Por que Kompany suceder Guardiola no City pode ser perfeito mesmo sem manter o modelo de jogo
Ex-zagueiro e ídolo do City, treinador vive temporada mágica no Bayern, mas se distanciou do modelo "tradicional" guardiolista
Vincent Kompany deixou o Manchester City e já começou sua carreira como treinador chamando atenção. Primeiro, quando foi treinador-jogador no Anderlecht; depois, com um Burnley que encantou na Championship. E, agora, tem um dos trabalhos mais elogiados do mundo com o Bayern de Munique.
Seu sucesso na atual temporada, levando o Bayern a mais de 300 gols em 100 jogos e perto de recordes na Bundesliga, voltou a colocar o ex-zagueiro como alvo para suceder Pep Guardiola no comando do Manchester City.
O debate já existiu. Antes, o jovem treinador até mostrou um Burnley jogando de forma semelhante ao City de Guardiola, com mais influências claras do Jogo de Posição. No Bayern, no entanto, foi para outro caminho — mais radical e “relacional”. Dito isso, a transição de Pep para Kompany ainda faz sentido para os Citizens?
O que Kompany construiu no Bayern de Munique
Se o zagueiro Kompany jogou com Guardiola em um modelo clássico do Jogo de Posição, o treinador do Bayern não segue mais essa linha tão à risca. Apesar, claro, de levar muita influência na bagagem.
O Bayern da temporada 2025/26 vem revolucionando o futebol. É um time que adota ideias do “relacionismo” — o termo dado ao conjunto de ideias que envolve aglomeração de jogadores, progressão escalonada com tabelas, “escadinhas” e dribles, por exemplo –, mas praticamente o único que consegue fazer isso de forma consistente no mais alto nível.
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Há times que promovem algo parecido, e até mais radical do que os Bávaros, mas em contextos competitivos menores e com resultados mistos. Fernando Diniz, o exemplo mais claro, já foi campeão da Libertadores dessa forma, mas também acumula críticas em outros trabalhos. José Alberto lidera a segunda divisão espanhola com o Racing Santander e o NEC é o terceiro colocado no campeonato holandês com Dick Schreuder.
Por mais que sejam treinadores mais ousados do que Kompany, nenhum deles está perto do nível exigido pelo Bayern de Munique. E o belga conseguiu montar um time agressivo, com muitas trocas de posição, liberdade para zagueiros e atacantes e linhas muito altas mesmo nesse nível.
Kompany tem montado um Bayern que joga praticamente em 2-2-6, com zagueiros muito altos, com liberdade para progredir com bola e atacar a profundidade para ser opção de passe. Harry Kane viralizou como um camisa 9 que recua até os zagueiros para ajudar na saída de bola.
A ideia é progredir por um lado com muitos jogadores aglomerados, com trocas de posições que confundam a defesa e criem superioridade numérica. As ideias guardiolistas do Jogo de Posição ainda seguem: busca pelo homem livre, criação de superioridades e atrair para liberar. Mas a forma como isso é construído é diferente.
Do City de Guardiola à seleção brasileira de Tite, a grande maioria dos times atacava em organização ofensiva com algo parecido com um 2-3-5 ou 3-2-5. Com o passar do tempo, os adversários começaram a defender com linhas de 5, e já não havia mais a superioridade numérica. Agora, Kompany tem popularizado o 2-2-6 — pesar ainda mais a linha de defesa adversária e criar superioridade em profundidade.
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As diferenças com Pep Guardiola
Como jogador, Kompany foi capitão de um City com Guardiola que jogava majoritariamente em 4-3-3 clássico, que sofreu alterações pontuais ao longo dos anos, mas que tinha uma ideia central forte. Por mais que pontas fossem bem abertos ou que caíssem pelo meio, ou se os laterais entravam como volantes ou não, a ocupação racional dos espaços sempre existiu.
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Guardiola sempre enfatizou a divisão do campo em diversos corredores a serem ocupados sempre, mesmo que até pudesse haver ligeira troca de posição. Na prática, em organização ofensiva, sempre deveria haver algum jogador ocupando as laterais, os meio-espaços e o corredor central.
Além disso, seria necessário que esses jogadores incomodassem a última linha com ataques à profundidade, para que recebessem de frente para o goleiro. Se a defesa baixar por conta disso, haveria mais espaço entre as linhas em zona perigosa. E aí cria-se o ciclo do time que povoa o campo adversário com longos períodos de posse.
O Kompany treinador bebe muito dessa fonte. Seus seis jogadores pesando a linha adversária também servem para isso: fazer que a linha defensiva seja mais povoada e abra mais espaços entrelinhas ou em diferentes corredores.
A diferença é a forma de atacar esses corredores. Pep queria que, por exemplo, o ponta fosse o responsável pelo corredor lateral, para enfrentamentos individuais, e que um dos meias atacasse a profundidade pelo meio-espaço — atrair a marcação para liberar o companheiro em espaço livre.
No Bayern, Luis Díaz pode ser o ponta que recebe na linha lateral, mas, caso a bola circule, ele pode cair pelo meio e ver um dos meias abrir pelo lado, enquanto um lateral caiu por dentro. Kane pode baixar para pesar o entrelinhas e, no fim, o próprio Luis Díaz aparecer atacando a profundidade como centroavante.
Os espaços são preenchidos, mas de forma fluida e mais interpretativa. Isso não quer dizer que, com Guardiola, os jogadores não têm liberdade de se movimentar, mas há mais padrões pré-definidos. Enquanto isso, Kompany promove trocas de posições que mantém a estrutura de ocupação de espaços, mas dá liberdade para que esses espaços sejam preenchidos de forma quase que indiferente.
Kompany faz sentido como sucessor de Guardiola no Manchester City?
Vincent Kompany is the first Bayern Munich manager to win a match at the Bernabeu in 25 years 🧠
Another one from the Pep Guardiola school 🎓 pic.twitter.com/196JTrzupR
— Football on TNT Sports (@footballontnt) April 8, 2026
De forma direta, sim, com certeza. O ex-zagueiro tem grande apelo dentro do clube e conhece diversos funcionários e jogadores que ainda estão no elenco — apesar de ter cada vez menos expoentes do início da era Pep.
É um nome que se provou na Inglaterra e tem experiência como técnico na Premier League, apesar da campanha ruim com o Burnley na elite, e que se provou no mais alto nível na Alemanha e na Champions League.
Mais do que isso, é um nome querido pelo próprio Guardiola, o que o daria vantagem. Em termos táticos, tem material humano para reproduzir suas ideias do Bayern e parece ser consciente o suficiente para adaptá-las ao contexto diferente do futebol inglês — mais intenso e de transições.
O que pode atrapalhar é puramente burocrático. Kompany assinou um contrato até 2029 com os bávaros e não há multa rescisória, ou seja, deverá haver grandes negociações ou uma rescisão para o ex-zagueiro deixar o clube. Pep, por sua vez, tem contrato até 2027, no fim da próxima temporada, quando completará 10 temporadas exatas na equipe.
O ex-zagueiro já foi perguntado sobre o tema em dezembro do ano passado, mas foi direto: não pensava tão à frente naquele momento:
“Eu gosto de viver no mundo à minha frente agora, isso ocupa todo o meu tempo. Não tenho nenhum pensamento sobre outras equipes, só vejo o Bayern”, disse na ocasião.