No inverno de 1963, a Copa da Inglaterra teve a rodada mais longa e caótica de sua história
Uma cena que podemos tranquilamente chamar de insólita: um funcionário armado com um lança-chamas ignorando que o fogo derrete o gelo com a mesma eficiência com que queima a grama, e isso não pode ser bom para um campo de futebol. No entanto, naquele inverno de 1963, um tapete para que a bola rolasse não era o objetivo da Inglaterra. O objetivo da Inglaterra era simplesmente fazer a bola rolar de qualquer jeito possível, o que acabou se provando muito difícil, especialmente na terceira rodada da Copa da Inglaterra, que durou 66 dias e teve 261 adiamentos de partidas.
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Foi o pior inverno na ilha desde 1740, o que, na Inglaterra, quer dizer alguma coisa. Poucos estádios tinham aquecimento subterrâneo e a ciência em relação ao cultivo de gramados de futebol ainda era insipiente. Nesses momentos, recorre-se à criatividade: o responsável pelo Filbert Street, estádio do Leicester, desenvolveu uma mistura de fertilizantes com herbicidas para lidar com o gelo – muito melhor do que o lança-chamas, aliás, que descongelava a grama apenas para vê-la ser congelada logo em seguida. Com essa vantagem, as Raposas quase conquistaram o título inglês de 1962/63 e entraram para a história como os Reis do Gelo.
O desespero era compreensível porque, antes da enxurrada de libras depositadas nas contas do clube por contratos de patrocínio e de direitos de televisão, a principal renda era a bilheteria. Uma alta média de público ao longo da temporada era essencial para estabelecer os padrões de investimentos em reforços para o campeonato seguinte. Brigar pelo título não significava apenas a possibilidade de glória esportiva, mas também mais público e mais dinheiro. Se nevasse demais, o campo congelava. Se o campo congelasse, não teria jogo de futebol. Se não tivesse jogo de futebol, não haveria dinheiro.
Dirigentes colocaram grana do próprio bolso para manter as luzes acesas, enquanto a Federação Inglesa ofereceu empréstimos sem juros para equipes com dificuldades financeiras – o Blackpool, por exemplo, não disputou sequer uma partida em casa entre 15 de dezembro e 2 de março, e o Barnsley, dentro ou fora, entrou em campo apenas duas vezes em um período parecido. O Halifax Town, demonstrando grande desenvoltura para transformar limões em limonadas, organizou um rinque de patinação em seu estádio e cobrou ingresso.
Clubes de renome conseguiram convites para amistosos. Manchester United, Wolverhampton e Liverpool, que mantinha a forma física dos seus jogadores treinando no ginásio de um colégio local, foram para a Irlanda, que surpreendente não sofreu tanto assim com as nevascas. O Chelsea jogou contra Malta, venceu e ficou um tempão esperando para voltar porque os aeroportos britânicos foram fechados por causa do tempo ruim. O Brigont & Hove Albion juntou-se com o time de hóquei da cidade para uma turnê ao redor da Europa.
Água potável congelou. Como a maioria das casas não tinha aquecimento central, o grande esporte praticado naquele inverno foi jogar carvão na lareira. Os ingleses precisavam de algum entretenimento e não há nenhum melhor, para eles, do que apostar em futebol. O problema é que não havia muito futebol sendo disputado, então, aproximando-se do surrealismo, foi criado um painel que decidia o resultado das partidas adiadas. Faziam parte do comitê jogadores aposentados como Tom Finney, um ex-árbitro e até mesmo um deputado do partido trabalhista. A primeira reunião terminou com 23 vitórias do mandante, oito do visitante e sete empates.
Na época do Natal, dezenas de partidas da Football League haviam sido adiadas, debaixo de mais de 35 centímetros de neve. Em meio a tudo isso, em 5 de janeiro, começou a terceira rodada da Copa da Inglaterra, fase em que entravam os times da primeira e da segunda divisão. Deveriam ser disputados 32 jogos naquela data. Foram disputados três: o Preston North End foi goleado, em casa, pelo Sunderland; o Plymouth, também em casa, levou 5 a 1 do West Brom; e, desgraça pouca para o calendário é bobagem, Tranmere Rovers e Chelsea empataram por 2 a 2 e tiveram que disputar o replay, que só pode ser marcado para o fim do mês. Houve oito replays no total.
Os outros 29 confrontos foram remarcados, e a rodada-que-nunca-acaba acabou apenas em 11 de março, quando o Middlesbrough venceu o Blackburn, por 3 a 1. Apenas Birmingham x Bury sofreu com 14 adiamentos, um abandono e um replay, eventualmente vencido pelo Bury, por 2 a 0. Lincoln x Coventry foi remarcado 15 vezes. Ninguém bateu, no entanto, o confronto de outra copa nacional, a da Escócia, ainda mais ao norte da Inglaterra: Stranraer x Airdrie foi adiado nada menos que 33 vezes.
Enquanto muitos duelos não seriam decididos até o começo de março, o Leicester entrou em fevereiro já classificado para as oitavas de final. Ganhou do Grimsby, fora de casa, em 8 de janeiro e, aproveitando a poção mágica do seu funcionário, bateu o Ipswich Town, em Filbert Street. O Wrexham atirou 80 toneladas de areia no seu gramado e conseguiu receber o Liverpool de Bill Shankly para uma partida de beach soccer apenas quatro dias depois da data inicialmente marcada. Perdeu por 3 a 0.
O Tottenham era favorito contra o Burnley, em casa, na tentativa de conquistar o terceiro título seguido da FA Cup. Os Spurs seriam vice-campeões ingleses naquela temporada, um ponto acima do próprio Burnley, terceiro colocado. O gramado de White Hart Lane, no entanto, estava soterrado pela neve e os jogadores do clube londrino não conseguiram mostrar seu melhor futebol, ficaram irritados e acabaram derrotados sem ressalvas por 3 a 0.
A quarta rodada foi menos caótica e terminou em 19 de março, aproximadamente uma semana depois do fim da terceira rodada, com o replay entre Portsmouth e Coventry City, que também se manteve em atividade durante o inverno com amistosos no exterior e saiu do duelo vencedor. A FA havia dado permissão para as equipes disputarem seus jogos em campos neutros, quando fosse necessário, mas o técnico do pequeno Gravesend & Northfleet recusou-se a abrir mão do seu jogo em casa contra o Sunderland. A decisão pagou-se: o time da quinta divisão segurou o Sunderland, da Segundona, e forçou o replay. No jogo de volta, foi derrotado por 5 a 2, em uma partida mais apertada do que o placar indica.
Quando chegou a hora de realizar o sorteio da quarta rodada, todos os cruzamentos tinham pelo menos um confronto indefinido. Para evitar algo ainda pior no sacudir de bolinhas da quinta rodada – algo, digamos, semelhante aos saudosos Bolívia 3 e Peru 5 da Libertadores -, esse sorteio foi adiado. Com a chegada do outono, tudo foi voltando ao normal. Em 27 de abril, a Inglaterra conheceu seus finalistas. Em uma exibição espetacular de Gordon Banks, o Leicester bateu o Liverpool, por 1 a 0, apesar de os comandados de Bill Shankly terem finalizado 30 vezes contra os adversários, em Hillsborough. Os Reds nunca haviam vencido a competição, sequer disputado uma final, e a maldição só terminaria dois anos depois. No Villa Park, em Birmingham, um solitário gol de Denis Law garantiu o bilhete de trem do Manchester United rumo a Wembley.
Por causa dos adiamentos, a decisão da FA Cup foi realizada apenas em 25 de maio, três semanas depois da final do ano anterior. A Copa da Liga Inglesa, que sempre costuma terminar antes da FA Cup, foi decidida ainda mais tarde, com seus jogos de ida e volta entre Birmingham e Aston Villa realizados em 23 e 27 de maio. Law voltou a abrir o placar para o Manchester United, e David Herd ampliou. A dez minutos do fim, o Leicester descontou, mas Herd fechou o placar, dando ao United seu primeiro título depois do Desastre de Munique e colocando um ponto final em uma Copa da Inglaterra para lá de confusa.



