixeira ou um Celso Barros) parece estranho, mas, na Inglaterra, é assim que funciona: o clube de futebol é uma empresa como outra qualquer. Quem acompanha ou acompanhou uma empresa em processo de venda sabe o quanto isto congela todas as decisões. Se a venda sai, bem, em geral, mesmo que não no primeiro momento, recupera-se o tempo perdido. O problema é quando ela não sai. É esta a grande questão para Portsmouth e Newcastle.



