Inglaterra

London’s burning

O reinado de Roman Abramovich no Chelsea tem sido, sem dúvida, uma era de vitórias: três campeonatos ingleses, três Fa Cups e duas Copas da Liga, para ser mais exato. A equipe, é verdade, vinha se estabelecendo entre os “grandes” ingleses antes da chegada do russo, mas não há como negar uma mudança de estatura. Em uma liga que era amplamente dominada por Arsenal e Manchester United há hoje três times que sempre podem brigar pelo título, e o Chelsea é um deles.

O problema é que o russo trouxe algo mais além de dinheiro, e esse “algo mais” é ele mesmo. Empresário acostumado a mandar, até consegue desenhar projetos que parecem ser de longo prazo. Só que os atira pela janela por motivos idiotas. Assim foi com José Mourinho, que certamente ganharia a sonhada Liga dos Campeões de Abramovich não o tivesse imposto Avram Grant, precipitando sua demissão. Assim foi com Felipão. E assim começa a ser com Ancelotti.

No caso de Mourinho, pelo menos o “player power” ainda não tinha se estabelecido. Felipão caiu porque trombou com algumas estrelas do elenco – e não cabe aqui discutir quem tinha razão em que, o fato é que não se dirige um clube dando aos jogadores a possibilidade de escolher quem vai treiná-los. Abramovich gosta da intimidade com os craques, e, com isso, coloca em xeque a posição de seus técnicos.

O último episódio da novela foi demissão de Ray Wilkins, asssistente de Ancelotti – e que já o fora de Felipão e Hiddink. Segundo o Guardian, havia problemas entre ele e alguns jogadores. Ancelotti deixa claro que não foi ele quem decidiu pela demissão, e após ela tem dado seguidas declarações de que não tem o comando da equipe. Competente ou não, o fato é que depois da saída de Wilkins o Chelsea perdeu três de quatro – e viu o United empatar em pontos.

Os Blues continuam tendo um elenco melhor que os outros da Premier League. Seu treinador continua sendo competente e experimentado. Seus adversários continuam vacilantes e irregulares. Ou seja, não há nenhum motivo para a equipe não voltar a ganhar, e ganhar com folga a Premier League. A não ser que o menino Roman resolva pedir a bola de novo e mande o técnico embora.

Ancelotti não é nenhuma virgem no que se refere a interferências externas em seu trabalho, tendo sido empregado de Silvio Berlusconi. Tem plenas condições de exercer seu comando apesar delas. Ou não tem? Berlusconi é um fascista com carterinha de fascista, mas, empresarialmente, pelo menos soube construir um império – ainda que isso possa ter sido feito de maneira imoral. Abramovich, por outro lado, era apenas um amigo do poder a quem foi facultado comprar estatais por preços módicos. Pode ser que haja alguma diferença no nível e no tipo de iinterferência externa, portanto.

Quando Abramovich chegou em 2003 os torcedores dos Blues começaram a viver um sonho. O russo, porém, não deixa o sonho chegar ao clímax. E não há quem possa contestá-lo.

Ali do lado

Na sexta-feira, o dérbi do norte de Londres cmoletou nada menos que 123 anos. Tecnicamente, é verdade, em 1887 o Arsenal, ou melhor, Royal Arsenal, ainda não era um time do norte de Londres, o que só passou a acontecer em 1913, mas a primeira partida entre os Gunners e seus maiores rivais, o Tottenham, foi em 19 de novembro de 1887, e foi interrompida por falta de luz natural quando os Spurs venciam por 2 a 1.

O “momento chave” da rivalidade é identificado pela maioria como 1919, quando a Primeira Divisão Inglesa foi expandida em dois times – para 20 – e a última vaga ficou com o Arsenal, apenas o sexto colocado da segunda divisão, em detrimento do Tottenham, 20o da primeira.

Desde 1950 houve apenas uma temporada nos anos 70 em que ambos os times não estavam na mesma divisão, o que fez com que o dérbi ganhassse constância e significado. O fato de serem dois times vencedores, de estaturas semelhantes, ajudou a torná-lo o que é.

Estaturas semelhantes em termos, claro. Quando o Tottenham ganhou sua primeira liga, em 51, o Arsenal já tinha seis título – hoje tem treze, contra dois do rival. Por outro lado, foi dos Spurs o primeiro “double” liga/copa, naquele ano, assim como é deles o primeiro título europeu de um clube inglês, a Recopa de 1963 – o Tottenham também ganhou a primeira Copa Uefa, em 1972, título que ganhou de novo em 1984. Ou seja, em termos europeus os Spurs levam vantagem, com três títulos contra dois do Arsenal (sendo um deles da Copa Interfeiras, a precursora da Copa Uefa).

De 99 a 2008 o Tottenham não venceu o Arsenal; de 99 a 2010 não o venceu na liga; de 1993 a 2010 não o venceu em seus domínios. Uma predominância que estabeleceu uma nova história para esse dérbi. Mas que pode ter começado a mudar neste final de semana.

O fato é que, no papel, o time de Harry Redknapp não é pior que o de Arsene Wenger. Seus jovens talentos estão vingando, ao contrário dos francófonos de Wenger. Só que Wenger é Wenger, tem um histórico de vitórias nos Gunners, enquanto Redknapp alterna momentos memoráveis com partidas como a derrota para o rebaixado Portsmouth na semifinal da FA Cup do ano passado.

Como dissemos no blog ontem, por enquanto o que importa é que o dérbi voltou a ter graça. Qualquer passo adiante disso, entretanto, ainda é mero achismo.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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