Inglaterra

Não vale a pena

A família Al Nahyan não comprou o Manchester City para lucrar com o futebol. Desde o primeiro momento, ficou bem claro que o interesse da família que governa Abu Dhabi usar o clube inglês para atender ao chamado de seus egos e projetar o nome da capital dos Emirados Árabes no cenário internacional. Por isso, contratar Kaká se transformou em questão de honra, a ponto de os xeiques oferecerem, segundo a imprensa europeia, € 120 milhões. Se o número for real, é um grande equívoco futebolístico.

Para que o plano dos árabes tenha sucesso, independentemente da motivação deles, o Manchester City precisa ter um crescimento sustentável em longo prazo. Nem tanto do ponto de vista econômico, pois os donos dos Citizens são monarcas e, por mais que gastem tudo o que tenham (e têm menos do que tinham há uns meses com a queda do preço do petróleo), continuarão comandando um Estado sem risco de perder mandato em uma eleição e podem tirar vantagem disso para continuarem milionários (nem Abramovich tem essa colher de chá).

A questão é que o clube precisa ser grande e midiático e, para isso, tem de se tornar atrativo para torcedores/consumidores e jogadores. Se a largada desse projeto for dada em janeiro de 2009, primeira janela de mercado que os novos donos dos Citizens têm à disposição, o melhor a fazer seria criar uma equipe homogênea e competitiva para fazer um bom final de temporada – título da Copa Uefa e uma arrancada na reta final do Campeonato Inglês – e entrar em 2009/10 como uma força da Premier League.

O ponto de partida seria avaliar a equipe atual: Hart; Zabaleta, Micah Richards, Dunne e Garrido; Kompany, Wright-Phillips, Ireland e Vassell; Robinho e Benjani. No papel, o time não é ruim, porém, há um excesso de jogadores que não confirmaram as expectativas e uma dose de insegurança na defesa. Assim, manter essa mesma base e simplesmente enxertar Kaká não mudará o fato de que o Manchester City tem condições de, no máximo, brigar com o Everton como azarão na luta por uma vaga na Copa Uefa.

Com os € 120 milhões oferecidos para Kaká é possível a diretoria árabe do clube mancuniano fazer um grande mercado. Para ter uma ideia, vamos considerar os jogadores que foram negociados no mercado de verão, como se eles estivessem à venda pelo valor pago por eles há seis meses. Com os tais € 120 milhões em caixa, daria para contratar Daniel Alves (do Sevilla ao Barcelona por € 32 milhões), Thiago Silva (do Fluminense para o Milan por € 10 milhões), Zambrotta (do Barcelona ao Milan por € 8,5 milhões), Van der Vaart (do Hamburg ao Real Madrid por € 15 milhões), Ronaldinho (do Barcelona ao Milan por € 21 milhões) e Huntelaar (do Ajax ao Real Madrid por € 20 milhões).

No total, essas contratações custariam € 106,5 milhões. Ainda sobram € 13,5 milhões para contratar um goleiro, o que não seria nada difícil. O Lyon pagou € 9 milhões por Lloris, mas daria para buscar algum bom goleiro na Alemanha, por exemplo, e ficar com um “troco” para buscar algum reserva de luxo ou um técnico de nome. Isso sem considerar o dinheiro que os Citizens podem ter para outros jogadores além de Kaká.

Nessa projeção, o Manchester City teria um time com Neuer (ou Enke, ou Weidenfeller); Daniel Alves, Micah Richards, Thiago Silva e Zambrotta; Kompany, Ireland, Robinho, Van der Vaart e Ronaldinho; Huntelaar. No banco, o clube contaria com jogadores úteis como Elano, Wright-Phillips, Vassell, Bojinov e Hamann. Com esse elenco, a chance de fazer uma boa campanha e conquistar uma vaga na Liga dos Campeões seria razoável. Para a temporada seguinte, mais alguns milhões reforçam ainda mais essa base e o City se torna candidato a títulos.

Claro que isso é um exercício de imaginação. Por ser um clube médio, o Manchester City não tem o poder de atração de outras equipes, o que ficou provado na disputa com o Milan por Ronaldinho. No entanto, com uma campanha de contratações intensiva, a diretoria mostraria ao mercado que está montando uma equipe forte, o que ajudaria a convencer os craques. Também é verdade que, em agosto de 2008, a crise mundial ainda não havia explodido. Hoje, com dinheiro mais escasso e mercados contraídos, os Blues teriam mais facilidade para negociar.

Nada disso ocorrerá. Colocando a vaidade acima da razão, os Al Nahyan foram pela saída mais fácil e ofereceram todo o dinheiro para levar apenas um jogador (ainda que seja um craque como Kaká). Além de não resolver o problema técnico – a falta de um time mais consistente –, a atitude passou um péssimo recado ao mercado. Sabendo que o City tem € 120 milhões para gastar em um atleta, os demais clubes pedirão muito para ceder qualquer jogador aos mancunianos. Mais ou menos como aconteceu com o Chelsea nos primeiros três anos de Abramovich e com o Palmeiras no início do trabalhou com a Parmalat.

O Manchester City pode até comprar Kaká. Mas, com essa atitude, não está comprando sua grandeza. Ela poderia até surgir um dia, mas apenas com um uso mais inteligente de recursos e pensamento em longo prazo.

Chelsea in extremis

É muito fácil ver um jogo e querer desenvolver grandes teses a respeito disso. Por exemplo, dizer que o Chelsea, ao vencer o fragilíssimo Stoke City no último segundo, encarnou o espírito guerreiro de Felipão e, agora, vai jogar de um modo mais competitivo e copeiro. É precipitado. No entanto, dá para se tirar conclusões a respeito do drama deste sábado em Stamford Bridge.

Uma das coisas que mais ficavam marcadas no Chelsea era a falta de foco do time como um todo. Com exceção de alguns jogadores, a equipe parecia alheia à partida, sem tentar encontrar forças para reverter qualquer cenário desfavorável. Se o espaço aparecesse e a vitória se tornasse fácil, ótimo. Se não, tudo virava um sofrimento.

Um raro momento em que os Blues se entregaram em campo foi no empate em casa com o Manchester United. Naquele momento, o clube estava perdendo do time com o qual travou intenso duelo na temporada passada e via cair sua longuíssima invencibilidade em casa. Até que Kalou empatou no final da partida.

Esse tipo de garra foi demonstrado novamente no último sábado. Ficou evidente que os jogadores que estavam em campo sabiam que um tropeço poderia ser fatal. Não apenas para o título, mas para o futuro próximo de um clube que passa por problemas financeiros inesperados e pode promover um desmanche. Em um momento de limitação técnica e econômica, o time não pode perder seu “momentum” (como dizem os ingleses para o que chamamos de “embalo”) para seguir na corrida com Liverpool e Manchester United.

Aí, é realmente factível dizer que os jogadores que se esfalfaram para virar o jogo contra o Stoke estão “fechados” com Felipão. Não dá para desprezar o fato de que, assim que Lampard fez o segundo gol londrino, todos correram em direção ao técnico para abraçá-lo. Eles sabiam que a cobrança sobre o brasileiro ficaria grande com um empate (ou, pior, com uma derrota).

O Chelsea realmente está com um clima diferente depois dessa virada. Talvez essa renovada no ânimo não seja o suficiente para tornar o time vencedor. Talvez nem seja sólida o suficiente para se formar uma “Scolari Family”. Mas a equipe, ao menos, mostrou que tem alma. E o técnico brasileiro faz parte disso. 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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