Inglaterra

No ventilador

Agosto de 2007. Thierry Henry acabara de trocar o Arsenal pelo Barcelona e o posto de capitão do clube estava vago. O sucessor natural era Gilberto Silva, vice-capitão na temporada anterior. No entanto, Arsène Wenger preferiu William Gallas. O francês estava em melhor fase técnica e teria mais espírito de liderança do que o pacato volante brasileiro. Pelo momento da carreira de Gilberto Silva, a escolha se mostrou acertada. No entanto, é também verdade que a personalidade forte de Gallas acabou se voltando contra o Arsenal e Wenger.

Desconfortável com a instabilidade do time no Campeonato Inglês e a sensação de que, por mais uma temporada, os Gunners serão apenas “aquela equipe jovem que um dia será boa”, Gallas resolveu falar o que não deveria. Na última sexta, criticou colegas e expôs a falta de foco do elenco como resultado da inexperiência.

De acordo com o francês, o time não tem a atitude adequada para encarar os jogos decisivos, como havia sido o encontro com o Aston Villa no estádio Emirates. O capitão argumentou que os colegas não se entregam em campo. As palavras “soldados” e “guerreiros” foram mencionadas como referência do nível de garra que os atletas deveriam ter.

Essa passividade explicaria o motivo de o Arsenal estar tão vulnerável contra equipes mais fracas. Afinal, a determinação ajudaria a amedrontar o adversário. Sem isso, os Gunners passariam a imagem de equipe frágil e vencível.

Outro problema, esse até mais grave, seria a falta de comando. Segundo Gallas, dois jogadores começaram a discutir no intervalo do clássico contra o Tottenham. Ele diz que tentou fazer os colegas esquecerem o problema e resolvê-lo após a partida, mas a falta de maturidade já estava evidente. O jogo estava em 1 a 1, chegou a ficar em 4 a 2 para os Gunners, que cederam o empate com dois gols sofridos nos acréscimos.

Esse tipo de atrito seria comum. Como também seria recorrente o fato de o zagueiro se tornar uma espécie de pára-raios para as discordâncias internas. Como capitão, ele seria o destino das reclamações de um jogador do Arsenal com outro. Gallas não disse quem está envolvido nesses casos, mas seria um colega de 25 anos. Os candidatos são Sagna, Eboué, Eduardo da Silva e Van Persie. Especula-se que o último seria o real alvo das críticas, até porque o holandês não se dava muito bem com Henry, amigo de Gallas.

Wenger se viu obrigado a tomar as rédeas da situação. Afastou Gallas do jogo contra o Manchester City. A decisão foi acertada para manter o comando do grupo, mas acabou sendo contestada depois das falhas defensivas do Arsenal na derrota por 3 a 0 para o Manchester City neste sábado. Aproveitando a situação, o Paris Saint-Germain fez uma oferta de empréstimo do francês.

Apesar de não ser oficial, é provável que o zagueiro retorne ao time no duelo contra o Dynamo de Kiev pela Liga dos Campeões. Ainda assim, a tarja de capitão não será mais dele. Não foi anunciado oficialmente que a terá. No jogo contra o Manchester City, ela ficou com Almunia, mas Kolo Touré é, teoricamente, o primeiro vice-capitão.

Independentemente de quem será o novo capitão do Arsenal, fica evidente que o clima não é dos melhores em Ashburton Grove. E, com um elenco inexperiente e um ambiente conturbado, é realmente difícil ter um desempenho competitivo. Os adversários agradecem.

Em se plantando, nada dá

Michael Mancienne é um dos destaques do Wolverhampton, líder disparado da Segundona inglesa. Zagueiro que faz as vezes de lateral-direito quando necessário, o garoto de 20 anos já tem a experiência de duas temporadas no Queen’s Park Rangers e de defender 39 vezes pelas seleções inglesas de sub-alguma-coisa. Pois Mancienne tem uma condição ainda mais rara: é um jogador formado nas categorias de base do Chelsea que parece que vai vingar.

Pode parecer fútil discutir a produtividade das categorias de base de um clube que tem um magnata russo injetando dinheiro. Não é bem assim. Roman Abramovich nunca teve pudor em gastar seu rico dinheirinho para levar grandes jogadores a Stamford Bridge. No entanto, ele sempre deixou claro que investia nas divisões inferiores dos Blues e pensava em ver jovens ajudando a compor o elenco.

De fato, Abramovich investiu. Construiu um centro de treinamento de € 12,9 milhões para as categorias de base do clube. Além disso, pagou € 5,9 milhões de multa para tirar Frank Arnesen do Tottenham. O ex-meia da seleção dinamarquesa ficou conhecido da cartolagem por ser o diretor de futebol responsável por levar Ronaldo, Stam, Van Nistelrooy e Robben ao PSV.

Faz quase cinco anos e meio que o russo comprou o Chelsea. E faz três e meio que o empresário contratou Arnesen como responsável por descobrir jovens talentos para os Blues. Já era tempo para algo ter ocorrido, mas a lista de jogadores que o Chelsea sub-20 levou para o time profissional (equipe A ou B) nos últimos anos é repleta de desconhecidos: Rhys Taylor, Shaun Cummings, Miroslav Stoch, Patrick van Aanholt, Nana Ofori-Twumasi, Liam Bridcutt, Per Weihrauch, Ryan Bertrand, Tom Taiwo, Scott Sinclair, Jack Cork, Adrian Pettigrew, Jimmy Smith e Danny Hollands.

Claro que as categorias de base é só metade do trabalho de Arnesen. Mas a outra metade – encontrar garotos em outros clubes – também não vai bem. Basta ver que, entre os jovens que o clube londrino trouxe de outras equipes, apenas Alex, Salomon Kalou e Mikel John Obi têm algum espaço, com Franco di Santo ainda com chances. Os demais – Tal Ben-Haim, Branislav Ivanovic, Alcides, Harry Worley, Anthony Grant, Ben Sahar, Slobodan Rajkovic, James Russell, Mosia Boy-Boy, Joe Tillen, Yves Makaba-Makalamby, Valerio di Cesare, Steven Watt, Lenny Pidgeley e Joe Keenan – passaram ou passam despercebidos por Stamford Bridge.

Durante os primeiros anos de seu trabalho, Arnesen foi contestado por José Mourinho, mas seu bom relacionamento com Abramovich o manteve no clube. Mas a paciência do russo parece estar acabando. Luiz Felipe Scolari já reclamou da falta de opções no elenco do Chelsea, o que tem relação com contratações de emergêrcia como a de Mineiro.

O presidente do Chelsea demitiu 15 membros da equipe de olheiro do dinamarquês e, de acordo com o (geralmente confiável) jornal inglês Guardian, o próprio Arnesen será demitido antes do Reveillon. Até porque Mancienne, único jogador das categorias de base do Chelsea que parece ter futuro, chegou ao clube com 9 anos, muito antes de Abramovich e Arnesen aportarem em Londres.

Um ano perfeito?

Dificilmente Fabio Capello encerraria seu primeiro ano como técnico da Inglaterra de modo mais positivo. Com diversos desfalques, os ingleses venceram a Alemanha por 2 a 1 em Berlim. O resultado motivou o próprio italiano a dizer que seu ano foi perfeito.

Os números estão do lado do técnico. Em dez partidas em 2008, o English Team venceu oito, empatou uma (contra a República Tcheca) e perdeu outra (contra a França). Mais que isso, a equipe mostrou um futebol convincente, em que se vê consistência tática e a volta da confiança que havia sumido após a eliminação diante da Croácia nas Eliminatórias da Eurocopa.

Curiosamente, Capello fez a Inglaterra crescer ao tirar o enfoque dos queridinhos de sempre da imprensa: Rooney, Gerrard, Lampard, Beckham e Owen. Desse quinteto, apenas o primeiro tem papel fundamental no esquema do italiano. Os demais, por questões físicas, não tiveram tanto espaço e viram outros protagonistas surgirem. Notadamente Walcott, Gareth Barry, Agbonlahor e o improvável Heskey.

Não se discute que Heskey e Barry não têm tanto talento quanto Gerrard ou Lampard. No entanto, ambos desempenham um papel tático que Capello considera fundamental. Heskey é o pivô que se fixa na área adversária e permite que Rooney se movimente. Barry faz o jogo correr de modo simples e útil, mesmo que sem tanto brilho. Agbonlahor foi a agradável surpresa do amistoso em Berlim.

Na defesa, ainda há incertezas. Sobretudo no gol, onde James voltou a ser o preferido, mas não convence. Carson teve uma oportunidade contra os alemães e falhou clamorosamente. A terceira opção seria Robinson, mas Capello dá a entender que prefere esperar pelo amadurecimento de algum jovem, como Hart.

Se todo mundo estiver em boa forma física, a Inglaterra ainda tem em Rooney, Lampard e Gerrard sua estrutura básica. Mas Capello já constrói um time que não dependa deles. E os resultados foram muito bons. Quase perfeitos.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo