Inglaterra

Como Liverpool perdeu Guehi mesmo com ‘tudo certo’ no último dia da janela

A resistência de Oliver Glasner foi determinante para frustrar os planos dos campeões ingleses

O último dia da janela de transferências na Inglaterra trouxe um enredo digno de novela. O Liverpool acreditava ter chegado a um acordo para contratar Marc Guehi, zagueiro do Crystal Palace e titular da seleção inglesa. O jogador chegou a realizar exames médicos em Londres, mas, horas depois, o negócio ruiu.

A decisão de vetar a saída partiu do técnico Oliver Glasner, que se recusou a abrir mão do capitão sem que houvesse um substituto garantido. A novela, na verdade, começou semanas antes. Entre julho e agosto, as conversas se arrastaram entre o Palace e o Liverpool.

De um lado, o presidente Steve Parish considerava inevitável negociar o atleta, já que seu contrato termina no meio de 2026 e não há indícios de renovação. Do outro, Glasner insistia que a permanência de Guehi era essencial para o equilíbrio da equipe.

Por que Guehi era visto como peça-chave para o Liverpool

Os campeões da Premier League buscavam um zagueiro jovem e confiável, capaz de crescer sob o comando de Arne Slot. O plano inicial já havia rendido a contratação de Giovanni Leoni, do Parma, por 29 milhões de libras.

Guehi pelo Crystal Palace (Foto: Imago)

Ainda assim, Guehi surgiu como oportunidade de mercado: jogador de seleção, com experiência na Premier League e em fim de contrato, o que reduzia bastante o valor de negociação.

O Liverpool enxergava no defensor não apenas qualidade técnica, mas também liderança e adaptação imediata ao estilo de jogo. A pedida inicial do Palace girava em torno de 45 milhões de libras, mas o acordo parecia viável por menos. Na reta final, a expectativa era de 35 milhões, metade do que o clube londrino havia solicitado ao Newcastle um ano antes.

O impasse e a aposta de última hora do Liverpool

As primeiras conversas aconteceram após a Community Shield, em 10 de agosto. O Liverpool mantinha a avaliação em 35 milhões, mas o Palace não baixava dos 45 milhões. Sem concorrência forte e ciente da vontade do jogador em se transferir, os Reds apostaram na paciência.

Na segunda-feira de fechamento da janela (1), Guehi manifestou internamente o desejo de ir para Anfield, segundo o “The Athletic”. O Palace aceitou a proposta de 35 milhões, mais 10% de futura venda, e os exames médicos foram autorizados.

Porém, Glasner não mudou sua posição: “Era 9 de julho. Agora é 31 de agosto e não há substituto na equipe, então é claro que não podemos vender Marc”, afirmou o treinador em entrevista.

A busca por alternativas não avançou. Houve conversas por Manuel Akanji (Manchester City) e Joe Gomez (Liverpool), além de sondagens a Igor Julio (Brighton) e Strahinja Pavlovic (Salzburg), mas nenhum negócio se concretizou. A frustração aumentou quando Igor acertou com o West Ham no mesmo dia.

A decisão final e o desfecho inesperado

Com a proximidade do fechamento, o Liverpool enviou à Premier League o “deal sheet”, documento que permite concluir negociações após o prazo. Mesmo assim, o aval do Palace nunca veio. Glasner manteve a palavra e Parish foi obrigado a recuar.

A noite ainda reservou mais um episódio constrangedor: vazou nas redes um vídeo de despedida de Guehi, gravado pelo Palace na expectativa de sua saída. O clube confirmou a autenticidade, mas ressaltou que o jogador não participou da produção.

O futuro do zagueiro segue indefinido. Enquanto o Liverpool busca novas opções para reforçar a defesa na próxima janela, o Palace terá de administrar a permanência de um atleta que desejava partir — e de um técnico que impôs sua vontade até o fim.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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