Inglaterra

Klopp sentou para conversar com líder de torcida LGBT+ do Liverpool e pediu, sem meias palavras: chega de cantos homofóbicos

O clube havia condenado cantos homofóbicos da torcida do Liverpool contra Billy Gilmour, do Norwich, na primeira rodada da Premier League

Jürgen Klopp sentou para conversar com Paul Amann, fundador de um grupo de torcedores LGBT+ do Liverpool chamado “Kop Out” e pediu que a torcida do seu clube pare de vez de entoar cantos homofóbicos, após eles terem sido dirigidos a Billy Gilmour, do Norwich, na primeira rodada do Campeonato Inglês.

Gilmour, um jogador do Chelsea emprestado aos Canários, foi alvo de um canto chamado “rent boys”, que é uma expressão em inglês para garotos de programa. O grito data da década de oitenta e teria origem em uma notícia de jornal que divulgou que um hooligan dos Blues foi encontrado na cama com um garoto de programa durante uma batida policial. Os rivais, então, teriam adaptado um canto da firma de hooligans notoriamente violenta Chelsea Headhunters – “Chelsea aggro”, uma glorificação de violência – para “Chelsea rent boys”. Outra versão é que a região de Earl’s Court, perto de onde fica o clube, seria um local famoso para encontrar garotos de programa.

O Liverpool classificou o grito como “ofensivo e inadequado” e pediu que os torcedores “se lembrassem dos valores inclusivos do clube” e que não o usassem mais no futuro. A Kick It Out, entidade anti-discriminação que atua no Reino Unido, também condenou o ato como homofóbico, e a Kop Outs disse que quem não consegue apoiar o time sem recorrer a esse tipo de “baboseira preconceituosa” não entende o lema You’ll Never Walk Alone.

“Fundamos a Kop Outs porque há um problema de homofobia no futebol”, afirmou Paul Amann, apresentando-se em uma espécie de entrevista com Jürgen Klopp publicada no site e no Twitter oficial do Liverpool. “Sabemos que há poucos jogadores profissionais que são gays. Temos alguns como Anton Hysen, filho de uma lenda do Liverpool, e alguns outros. Mas na verdade não há jogadores suficientes para formar um time inteiro com alguns reservas no banco em toda a história do jogo profissional dos homens. Há algo que não está certo em termos de ambiente. E temos muitos amigos LGBT+ que expressaram desconforto em estar em um jogo e não querem ir ao jogo porque têm medo de que possam ficar desconfortáveis”.

“O que as pessoas não entendem é que esse grito é direcionado ao jogador, mas na verdade as pessoas que o ouvem são outros torcedores, como eu, que acabaram de ouvir You’ll Never Walk Alone, foram abraçados pela torcida e por aquele clima fantástico, e de repente se sentem excluídos. É como se um balde de água fria fosse jogado em você, no seu estado emocional. Porque é um canto tão desnecessário e vil que deixa muitos torcedores homossexuais absolutamente excluídos. E é errado”.

“Não é uma questão de acabar com a rivalidade, não é parar com o clima do estádio. Amamos o clima, todos nós, amamos o clima positivo. Há momentos em que você quer provocar os torcedores adversários, mas você faz isso por meio da esperteza, é por isso que somos famosos”, completou.

Klopp afirmou que na hora não ouviu o grito homofóbico dos torcedores do Liverpool por causa do barulho e porque, pela língua, não entende todas as músicas, mas que não consegue compreender porque alguém cantaria contra algo em um estádio de futebol e simplesmente decidiu – corretamente – que aquela música não faz mais parte do repertório dos torcedores do Liverpool.

“Vamos decidir isso agora: essa música não é mais nossa. Não tenho certeza se as pessoas me ouvem, mas seria legal. Eu não quero mais ouvi-la por muitas razões. É fácil, é fácil decidir não cantar mais essa música. Por nenhum ponto de vista é a música mais legal do mundo, então não é necessária. Obviamente deixa pessoas desconfortáveis, em nossa própria torcida. Para nossos torcedores e para mim, isso quer dizer: chega, vamos para outra. Eu realmente acho que é uma decisão fácil e tem que ser uma decisão fácil”, disse.

“Eu tenho 54 anos agora, e quando eu tinha 20, nós dissemos muitas coisas que não pensávamos e, enquanto isso, graças a Deus, 34 anos depois, aprendemos que não é certo dizê-las, mesmo quando você não pensa o que outras pessoas pensam que está por trás da mensagem. Mas ainda não é certo e é assim que devemos olhar para isso também”.

“Da perspectiva de jogador e treinador, eu posso dizer que essas músicas também não nos ajudam. É um pouco de perda de tempo. É definitivamente uma perda de tempo porque nem as ouvimos. Eu ouço no estádio quando começam a cantar Bobby Firmino, Mo Salah, You’ll Never Walk Alone, obviamente, todas essas. Elas me dão arrepios, dão aquele impulso. As outras músicas são uma completa perda de tempo”, completou, antes de deixar bem claro o que quer dizer.

“Se você pensa o que está cantando: você é um idiota. Se você não pensa o que cantou naquela situação: é apenas uma perda de tempo, esqueça e escolha uma outra música”, afirmou.

Muitos clubes se posicionam contra a homofobia e outras ações preconceituosas de suas torcidas, mas, neste caso específico, o Liverpool foi um pouco além. Não apenas deu voz a um torcedor que foi vítima da agressão em suas redes sociais, como escalou o maior representante do time de futebol para dizer, sem meias palavras, o que tem que ser dito: chega.

.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo