Inglaterra

Na hora certa

 O clichê é velho, mas, como em muitos casos, inevitável: a Inglaterra finalmente perdeu nas eliminatórias da Copa-2010, mas perdeu “na hora certa”. O que é óbvio, claro e cristalino: de um lado, porque perdeu depois de já estar classificada. Por outro, porque, mesmo com a história, recente ou não tão recente, a gritar o alerta, a torcida começava a se empolgar com a equipe – como, de resto, aliás, acontece em quase toda competição disputada pela equipe.

A solução para todos os males, parecia, estava na decisão de Capello de proibir a “festa” na concentração da equipe, que, em 2006, foi apontada com um dos principais fatores para o fracasso do time. Algo como o nosso Weggis, a cidade suíça na qual o Brasil se preparou, e na qual patrocinadores e “arrozes de festa” em geral transformaram o que deveria ser uma concentração em uma balada constante. É evidente que as questões futebolísticas, em casos como estes, ficam relegados a um segundo plano, e, no caso da Inglaterra, há aí um grande perigo – no caso do Brasil julguem os senhores e nossos especialistas, que isso não é problema meu.

O problema é a diferença entre o futebol que jogam os ingleses e o que gostariam de jogar. Ou ainda, entre o que jogam individualmente, ou em seus clubes, e o que não conseguem produzir coletivamente. Com exceção do goleiro e do segundo atacante, a totalidade dos jogadores ingleses está entre os melhores de seus times, e representa muito no cenário europeu. Ferdinand formou no ano passado a melhor defesa da Europa, e tem a seu lado Terry, incontestável capitão e líder de seu time. Glen Johnson e Ashley Cole vêm de temporada excelente. E, no meio, mesmo sem John Cole, Capello parecia ter encontrado a fórmula para fazer jogar juntos Lampard e Gerrard, outra velha questão do English Team.

Pois bem: o que ninguém parecia querer perceber é que a Inglaterra teve, desde que Capello assumiu, apenas um compromisso oficial de dificuldade acima da média, a ótima vitória diante da Croácia, algoz da (não) classificação para a última Euro, na casa do adversário. No mais, nos amistosos o time foi irregular, e perdeu quase todos os jogos difíceis. Mais importante: mesmo em um grupo com Belarus, Cazaquistão e Andorra, a Inglaterra só deixou de sofrer gols em três partidas: as duas contra Andorra e o jogo em casa contra o Cazaquistão. Sinal de que Terry e Ferdinand, mais que todo mundo, estão jogando com o nome. E de que, no gol, a equipe vai sofrer 100 anos por ter tido Gordon Banks um dia entre suas traves.

Um dos resultados da derrota diante da Ucrânia, aliás, pode ser a ratificação de “Calamity” James como titular do gol inglês. O atual goleiro do Portsmouth tem sido, de fato, o jogador inglês da posição menos propenso a erros. Sua idade e seu histórico, entretanto, deveriam ter deixado Capello atento. O italiano, entretanto, deve ter tomado sua decisão definitiva depois que Green fez o pênalti que resultou na derrota. E Terry terá mais essa para carregar nas costas.

Sim, mais essa. Para começar, o capitão do Chelsea tem que carregar sua própria auto-imagem, o que não deve ser fácil para um cara que já “se achava”, e deve estar se achando ainda mais depois do leilão a que submeteu seu passe na pré-temporada. Depois, tem que cobrir o parceiro, uma espécie de Lúcio inglês, chegado a grandes jogadas temperadas por imensas – ainda que pouco numerosas – bobagens. Completa o pacote um lateral direito à brasileira, ou seja, no dizer do Guardian, um cara que, pelo jeito, joga na lateral porque é ali o melhor lugar de onde partir para o ataque. E que se danem os zagueiros que têm que cobri-lo.

A seleção inglesa atual tem dois problemas claros. Um é emocional: fazer jogadores como Terry e Gerrard entenderem que, embora se destaquem na melhor liga do mundo, no plano internacional não passam de coadjuvantes caros e mimados. Tudo indica que, ainda que “na porrada”, isso Fabio Capello já conseguiu resolver. O outro problema é técnico: acertar as posições de cada um de seus melhores jogadores em campo.

Tudo fazia crer que este era o problema que já tinha sido solucionado, mas a derrota da última sexta deixa uma enorme interrogação no ar: contra adversários que joguem melhor ou se empenhem mais, como foi o caso ucraniano, a Inglaterra está preparada para pôr à prova seu esquema? OU ainda há flagrante falta de harmonia entre os jogadores de meio, que sobra para a defesa e é em muitos casos disfarçada por vitórias obtidas na base do talento individual?

Só a Copa do Mundo vai responder a pergunta, mas, por hora, fica claro: perdeu na hora que tinha que perder. O que não quer dizer que vai ganhar na hora que tiver que ganhar.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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