Inglaterra

Moyes era o nome certo para ser o novo Ferguson, mas quem disse que o United precisava disso?

Alex Ferguson aproveitou a audiência cativa, no seu último jogo em casa, para fazer um lembrete a todos os envolvidos com o Manchester United. “Nos momentos ruins, vocês me apoiaram. O trabalho de vocês, agora, é apoiar o seu novo treinador”, disse, no gramado de Old Trafford, para torcedores que naquele momento prometeriam qualquer coisa para o homem que transformou o clube no mais vencedor da Inglaterra. O tempo passou, a força dessa promessa foi se esvaindo e, no fim, não sobrou mais ninguém para defender David Moyes.

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Até porque, seria necessário muito esforço. Moyes, assumindo o atual campeão, não poderia ter feito uma temporada pior. Ficar fora da próxima Liga dos Campeões é o maior fracasso, em um clube que já há alguns anos esqueceu que há, sim, a possibilidade de não disputá-la. Isso vai custar muito dinheiro para a família Glazer, mas é apenas a cereja do bolo ao contrário. A lista de humilhações é gigante: perdeu todos os jogos do Inglês para os dois clubes de Liverpool pela primeira vez na história e garantiu a pior campanha do United em toda Premier League. O Newcastle não vencia em Old Trafford desde 1972, o West Brom, desde 1978. O Swansea, desde que o mundo é mundo.

Em dez meses, o escocês não tem um bom argumento para justificar os erros que cometeu. Trocou a equipe técnica de Ferguson pela sua antes mesmo de subir no trem para Manchester. Substituiu profissionais acostumados a um clube gigante, com o respeito dos jogadores, por pessoas de sua confiança. Provavelmente, pessoas competentes, mas a mudança foi muito brusca. As sessões de treinamentos ficaram longas e chatas, focadas mais no físico que na técnica. Deu resultado: o United nunca deixou de correr, mas meio que esqueceu o que fazer com a bola.

Foi inocente no mercado de transferências. Perseguiu um Cesc Fàbregas que nunca mostrou vontade de sair do Barcelona, perdeu Thiago para o Bayern de Munique, não conseguiu contratar Fábio Coentrão e Leighton Baines. Aliás, com a influência que Patrice Evra tinha com o elenco, talvez não tenha sido inteligente deixar tão claro que queria outro lateral esquerdo. Acabou ficando com Marouane Fellaini, por um preço acima da sua cláusula de rescisão, e fez a contratação mais cara da história do clube para trazer Juan Mata do Chelsea. Você daria mais uma centena de milhões de libras para ele gastar?

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Não seria de uma hora para outra que alguém entraria no vestiário de Ferguson e exerceria o mesmo poder. O vazamento de informações sobre desentendimentos com jogadores para a imprensa, algo raríssimo no reinado anterior, ilustra bem isso. Mas bem que Moyes poderia ter dado uma mãozinha nesse sentido. Em contraste com o discurso inexoravelmente otimista do seu antecessor, não pega bem, tanto dentro quanto fora do elenco, dizer que o Liverpool é favorito para um clássico em Old Trafford, por exemplo.

Então, o que diabos Ferguson viu em Moyes para apontá-lo como sucessor? Em sua autobiografia, explica a decisão. Fala de um homem correto, trabalhador, etc. Quase tudo protocolar. A maior parte do argumento baseia-se nas qualidades de ser escocês. Indício de que, talvez, Ferguson viu a si próprio. Alguém com as qualidades necessárias para ficar mais 27 anos à frente do Manchester United. Afinal, o único grande mérito que Moyes havia para colocar no currículo, até aquele momento, era um Everton sólido, sustentável, em constante e lenta evolução.

Quem disse que o United precisava disso novamente? O trabalho de estruturar o clube, construir categorias de base, internacionalizar a marca, ganhar mais torcedores e criar uma mentalidade vencedora, ou seja, tudo que precisava ser feito em 1986, Ferguson já fez. O próximo treinador teria que ser alguém que simplesmente tocasse o barco por três ou quatro anos, conquistasse alguns títulos e seguisse em frente.

Ninguém defende uma demissão em dez meses, 15 jogos ou um quarto de uma temporada. É necessário que o trabalho seja realizado em longo prazo, com tempo e tranquilidade para o treinador colocar em prática as suas ideias. Mas passagens de quase três décadas, ou de 18 anos no caso de Arsène Wenger, no Arsenal, são exceções hoje em dia. O futebol, com novas exigências, globalizado e muito mais dinâmico, dificilmente vai ver outros casos parecidos daqui em diante.

Provavelmente, não era a estratégia de ninguém, mas Moyes serviu de Boi de Piranha. Acabou sendo sacrificado. Qualquer um que assumisse o cargo seria comparado à imagem de um treinador ideal e gigante, como Ferguson. Ninguém, talvez apenas José Mourinho ou Pep Guardiola, conseguiria lidar direito com isso. Agora, o próximo técnico tem mais espaço e poder de barganha para trabalhar, mas precisa ser alguém com força. Seja dentro do elenco, como o interino Ryan Giggs, ou um grande nome, como Van Gaal, Mourinho ou Capello (não necessariamente esses, mas desse estilo).

O que o Manchester United não pode fazer é tentar, mais uma vez, buscar o novo Alex Ferguson. Pelo menos pelas próximas decádas, não vai conseguir. Não precisa.

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Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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