Menos que a obrigação

A comemoração dos jogadores do Chelsea depois da conquista da FA Cup diante do Everton pode ter dado ao espectador menos atento a sensação de que a temporada azul não foi, enfim, um total fracasso. Trata-se, porém, de um engano. O fim da temporada com apenas um troféu “menor” marca não só o fracasso na última temporada, mas, compreensivamente, o fracasso de um projeto de clube.
Roman Abramovich comprou o Chelsea em 2003/04. O clube estava quebrado pelas aventuras de Ken Bates, e o russo pagou uma libra por ele. E começou a investir no primeiro minuto. Só na primeira temporada, foram mais de 160 milhões de libras, e mais que um time inteiro em contratações. Apesar disso, a quase totalidade dos analistas ingleses não apostou em título no primeiro ano – e ele não veio, mesmo, o que levou à demissão de Ranieri.
A mídia inglesa não apontava o Chelsea como favorito ao título não por duvidar de seu treinador, mas porque simplesmente entendeu que havia um processo em curso, e que ele não estaria maduro em 12 meses. Abramovich, entretanto, não viu da mesma maneira. E agiu como qualquer criança mimada: quem foi que ganhou o que eu queria? “Foi aquele português, chefe.” Pode contratar.
Deu certo, é verdade, mas as decisões seguintes mostraram que foi uma questão de sorte. No ano seguinte, mais 140 milhões de libras, e a Premier League. No ano seguinte, 80 milhões de libras e mais um título. E parou por aí. Ainda que no anos seguinte o clube tenha conquistado a FA Cup, a Champions League não veio. E Abramovich cansou do brinquedo. Mas resolveu imprimir a sua “marca” ao time.
Por incrível que pareça, Avram Grant, que não é, foi ou será técnico de primeira linha, chegou mais perto do prêmio final do que todos os outros. E, amigo do patrão, foi demitido do mesmo jeito. Assim como Felipão. Os dois, porém, viveram de maneira oposta uma característica do Chelsea de Abramovich: quem manda no time são as estrelas. Grant entendeu isto, entregou o comando a elas, e quase entrou para a história. Felipão entendeu isto, e, claro, percebeu que, no médio prazo, era insustentável. Quem caiu foi ele.
No caso de Felipão, não há dúvida de que quem o derrubou foram Drogba, Ballack e Cech. No de Mourinho, até pouco tempo parecia ter sido o próprio Abramovich – mas informações recentes dão conta de que o português teria tido problemas com Terry.
Hiddink pegou a massa que com Felipão não rendeu, e entregou uma FA Cup. Não poderia ter entregado mais porque tinha nas mãos um grupo desequilibrado, envelhecido e, principalmente, mal acostumado.
Agora, Ballack diz que será preciso dar tempo a Ancelotti. Isto, claro, se o italiano não quiser mexer nos privilégios das estrelas. Acostumado a um dono como Silvio Berlusconi, é pouco provável que Ancelotti ache ruim ouvir palpites a seu trabalho. No Milan, porém, todos sabem quem é o dono, e é ele que manda. Maldini pode ser o que for, Gattuso, Kaká, seja quem for: ninguém manda no técnico a não ser Berlusconi. O que não acontecerá no Chelsea.
Abramovich espera que Ancelotti entregue o que entregou ao Milan: a Champions League. Para isso, entretanto, primeiro terá que reabrir os cofres. E, principalmente, terá que mudar o regime político da equipe. É natural que estrelas tenham força em uma equipe, afinal, é delas que vive o futebol. Nunca é bom esquecer, porém, principalmente em um time com várias estrelas, que, quando as vaidades estão liberadas, vão acabar se chocando.
Desde que chegou ao Chelsea, Roman Abramovich gastou quase 550 milhões de libras só em jogadores. E só ganhou duas ligas e duas FA Cups. Como cartola brasileiro, trocou de técnico sempre que a coisa “apertou”. Como cartola brasileiro, deve perceber em algum momento que não é assim que funciona. Quando perceber, passará o brinquedinho para frente? Para quem? Ou simplesmente o abandonará à própria sorte.
Como em toda história em que as coisas dão certo “por milagre”, o final ainda está por vir. E Ancelotti provavelmente fará pouca diferença neste desenrolar.
E na Escócia
Gordon Strachan caiu. O escocês de 52 anos não é mais o técnico do Grêmio, ou melhor, do Celtic. Que agiu exatamente como o colega gaúcho: esperou a primeira desculpa para se livrar de um cara que não queria desde que contratou.
Strachan, quando jogador, fez parte do Aberdeen de Alex Ferguson, que demoliu a “Old Firm” durante a maior parte do tempo em que ele estava lá. Como figura emblemática da equipe, mais de uma vez houve relatos de torcedores do Celtic tentando agredi-lo. Além disso, Strachan substituiu Martin O’Neill, que, além de ter ganho troféus, como católico irlandês caiu nas graças da torcida. Não tinha como dar certo.
Mas deu. O Celtic de Strachan ganhou a liga em sua primeira temporada. Não deu para mandar o cara embora. Aí ele ganhou a segunda liga, e, no mesmo ano, a Copa da Esócia. No ano seguinte, liga. Além da classificação em duas temporadas consecutivas às oitavas da LC. O’Neill não conseguiu tanto.
Ainda assim, Strachan não tinha seu nome cantado pela torcida. Era tolerado mais do que querido. E a perda da Premier League deste ano depois de ter liderado por 12 pontos, era a desculpa necessária.
Strachan estava há três anos no comando. A não ser que ganhasse a LC, o que não aconteceria, jamais seria aceito pelos torcedores. Começou errado, mas a direção do Celtic pelo menos deu tempo para que desse certo. Esportivamente, deu, assim como administrativamente – Strachan montou seus times com significativamente menos dinheiro que o antecessor. Mas o futebol tem mais coisas em si do que resultados, e quem tem que ser agradado, no longo prazo, é a torcida. Que ela torça para ter feito a escola certa.



