Inglaterra

O dia seguinte

Escrevi duas colunas sobre Harry Redknapp no começo de 2010. No começo de abril, o Tottenham perdeu a semi-final da FA Cup para o Portsmouth, que não pagava salários, estava, como ainda está, quebrado e acabou rebaixado. O título da coluna, inspirado no fundador da Trivela, Cassiano Gobbet, era “O Pior Técnico do Mundo”.

Três dias após o vexame em Wembley, porém, os Spurs receberam o Arsenal em casa, e venceram o rival no campeonato pela primeira vez em 11 anos. Nas partida seguinte, nova vitória expressiva, diante do Chelsea em casa. Três semanas depois, no jogo que definiu a temporada da equipe, os Spurs venceram o Manchester City em Manchester, e garantiram a classificação para a Liga dos Campeões. Nesta semana, claro, escrevi uma coluna com o título “O Melhor Técnico do Mundo”.

Redknapp não é, evidentemente, nem o melhor nem o pior treinador do planeta. Pode, porém, vir a ser o técnico da Inglaterra, motivo pelo qual a humilhante virada sofrida por sua equipe no Emirates merece um olhar mais profundo. Todos os times têm dias ruins, assim como todos têm momentos iluminados. No dérbi do último domingo parecia que o momento iluminado seria do time branco. Em cinco minutos, porém, a sorte do jogo mudou, a confiança pulou o muro e deu no que deu.

Pois bem: e Redknapp nessa? Para começar, a escalação dos Spurs foi esdrúxula. A equipe começou com Saha e Kranjcar em campo, um  jogador recém-chegado depois de passar um bom tempo encostado no Everton e outro que só não foi vendido porque não houve comprador – sim, foi assim com Bale também há algumas temporadas. Além de começar com Van der Vaart no banco, os Spurs tinham só um volante em campo. E Bale na direita, não pela primeira vez, diga-se.

Parecia que funcionaria, claro, e se tivesse funcionado o técnico sairia do Emirates como gênio. Quando o Arsenal empatou, porém, em um gol de pura sorte e outro de pura classe, o Tottenham travou. Redknapp não conseguiu impedir a derrocada no plano tático, e muito menos no emocional. Mexeu certo? Em tese, sim, já que pôs em campo o time que deveria ter começado. Só que não começou, e a mexida não funcionou. O que mais chama a atenção, entretanto, foi o “derretimento” emocional da equipe. Afinal, não era justamente a motivação o ponto forte de Redknapp? Neste domingo, claramente não foi.

Um jogo é sempre um jogo, e o Tottenham ainda tem sete pontos de folga sobre Arsenal e Chelsea. Joga – em casa – com o United na próxima rodada, mas depois tem só um jogo difícil, o Chelsea fora. A temporada, portanto, ainda tem tudo para acabar bem. Em que medida, porém, isso depende de Redknapp, e até que ponto o sucesso – ou o fracasso – da equipe refletem seu trabalho?

Sabe-se que o inglês não treina o time – quem faz isso são seus auxiliares Kevin Bond e Joe Jordan. Redknapp, dizem, é bom em escolher atletas. As estrelas dos Spurs, porém, não foram contratadas por ele, com exceção de Parker – e de Friedel, que faz ótima temporada. Bale, como já cansamos de repetir por aqui, esteve muito perto de deixar o clube porque o treinador não o escalava. Além disso, sua maior fama antes de chegar aos Spurs era de gastar muito dinheiro, muitas vezes em flops enormes, o que ele não poderá fazer se treinar a Inglaterra.

Pois bem, se o cara é ruim em tudo, porque foi bem sucedido onde falharam os antecessores? Pode ser por que os jogadores eram jovens demais antes dele e agora amadureceram? Sem dúvida pode. Pode ser porque Harry teve sorte onde outros tiveram azar, e isso ajudou o time a ter confiança? Difícil dizer. O jogo que definiu a boa fase da equipe foi o fim do tabu contra o Arsenal. Quanto daquela vitória pode ser atribuído a Redknapp só os jogadores podem dizer.

Por merecimento, Redknapp tem que ser o próximo treinador da Inglaterra. O cargo, porém, não é prêmio, e afeta profundamente os destinos do esporte no país. Neste sentido, parece um passo para trás a indicação de Redknapp. Quem, então? Difícil dizer, mas pelo menos na Euro eu iria de Stuart Pearce. É jovem, sem vícios, conhece a pressão e a rotina do cargo. “Sem vícios”, é claro, vem junto com “pouco experiente”, o que sempre é um problema.

Se para a Inglaterra Redknapp seria um passo atrás, para os Spurs tem sido dois à frente. Ainda que os métodos sejam antigos, que de vez em quando resultem em fracassos estrondosos, o time cresceu muito desde sua chegada. O que não aconteceu com Villas-Boas ou Dalglish, que têm muito mais dinheiro disponível.

É claro que ainda há 12 jogos no caminho dos Spurs, que têm como obrigação neste momento não só se classificar para a LC, mas também terminar na frente do Arsenal. Se ma das duas não acontecer, terá sido um fracasso. E aquele que é um trabalho “bom mas com falhas” pode rapidamente virar “ruim com bons momentos”. Coisas do futebol.

CURTAS

 

  • Pra não dizer que não falamos do Arsenal: é, claramente, um time bipolar, às vezes no mesmo jogo. E depende demais de Van Persie. Que, por outro lado, é um dos cinco melhores do mundo no momento.
  • Título é título, e o Liverpool tem mais é que comemorar a Copa da Liga. O que não pode, entretanto, fechar os olhos da direção para quão pouco é uma Copa da Liga diante de todo o dinheiro que se gastou com o elenco.
  • O United venceu mais uma com gols de Giggs e Scholes. Já foi assim no ano passado, mas quanto tempo ainda durarão Giggs e Scholes? Urge arrumar substitutos à altura para ambos.
  • Na parte de baixo da tabela o QPR segue sua queda livre e, mais uma vez, só não entrou na zona de rebaixamento porque Blackburn e Bolton também perderam na rodada.
  • No Championship, o Southampton retomou a liderança depois do empate do West Ham com o Crystal Palace em casa – os Saints venceram o Watford fora. Os Hammers, porém, estão só dois pontos atrás, mas têm um jogo a menos.
  • Na parte de baixo da tabela, o Nottingham Forest conseguiu excelente resultado: venceu o Birmingham na casa do adversário, e abriu três pontos para o Coventry, último que cairia hoje – e tem ainda um jogo a menos.
  • Na League One, embora as posições continuem inalteradas, o Sheffield Wednesday venceu o dérbi com o United por 1 a 0, e se aproximou do rival na briga pela promoção automática.
  • O United ainda tem dois pontos de vantagem, porém, além de dois jogos a menos.
  • Bom para o Charlton, que abriu dez pontos na liderança – com um jogo a mais que o vice-líder.
  • Na League Two o líder é o Swindon. O Wimbledon empatou três seguidas, e segue no meio da tabela.
     

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo