Moyes gostaria de ter tido mais tempo no Manchester United: “Queria continuar o modelo de Sir Alex”
O atual técnico do West Ham afirma que o problema dos Red Devils não se resolve com a contratação de um grande treinador porque isso já foi tentado algumas vezes
David Moyes foi escolhido a dedo para ser sucessor de Alex Ferguson no Manchester United. A decisão que hoje em dia pode parecer absurda não era tanto naquele momento. Ele tinha um perfil parecido – escocês, sóbrio, pés no chão – e um trabalho fenomenal à frente do Everton. Não deu certo. Nem um pouco. Cumpriu apenas dez meses do contrato de seis anos que havia assinado e acredita que precisava de mais tempo para aprender as exigências muito maiores de um clube gigante.
Em ótima entrevista a Alan Shearer para o The Athletic, Moyes falou muito bem sobre a sua curta experiência à frente do Manchester United e também opinou sobre por que o clube simplesmente não consegue engrenar um novo treinador desde que Ferguson se aposentou em 2013. Diz que tentou simplesmente seguir o modelo que havia herdado do seu antecessor. Houve um problema crucial nesse plano: ele não era Alex Ferguson.
“Eu era experiente na época. Tinha 11 anos na Premier League em um bom nível e havia construído o Everton. Mas, no Manchester United, acho que eu talvez precisasse de uma chance de crescer dentro do cargo. Você fala sobre jogadores chegando à Premier League e precisando de um pouco de tempo. Não era que eu precisava de tempo na Premier League, mas de tempo no clube para me encontrar e ver como eu estava indo. E a verdade é que eu simplesmente queria continuar o que Sir Alex havia feito. Eu não podia ser Sir Alex, mas queria continuar o modelo que ele tinha, de desenvolver jogadores jovens, colocar jogadores jovens no time, tentar jogar de uma maneira que se adequava a eles. Essa era a ideia”, disse.
A experiência não lhe enche de arrependimentos. Ainda se orgulha de ter sido escolhido para um cargo “daquela magnitude”, mesmo que tenha ficado apenas dez meses. “Eu poderia ter ido melhor, mas, no fim das contas, posso apenas culpar a mim mesmo. Eu precisava ter vencido mais jogos”, admite, antes de dizer que o problema do United não se resolve com a contratação de um grande treinador porque o clube já tentou fazer isso. Algumas vezes.
“O Manchester United teve José Mourinho e Louis van Gaal, que são dois dos melhores técnicos do mundo – os dois excelentes, os dois vencedores. Um é um treinador incrível, o outro um grande vencedor. O Manchester United teve muitos treinadores de primeira linha. Não estou me colocando nessa categoria, mas eles tiveram grandes técnicos. A dificuldade é realmente encontrar o mesmo ritmo de Sir Alex, que quando você olha para trás, foi incrível para o clube, realmente foi”, afirmou.
Moyes citou exemplos como Brian Clough no Nottingham Forest, Bobby Robson no Ipswich e Don Revie no Leeds para mostrar como é difícil assumir o comando de uma dinastia das mãos de quem a construiu. “Howard Wilkinson (campeão inglês com o Leeds em 1992) me disse: ‘se você tivesse falado comigo antes, David, eu teria dito que qualquer um que assume esses cargos costuma ter muitas dificuldades’. Não é que eu não sabia disso, mas, pela maneira como Sir Alex me abordou para o emprego, ele tornou tudo muito pessoal, ele fez com que eu me sentisse que, bem, sim, há um modelo que eles acham que eu posso continuar, que eu seria a pessoa certa”, explicou.
Agora, Moyes está em um cargo mais moldado às suas habilidades. Como fez com o Everton, está transformando o West Ham, passo a passo, de um clube completamente sem coesão a um dos mais sólidos do Campeonato Inglês, sexto colocado na última temporada, novamente na briga por vaga na Champions League e nas quartas de final da Liga Europa após eliminar o todo poderoso (pelo menos na Liga Europa) Sevilla.
E precisou de duas tentativas. Após sair do Manchester United, Moyes teve uma temporada pela Real Sociedad e um desastre pelo Sunderland antes de assumir o West Ham pela primeira vez. Fez um trabalho razoável, mas foi trocado por Manuel Pellegrini, que vinha com o status de ter sido campeão pelo Manchester City. “Eu achava que tinha feito um bom trabalho. Fizemos o bastante e eu havia começado a fazer os planos para a nova temporada, então fiquei surpreso, tenho que dizer, por não ter permanecido. Mas eu não tive problema com David Sullivan (um dos donos do clube) quando ele pegou o telefone e me chamou para voltar”, disse.
“Ele teve grandeza o suficiente para fazer isso. Eu não tive nenhum problema. Ele nunca disse que cometeu um erro”, disse, rindo, “mas ele teve grandeza o suficiente para me chamar de volta e tenho que dizer que tem sido uma boa chance para mim e estou grato pela oportunidade. O West Ham realmente é ótimo para mim porque eu acho que estamos em uma posição em que o clube ainda está encontrando seu caminho. Eu acho que consigo construir clubes”.
“Acho que é algo em que eu sou realmente bom se tiver a chance. Eu tento contratar. Eu passo muito tempo com a equipe de observação porque se eu contratar um atacante errado ou um zagueiro errado, isso não ajuda e você perde seu emprego. Você nunca acerta todas, mas mesmo no começo do trabalho no Everton, nós trouxemos muitos jogadores de fora da Premier League. Trouxemos rapazes com fome e boas personalidades e lhes demos uma chance. Estou tentando fazer a mesma coisa no West Ham”, contou.
Dois reforços em especial são citados por Moyes: os tchecos Vladimir Coufal e Tomas Soucek, responsáveis, segundo ele, por ditar a ética de trabalho dos vestiários. “Temos uma mentalidade muito melhor agora. E tenho que dizer que ela é motivada pelos dois rapazes tchecos, que têm sido sensacionais. Sendo sincero, temos que fechar os portões para que eles não trabalhem de noite”, brincou.
O West Ham de Moyes é o sétimo colocado da Premier League, a seis pontos do Arsenal, quarto colocado, mas com dois jogos a mais. O primeiro jogo após a Data Fifa será em casa contra o Everton, ex-clube do seu treinador.



