Inglaterra

Negros, homossexuais, mulheres e asiáticos: presidente da FA renunciou após ofender todos eles no mesmo depoimento

Greg Clarke, presidente da Federação Inglesa, usou o termo “jogadores de cor” para se referir a atletas negros, disse que há muitos asiáticos trabalhando no departamento de TI, referiu-se a homossexuais fazendo “uma escolha de vida” e que há poucas goleiras mulheres porque garotas não gostam de levar bolada. Tudo isso de uma vez, em um único depoimento ao parlamento. Clarke – a essa altura você já deve ter adivinhado – ficou desempregado.

Clarke estava falando com um comitê do Departamento de Digital, Cultura, Mídia e Esportes (DCMS) do Parlamento sobre o papel da Federação Inglesa no projeto Big Picture e as negociações para que a Premier League auxilie financeiramente as divisões inferiores. Também foi indagado sobre os esforços da entidade em relação ao futebol feminino e para promover mais diversidade no esporte, e aí as coisas começaram a ficar complicadas.

Ele foi indagado sobre as dificuldades que os jogadores homossexuais enfrentam para se declararem abertamente como tal e respondeu: “Eu não sei. Passei muito tempo falando com pessoas da comunidade LGBT, pessoas de outros esportes que se declararam, e a visão que ouvi é para olhar ao que aconteceu com jogadoras famosas, jogadores famosos de cor, e as ofensas que eles receberam nas redes sociais. É um vale tudo”.

Durante o depoimento, Clarke foi repreendido por deputados e imediatamente pediu desculpas. “Se eu disse, peço desculpas. Sou um produto de ter trabalhado no exterior, trabalhei nos EUA por muitos anos, onde eu precisava usar o termo ‘pessoas de cor’ por causa da legislação de diversidade. Às vezes, eu tropeço nas minhas palavras e peço desculpas”.

No entanto, como pontuou o deputado Julian Knight, não foi o primeiro strike de Clarke. Ele havia sido criticado anteriormente por dizer que preocupações de que havia racismo institucional na federação eram “superficiais”. “É correto que Greg Clarke peça desculpas ao comitê, no entanto, não é a primeira vez que a FA passa por esses problemas. Faz com que nós nos questionemos o seu compromisso com a diversidade. A questão na verdade é: alguém como o senhor Clarke, que usa frases tão infelizes e usou frases tão infelizes no passado, e tropeçou em algumas dessas questões, é ou não é a pessoa certa para liderar a FA, no momento em que ela precisa lidar com essas questões?”, disse Knight.

Antes, respondendo sobre como atrair pessoas de diferentes comunidades para trabalhar no futebol, Clarke havia dito: “Se você olhar para o alto nível do futebol, a comunidade afro-caribenha é mais representada do que a comunidade sul-asiática. Se você for ao departamento de TI da Federação Inglesa, há mais sul-asiáticos do que afro-caribenhos. Eles têm interesses de carreira diferentes. O que você tem que fazer é tratar cada indivíduo em seus méritos, mas ser inclusivo e ter programa que não cruzem a linha para uma discriminação positiva, mas encorajar essas comunidades a participar”.

Ele também se referiu ao processo em que um jogador se declara homossexual como uma “escolha de vida” e disse que ouviu de um treinador que as jovens jogadoras de futebol não gostam de levar boladas fortes.

“O seu uso de linguagem ultrapassada para descrever pessoas negras e asiáticas como ‘de cor’ é de décadas atrás e deve permanecer na lixeira da história”, afirmou o presidente da Kick It Out, entidade que luta contra a discriminação, Sanjay Bhandari. “Fiquei especialmente preocupado com o uso de estereótipos preguiçosos e racistas em relação a sul-asiáticos e suas supostas preferências de carreira… esse tipo de atitude pode muito bem explicar parcialmente por que sul-asiáticos são estatisticamente a minoria étnica menos representada em campo. Ser gay não é uma ‘escolha de vida’, como ele disse. O sexismo casual de dizer que ‘garotas’ não gostam de levar boladas fortes é impressionante se fosse qualquer um, ainda mais o líder do nosso jogo. É completamente inaceitável”.

“Esses comentários indicam que há mais que precisa ser feito para desafiar atitudes. Para todos os passos à frente recentemente, esses comentários são um grande passo atrás”, completou.

Os comentários motivaram uma reunião de emergência da diretoria da Federação Inglesa, ao fim da qual um comunicado foi emitido com o pedido de demissão de Clarke – que ainda tentou fazer parecer que já estava pensando em sair mesmo. Ele ainda é vice-presidente da Fifa. Peter McCormick será o chefe interino da entidade, durante a busca por um novo presidente.

“Minhas palavras inaceitáveis diante do parlamento foram um desserviço ao nosso jogo e a todos que o assistem, jogam, arbitram e administram. Isso cristalizou minha determinação de seguir em frente. Estou profundamente triste por ter ofendido essas comunidades diversas do futebol que eu e outros trabalhamos para incluir”, afirmou.

No comunicado, a FA “reafirmou que, como organização, está absolutamente comprometida em fazer tudo que puder para promover diversidade, combater a desigualdade e atacar todas as formas de discriminação dentro do jogo”

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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