Inglaterra

Mancini faz por merecer ser demitido do Manchester City

A especulação apareceu em diversos veículos neste domingo. Times, Independent, Guardian, ESPN UK: todos eles falaram sobre a iminente saída de Roberto Mancini do Manchester City. O trabalho do treinador já estava sob questionamento por causa das eliminações seguidas na Liga dos Campeões e pela inconsistência do time, mas a derrota para o Wigan tirou mais alguns de seus defensores. E o nome para substituí-lo está sendo especulado há dias: é Manuel Pellegrini, técnico do Málaga. Mas chegaremos lá.

Ganhar ou perder nem sempre é o melhor parâmetro para se avaliar o trabalho de um técnico. No caso do Manchester City, vencer é um fator importante. Mas, além disso, é importante ver como o time se arma em campo. E esse é um fator ainda mais decisivo, seja qual for o time que se avalie. Afinal, uma das responsabilidades do técnico é criar um sistema que aproveite o melhor do elenco que possui. E Mancini decepciona em todos esses itens.

A torcida do City idolatra o italiano. Não por acaso, afinal foi com ele que o time chegou às conquistas da Copa da Inglaterra, em 2010/11, e ao título da Premier League em 2011/12. A torcida, acostumada por décadas a ficar longe dos títulos, é grata a ele. Só que o que se vê é que as vitórias do Manchester City parecem fruto da qualidade que o time tem por seus jogadores, não por um time bem armado e organizado.

Ao contrário: muitas das vitórias, inclusive a que levou ao título da Premier League, vieram no “modo pelada”. O time se joga para o ataque, esquece tática, e vai na base da pressão para arrancar os resultados. Às vezes consegue, outras vezes não. Mas não se via um trabalho tático.

Não quer dizer que Mancini não teve méritos. A forma como ele utiliza Yayá Touré ofensivamente é um grande mérito. Ele brilhou como nunca antes – e como dificilmente brilharia no Barcelona, onde foi até zagueiro. Aliás, quem não vira zagueiro no Barcelona, não é? De qualquer forma, Mancini enxergou o potencial do marfinense. Muitas vezes ele foi utilizado – como na final da FA Cup de 2010/11, quando ele fez o gol do título.

Mancini faz pouco com o que tem em termos de elenco. Alex Ferguson conseguiu montar um time coletivamente mais forte mesmo sem ter tantos jogadores de qualidade. É preciso ter alternativas, jogadas trabalhadas, opções táticas. Nem sempre se vence apenas na qualidade técnica, embora, muitas vezes, ela seja suficiente. O Manchester City podia ter ido mais longe na temporada e isso ficou claro em jogos como aquele contra o Manchester United, em Old Trafford. Só que essas foram as exceções.

Na Liga dos Campeões, o time até fez bons jogos, como a estreia contra o Real Madrid, uma derrota por 2 a 1 na qual o time até merecia um resultado melhor. Só que foi o melhor jogo do time no torneio. Depois, os resultados capengaram. Empatou em casa com o Borussia Dortmund, perdeu fora do Ajax, empatou em casa com o Ajax, empatou com o Real Madrid em casa e perdeu do Dortmund fora. O time acabou em último lugar no grupo e foi merecidamente eliminado sem uma vitória sequer. Um fracasso retumbante para o então campeão inglês.

Não ganhar título é ruim, mas não é determinante. O que faz o técnico Roberto Mancini merecer sair é que o time não mostra conseguir ter opções. Depende demais do seu talento individual para resolver. Quando enfrenta um time mais ajeitado, capaz de complicar as atuações de seus principais jogadores, o time cai vertiginosamente de rendimento. Pior ainda: perde jogos que é claramente superior porque não consegue ter um jogo coletivo que sobreponha a marcação adversária.

Com muitos recursos, Mancini fez pouco. Tinha que ter oferecido uma concorrência mais parelha ao Manchester United e se classificado às oitavas de final da Liga dos Campeões. Não poderia ter perdido a final da FA Cup para o Wigan. É muito recursos para pouco futebol apresentado. O nome que se especula para substituí-lo é justamente o seu oposto. É quem faz muito com poucos recursos. Levou o Villarreal à semifinal da Liga dos Campeões em 2005/06. Nesta temporada, levou o Málaga às quartas de final da mesma competição. É justo imaginar que alguém que trabalha com poucos recursos e faz um grande trabalho pode fazer ainda mais com mais recursos. Ainda que não haja garantia alguma disso.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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