Inglaterra

Na leva de demissões da Premier League, cada caso é um caso

Após 11 rodadas, cinco treinadores perderam o emprego no Campeonato Inglês, o maior número de trocas a esta altura em 17 anos

Ao fim da 11ª rodada da Premier League, cinco treinadores perderam o seu emprego. Como os ingleses (quase que por definição) não são brasileiros, o número assusta. Supera as trocas de técnicos de toda a temporada passada e é a primeira vez em 17 anos que há tantas movimentações no banco de reservas a esta altura do Campeonato Inglês. Há algum motivo em comum que tenha levado a essa leva de demissões?

A BBC defendeu que sim. No último fim de semana, caíram dois, Daniel Farke, do Norwich, e Dean Smith, do Aston Villa, às vésperas da pausa para jogos de seleções, período em que os clubes têm um pouco de respiro para colocar a casa em ordem. Além disso, a emissora diz que a pressão econômica gerada pela pandemia tem levado os gestores a buscarem mais soluções de curto prazo, desesperados para não perderem muito dinheiro – como, por exemplo, sendo rebaixados à segunda divisão.

Destacamos ano passado que entre a temporada 2019/20 (interrompida pela pandemia) e a 2020/21 (que começou semanas depois) não houve nenhuma troca de técnico no Campeonato Inglês. Com as verbas de bilheteria ainda comprometidas pelas restrições, e sem muito tempo entre os campeonatos, os clubes preferiram apostar na continuidade a revolucionar projetos. Houve apenas quatro demissões no decorrer daquela Premier League: Slaven Bilic, em dezembro; Chris Wilder, com o Sheffield United praticamente rebaixado; Frank Lampard, no Chelsea; e José Mourinho, no Tottenham.

A situação, agora, é outra. Os torcedores estão de volta aos estádios e podem finalmente extravasar toda a raiva acumulada ao longo de mais de um ano. A pressão das arquibancadas ainda costuma pesar mais do que a das redes sociais. Se alguns desses treinadores recentemente demitidos não foram mandados embora antes por questões meramente circunstanciais, o desgaste apenas se acumulou. Parece se aplicar a Dean Smith e Steve Bruce, por exemplo.

Mas além das linhas gerais, há também pontos específicos, e por isso vamos analisar caso a caso todas as cinco demissões da Premier League até aqui.

Watford: Xisco Muñoz por Claudio Ranieri

Xisco Muñoz, do Watford (Foto: John Walton/Imago/One Football)

Começando pela mais fácil. Ao Watford, trocar de técnico é um estilo de vida, uma ideologia, uma compulsão. Eles simplesmente não conseguem evitar. O último que conseguiu chegar perto dos 100 jogos à frente do clube foi Makly Mackay (99) entre 2009 e 2011. Teve a honra de fazer duas temporadas completas. Ninguém mais conseguiu. E os resultados às vezes incentivam. Em dezembro do ano passado, Vladimir Ivic foi trocado por Xisco Muñoz, e o Watford arrancou com 18 vitórias, três empates e cinco derrotas para terminar a Championship em segundo lugar, com acesso direto. Muñoz era um técnico pouco conhecido, com experiência no futebol da Georgia. Os jornais destacavam o seu belo sorriso, talvez na falta de aspectos positivos marcantes em uma carreira ainda muito curta. Começou a Premier League com pouco crédito na praça. Fez sete rodadas, perdeu quatro, fora. Próximo. Claudio Ranieri, campeão inglês, hiper-experiente, foi trazido pela família Pozzo para tentar evitar o rebaixamento. E se parecer que não vai conseguir, não duvide que será descartado sem hesitação também.

Newcastle: Steve Bruce por Eddie Howe

Steve Bruce lamenta (Stu Forster/Getty Images/OneFootball)

Juntaram a fome com a vontade de comer. A torcida do Newcastle nunca engoliu a saída de Rafa Benítez por desentendimentos com Mike Ashley. Mais uma rusga na relação entre arquibancadas e ex-dono. O espanhol não fez nada de muito espetacular. Não conseguiu evitar a queda à segunda divisão, trouxe o time de volta na primeira tentativa e o colocou no meio da tabela dois anos seguidos. Mas era um nome forte, campeão europeu, com passagens por Liverpool, Real Madrid, Chelsea e Internazionale. Inspirava esperança. Steve Bruce, por outro lado, representava a mediocridade da qual sempre acusaram Ashley. Não é um técnico ruim, tem um currículo respeitável de acessos e manutenções na primeira divisão, mas nunca gerou fogos de artifício. Com ele, o meio da tabela era o teto. Com Benítez, era uma sala de espera por mais investimentos. Sempre foi dito que Bruce não duraria muito tempo uma vez que o St. James Park voltasse a ficar lotado de frustrações. Dito e feito. A aquisição do clube pelo consórcio liderado pela Arábia Saudita acelerou o processo. Em nenhum cenário, Bruce lideraria o projeto megalomaníaco que o Newcastle tem no seu horizonte. E por que não começar a nova propriedade com uma demissão popular? Não ter conseguido vencer um jogo de Premier League nas primeiras oito rodadas desta temporada também o deixou sem muitos argumentos.

Tottenham: Nuno Espírito Santo por Antonio Conte

Nuno Espírito Santo, do Tottenham (Foto: Divulgação)

Quando um novo projeto desaba em quatro meses, raramente a culpa é do treinador. O Tottenham que não sabia o que queria. Após José Mourinho, o presidente Daniel Levy colocou até em carta aos acionistas que buscaria um treinador que recuperasse o “DNA ofensivo” dos Spurs. Tudo bem que essa conversa é sempre meio balela, mas ele viu algum jogo do Wolverhampton de Nuno Espírito Santo? O trabalho dele foi excelente. Derrubou gigantes. Disputou a Liga Europa. Duas vezes sétimo colocado. Ofensivo, porém, nunca foi. Houve uma dissonância entre expectativa e realidade desde o primeiro dia. Para piorar, ele ainda teve que lidar com a situação de Harry Kane, que tentou forçar uma transferência ao Manchester City, não conseguiu e, emburrado, foi obrigado a ficar. Nuno teve a melhor versão do capitão da Inglaterra em poucos dos 17 jogos em que esteve à frente do Tottenham. Após um bom começo, passou a ser derrotado com facilidade na Premier League, e Levy decidiu corrigir o que estava cada vez mais parecendo um erro – um erro dele, aliás. Não pelas qualidades de Nuno, que ainda pode ter uma grande carreira como técnico. E se, na semana em que se oferecia ao Manchester United, Antonio Conte também tenha dado sinais de que aceitaria o Tottenham, aí não dava mesmo para recusar.

Norwich: Daniel Farke por ninguém ainda

Daniel Farke, do Norwich (Getty Images / OneFootball)

Fazer a mesma coisa esperando resultados diferentes não costuma ser recomendável, certo? Daniel Farke fez um grande trabalho à frente do Norwich. Conseguiu dois acessos em três anos jogando um futebol atraente e revelando jogadores que renderam milhões de libras aos cofres. Sempre assumiu a responsabilidade e se portou como um líder. Ao subir pela segunda vez, a promessa é que a experiência na Premier League não seria igual à primeira – último lugar com 21 pontos. Ele recebeu poder de investimento que não havia tido naquela ocasião. Também havia aproveitado a Championship para tentar fortalecer o sistema defensivo. Não haveria mais tantos erros individuais. A promessa é que o Norwich não seria tão facilmente batido dessa vez. Mas… continua sendo. Levou 26 gols em 11 rodadas. Perdeu oito delas. Segue frágil, especialmente atrás. Farke fez um trabalho longo, de quatro temporadas, e sob muitos aspectos de sucesso. A diretoria simplesmente decidiu que gostaria de tentar algo diferente para buscar o milagre de permanecer na Premier League. Que tenha demitido o alemão depois da primeira vitória, bem, é meramente uma curiosidade.

Aston Villa: Dean Smith por ninguém ainda

Dean Smith, ex-técnico do Aston Villa (LINDSEY PARNABY/POOL/AFP via Getty Images/OneFootball)

É um caso parecido com o do Newcastle, mas com uma diferença fundamental: a torcida meio que gosta de Dean Smith. Ele torce para o clube. Seu pai foi fiscal de estádio do Aston Villa. Viajou a Roterdã para ver a final da Copa dos Campeões de 1982 e morreu de Covid-19 durante a pandemia. Mas ele também vinha sendo cozinhado em fogo baixo. Smith conseguiu o acesso em sua primeira tentativa, encerrando um calvário de três anos do Villa na segunda divisão. O retorno antes do esperado acelerou as ambições dos donos. O norte-americano Wes Edens e o egípcio Nassef Sawiris tornaram-se acionistas majoritários, antes do retorno, prometendo altos investimentos. E os têm entregado. Desde o acesso, o Villa é o quarto clube da Premier League que mais investiu em reforços, considerando o valor total de vendas de jogadores menos o de compras. Foram € 227 milhões no período, atrás apenas de Manchester United, Arsenal e Manchester City. E sob o comando de Smith, o time poucas vezes correspondeu. Escapou do rebaixamento na primeira temporada por um ponto e um erro na tecnologia da linha do gol que não havia acontecido em 9.000 jogos. A segunda foi bem melhor, teve goleada por 7 a 2 sobre o Liverpool e momentos em que vaga em competições europeias parecia realmente possível. Mas o rendimento caiu a partir de fevereiro e, o Villa teve que se contentar com o 11º lugar. E depois perdeu Jack Grealish. O dinheiro foi bem reinvestido em nomes como Danny Ings, Emi Buendía e Leon Bailey, mas uma nova maneira de atuar precisa ser montada. E se esse é o caso, por que não um novo treinador? O Villa ambiciona se estabelecer no segundo patamar da Premier League e, em três anos, Smith queimou o seu crédito ao não conseguir colocá-lo nem perto de lá.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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