O dilema Wenger

Arsène Wenger pisou pela primeira vez em Highbury no começo da temporada 1996/7. Foi recebido por um dos principais jornais britânicos com a manchete “Arsène Quem?”. E não foi à toa. Depois de um relativo sucesso no Monaco, onde ganhou a liga em seu primeiro ano no cargo, o treinador acabou no Japão, onde, sinceramente, não interessa o que ganhou ou deixou de ganhar. (Não é preguiça, não, em uma gorgolada você acha, mas se considerarmos que o atual tricampeão japonês é Oswaldo de Oliveira a questão perde importância, certo?)
Quando chegou a Londres, o Arsenal não estava mais na fila, e só não tinha mais como técnico o velho favorito George Graham – depois convertido em traidor ao treinar o Tottenham – porque, embora tenha acabado com a seca de títulos e ganho a liga duas vezes, se envolveu em transações estranhas de jogadores. Graham não só foi o responsável por levar troféus de volta ao clube, como também comandou uma das mais espetaculares virada do Inglês na temporada 88/9, quando os Guunners ganharam o título no último jogo, contra o Liverpool em Anfield.
A expectativa, portanto, era alta, até porque o time partia de um quinto lugar na temporada anterior, e não de lutar contra o rebaixamento. E Wenger respondeu rápido: depois de duas terceiras colocações, ganhou o título em seu terceiro ano, e iniciou uma fase de disputas com o Manchester United que durou até a chegada de Roman Abramovich ao Chelsea. No meio do caminho ganhou mais duas ligas, uma delas sem perder nenhum jogo. E adicionou algumas lendas à galeria de heróis do clube.
Wenger ganhou títulos, mas sua fama se deve muito mais ao fato de tê-lo feito com menos dinheiro do que os outros, e a suas “pechinchas”: comprou Overmars por 5,5 mi e vendeu por 25 mi; comprou Henry por 10 mi e, depois de ganhar tudo o que podia com o jogador, vendeu por 24 mi; comprou Vieira por 3,5 mi e, assim como com Henry, depois de tê-lo “usado” intensamente, vendeu por 18 mi. O técnico que todo time sonha ter: deixa troféus no clube, e põe dinheiro no caixa. Ainda que se considere os maus negócios do francês, como Reyes e Hleb.
Assim como quando chegou a Londres sob desconfiança, o sucesso faz com que seu nome passasse a aparecer em 10 entre 10 listas de técnicos desejados por todos os times ricos do mundo. Wenger, porém, não se deixou iludir pelos milhões dos reais madrids da vida, e seguiu em Highbury e até mudou com o clube para Ashburton Grove. Completará, no final da temporada, 14 anos de contrato, que vai até o ano que vem. Seu clube, entretanto, depois de perder para o ameaçado de rebaixamento Wigan de virada, amargará mais um ano, o quinto, sem títulos. E parece ser o momento de repensar o modelo.
Não de repensar Wenger, fique claro. Embora tenha ganho títulos com times montados sem muito dinheiro e tenha amargado uma seca justamente por causa dos times que os sucederam, montados com ainda menos dinheiro e idade, não se pode desprezar a possibilidade de que o próprio Wenger tenha cansado de esperar a molecada crescer – só para ver alguns deles, quando chega o momento, deixarem o clube. A perspectiva de perder Fábregas para o Barcelona justamente quando o jogador começa a atingir seu ápice, por exemplo, dificilmente passará desapercebida ao francês.
O fato inegável é que o Arsenal perdeu competitividade. Se se falou em algum momento neste ano que a equipe poderia chegar ao título isto se deveu muito mais à irregularidade dos adversários e à tabela dos Gunners do que a uma consistência dos londrinos. A gota d'água certamente há de ter sido a primeira derrota para o Tottenham em mais de dez anos. Os Spurs podem até ser melhores hoje do que eram nos últimos anos, mas é evidente que quando seu time tem Daiby, Eboué e outros nove moleques que não seriam titulares no rival, algo precisa mudar.
Não é que o modelo não funcione mais. Há, parece, dois fatores que impedem que Wenger continue vencendo com vencia antes. O primeiro é o dinheiro que os outros passaram a ter. Antes havia um ricaço só, o United. Quando os Devils não iam bem, e mesmo quando iam, era possível competir. Agora, entretanto, há quatro milionários. Um deles sempre vai conseguir montar um time competitivo – e que a torcida Gunner reze para que não sejam os quatro.
O outro fator é que o mundo aprendeu com Wenger. Os jogadores que só ele queria agora todo mundo quer. Mesmo os que ele consegue achar e levar para Londres, agora são alvo de todo tipo de oferta e especulação. O resultado é que o time muda muito de temporada em temporada, o que atrapalha muito mais uma equipe como o Arsenal de Wenger, muito baseado no conjunto.
De acordo com a imprensa inglesa, o Arsenal pretende oferecer, no final da atual temporada, novo contrato ao treinador, que ficaria até 2014. Não há nenhum motivo para ser diferente, considerados os resultados que ele obteve em todas as frentes. Até porque é bom lembrar que uma boa parte do estilo “econômico” se deveu ao Arsenal estar construindo Ashburton Grove (isso, o Emirates) e não ter muito dinheiro.
Resta saber se o francês pretende continuar por lá, e tudo indica que sim – afinal o Real Madrid é só um dos clubes que teria oferecido dinheiro sem fim para tê-lo, e ele não saiu. E se pretende continuar no mesmo modelo.
O Arsenal pode não ter um xeique árabe por trás, mas certamente continua sendo um clube rico. No momento em que as transações de jogadores desaceleram um pouco, o clube pode muito bem voltar a ser competitivo na briga por nomes de mais peso – como, por exemplo, o foi com Arshavin. Um goleiro de primeira linha pode ser um bom começo.
O modelo, tudo indica, precisa mudar. Que mude com quem vem fazendo um bom trabalho.



