Futebol inglês

Por que o mercado do Manchester City preocupa em meio a muitas vendas e um vazio estrutural

City perdeu nomes cruciais, líderes de elenco e conta com a subestimada ausência de Guardiola, mas com poucos reforços a altura

O Manchester City chega à reta final da janela de transferências com uma situação curiosa: o clube movimentou muito dinheiro, fez vendas importantes e ainda assim parece ter um elenco mais frágil do que aquele que terminou a última temporada.

A saída de Rodri para o Barcelona tornou explícito o grande problema, mas o buraco é maior. Bernardo Silva deixou o clube de graça, John Stones também saiu sem gerar receita, Nathan Aké foi vendido ao Fenerbahçe e Manuel Akanji também deixou o elenco em definitivo. Tijjani Reijnders, contratado por uma fortuna apenas um ano atrás, já foi negociado com o Al Qadsiah.

Do outro lado, o principal investimento foi Elliot Anderson, contratado do Nottingham Forest por 116 milhões de libras. O City também trouxe o goleiro Gerónimo Rulli e tenta avançar por Ayyoub Bouaddi, do Lille, além de avaliar outras alternativas para o meio-campo. O problema é que não parece haver uma reposição imediata para o tamanho das perdas.

Guia rápido da Premier League 2026/27: Favoritos, quem pode surpreender e decepcionar

Guia rápido da Premier League 2026/27: Favoritos, quem pode surpreender e decepcionar

Leia →

Rodri, Bernardo e líderes que saíram do Manchester City

A principal dificuldade do mercado do City é que algumas perdas não podem ser avaliadas apenas pelo número de jogadores que chegaram para substituí-las. Rodri era quem organizava praticamente tudo — e nos momentos em que viveu sem ele, teve muita dificuldade.

O espanhol disputou 298 partidas pelo City e conquistou 14 grandes títulos antes de se transferir para o Barcelona por cerca de 60 milhões de euros. Foi o jogador que dava controle à equipe quando ela precisava desacelerar, proteção à defesa quando os laterais avançavam e qualidade para superar a primeira linha de pressão. 

Rodri, o novo reforço do Barcelona
Rodri, o novo reforço do Barcelona (Foto: Divulgação)

A perda de Bernardo é diferente, mas igualmente significativa.

O português deixou o clube como agente livre e assinou com o Real Madrid. Durante nove anos, foi um dos jogadores mais importantes da era Guardiola justamente porque conseguia desempenhar funções diferentes: aberto pela direita, como meia, por dentro, mais recuado ou até como lateral improvisado.

Se o buraco estivesse restrito ao meio-campo, seria mais fácil compreender a estratégia, mas Maresca também perdeu peças importantes na defesa. John Stones deixou o clube após dez anos, ao fim do contrato. Foram quase 300 partidas e 19 troféus pelo City, mas as lesões reduziram sua participação na última temporada. 

Nathan Aké foi vendido ao Fenerbahçe depois de seis temporadas no clube. Manuel Akanji também deixou o elenco em definitivo depois de um empréstimo à Inter de Milão na última temporada. Isso altera a profundidade de uma posição que já vinha convivendo com problemas físicos e de adaptação.

A consequência é que o City não está simplesmente tentando substituir Rodri. Está reconstruindo uma quantidade considerável de funções dentro do elenco. E isso ajuda a explicar por que a janela parece tão estranha.

Elliot Anderson não resolve tudo, mas há outras possibilidades

Elliot Anderson foi o principal nome da janela do clube — e, claro, não é uma contratação ruim. O City pagou 116 milhões ao Nottingham Forest por um meio-campista de 23 anos que foi titular durante toda a temporada anterior e teve papel importante na campanha da Inglaterra na Copa do Mundo de 2026. 

Anderson oferece algo que o City precisava: energia, condução, capacidade de ganhar duelos e intensidade para jogar em um campeonato cada vez mais físico. Ele também pode ser utilizado em diferentes alturas do meio-campo. Mas existe uma diferença importante entre ser capaz de jogar na posição de Rodri e ser Rodri.

O espanhol era um controlador de ritmo. Anderson é muito mais explosivo e vertical. Ele pode conduzir a bola por muitos metros, pressionar, atacar espaços e participar de duelos físicos com uma intensidade que Rodri não oferece da mesma maneira, e isso pode levar Maresca a construir um City diferente. O problema é que, para isso, o treinador precisa de mais peças ao redor dele.

Elliot Anderson em ação pela seleção inglesa
Elliot Anderson em ação pela seleção inglesa (Foto: Thor Wegner/DeFodi Images/IMAGO)

O próprio clube sabe disso. Maresca afirmou depois da derrota para o Arsenal que o City ainda faria movimentações antes do fechamento da janela. O nome mais avançado é Ayyoub Bouaddi.

O City vem negociando com o Lille pelo meio-campista de 18 anos, em uma operação que pode chegar a 85 milhões de libras. Segundo o “The Guardian”, o jogador já acertou termos pessoais e a intenção de Maresca é integrá-lo imediatamente ao elenco. É um investimento enorme em um jogador extremamente jovem.

Se o inglês representa uma tentativa de solucionar o presente, Bouaddi também representa uma aposta no futuro. O marroquino tem capacidade para jogar mais recuado, circular a bola e participar da construção, mas seria injusto esperar que, aos 18 anos, ele simplesmente assuma o papel de Rodri.

O City pode, inclusive, utilizar os dois juntos. Anderson poderia oferecer mais mobilidade, condução e agressividade, enquanto Bouaddi assumiria uma posição mais baixa na construção. Mas isso exigiria tempo para que os mecanismos funcionassem, e o City não tem muito tempo. A situação é tão urgente que o clube está avaliando diversas possibilidades.

Adam Wharton, do Crystal Palace, é um dos nomes considerados. O Palace, porém, rejeitou uma abordagem do City e o técnico Pierre Sage afirmou que o volante é importante demais para ser vendido neste momento. Também aparecem entre as possibilidades Enzo Fernández, Alexis Mac Allister, Alex Scott e Manu Koné.

Ou seja: o próprio mercado mostra que Anderson não foi pensado como solução única. Porque Anderson e Bouaddi podem formar um meio-campo de elite daqui alguns anos, mas o City precisa competir agora.

Reijnders, Savinho e as vendas de jogadores que não funcionaram

Talvez o caso mais curioso no lado das perdas do clube seja o de Tijjani Reijnders. O meia chegou em 2025 como um dos grandes nomes da reconstrução do City. Vinha de uma temporada excepcional no Milan, tinha condução, chegada à área, capacidade de acelerar o jogo e parecia se encaixar perfeitamente na necessidade de renovar o meio-campo. Um ano depois, foi vendido ao Al Qadsiah.

A transferência foi oficializada pouco mais de um ano depois de sua chegada, mas Reijnders poderia ser uma peça interessante para Maresca. O italiano chegou a utilizá-lo mais recuado durante a pré-temporada, justamente uma função que parece combinar melhor com suas características.

Savinho pelo Manchester City (Foto: Imago/Pro Sports Images)
Savinho pelo Manchester City (Foto: Imago/Pro Sports Images)

Mas o jogador já havia perdido confiança na temporada anterior. Depois de uma sequência de partidas como titular, acabou praticamente desaparecendo da equipe na reta final: ficou no banco em nove dos últimos 14 jogos do City na Premier League e foi titular apenas duas vezes nesse período.

A venda, portanto, não é necessariamente um erro isolado. Ela revela um problema maior: o City gastou muito para reconstruir o elenco e, pouco tempo depois, descobriu que alguns dos jogadores escolhidos não eram adequados ao projeto.

James Trafford é um caso diferente. O goleiro foi vendido ao Leeds por cerca de 40 milhões de libras, tornando-se o goleiro britânico mais caro da história. Ele havia disputado apenas 17 jogos pelo City na última temporada e perdeu a titularidade para Gianluigi Donnarumma. 

A saída faz sentido esportivamente e ainda produziu uma receita importante. Rulli chegou do Marseille por um valor baixo e será o reserva. Aqui, portanto, não existe grande problema. O problema é que Trafford é um dos poucos exemplos de uma saída que o City conseguiu transformar em negócio claramente positivo.

A limpeza do elenco ainda não terminou. Savinho, Omar Marmoush e Nico González estão entre os jogadores que podem deixar o clube. O Newcastle aparece interessado em Nico, enquanto Marmoush e Savinho também são associados ao Tottenham.

Marmoush, por exemplo, chegou com a expectativa de ser uma arma de velocidade e agressividade no ataque, mas não conseguiu se estabelecer como titular diante da presença de Erling Haaland. Savinho ainda é uma aposta de enorme potencial. Nico González, por sua vez, não conseguiu ganhar espaço consistente. Se os três saírem, Maresca precisará de mais contratações, e não apenas no meio-campo.

O problema que nenhuma contratação resolve: Guardiola

Existe ainda uma perda que não aparece em nenhuma lista de transferências. Pep Guardiola. Depois de dez anos, seis títulos da Premier League e uma Champions League, o espanhol deixou o clube. Enzo Maresca foi escolhido para substituí-lo, em uma tentativa clara de preservar parte da identidade construída no período anterior. O italiano trabalhou com Guardiola no City e conhece profundamente seus princípios — mas continuidade não significa repetição.

Maresca terá que encontrar sua própria maneira de fazer o time funcionar. E isso torna ainda mais delicada a escolha dos reforços. Não se trata apenas de descobrir quem substitui Rodri, mas de entender que tipo de Manchester City Maresca quer construir sem Rodri, Bernardo e principalmente sem Guardiola.

Guardiola abraça Savinho no Manchester City
Guardiola abraça Savinho no Manchester City (Foto: IMAGO/Action Plus)

A derrota por 3 a 0 para o Arsenal na Community Shield foi particularmente reveladora porque o City teve dificuldade para sair da pressão e construir com segurança sem seu principal organizador no meio-campo. A atuação foi tão preocupante que o Guardian classificou a estreia de Maresca como “startlingly bad” (surpreendentemente ruim), embora também tenha ressaltado que ainda era uma primeira amostra e que o elenco estava em transformação. 

As principais movimentações confirmadas e os alvos ainda em negociação mostram justamente a contradição da janela: o City está gastando, mas está gastando para reconstruir um elenco que perdeu jogadores ainda mais importantes.

A avaliação, portanto, não precisa ser definitiva mas depende de muitas condições. Se Anderson, Bouaddi e mais um meio-campista de alto nível chegarem, se Maresca conseguir integrar rapidamente as peças, se Haaland permanecer saudável e se jogadores como Cherki, Foden e Doku assumirem responsabilidades maiores, o cenário pode mudar rapidamente.

O City ainda tem talento suficiente para disputar a Premier League, mas a margem de erro diminuiu drasticamente. O Arsenal manteve Mikel Arteta, ganhou profundidade e chega à temporada como campeão e favorito. O City, por sua vez, perdeu o treinador que construiu sua era mais dominante, seu principal volante, seu capitão, dois defensores experientes e uma série de jogadores de rotação.

Agora, o Manchester City entra em 2026/27 tendo que substituir uma geração inteira de referências praticamente de uma vez. E esse é o verdadeiro problema de sua janela: não falta dinheiro ao City. Falta, neste momento, uma reposição à altura daquilo que ele perdeu.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo