Inglaterra

As reações de Klopp após o título da Copa da Liga não nos deixam dúvida: que falta ele fará ao Liverpool e ao futebol inglês

Com seu estilo único e singular de ser, Jürgen Klopp já deixa saudades no torcedor do Liverpool antes mesmo de partir

A relação de Jürgen Klopp com o Liverpool transcende o futebol, vai muito além do campo e bola. E isso pôde ser visto mais uma vez no último domingo (25). Em uma final insana, aguerrida e para lá de equilibrada contra o Chelsea, Van Dijk, de cabeça, deu o título da Copa da Liga Inglesa aos Reds no apagar das luzes do segundo tempo da prorrogação. Catarse em Wembley. No lado vermelho, claro. O técnico alemão, para variar, foi à loucura e se deliciou com mais um momento extraordinário no clube que ele aprendeu a amar e admirar. No entanto, dessa vez pareceu diferente. Foi ainda mais intenso, mais mágico, mais especial. E não sou eu que estou dizendo isso. O próprio Klopp, sabendo que sua jornada em Liverpool está chegando ao fim, descreveu a vitória e conquista sobre os Blues como “facilmente o troféu mais especial” que ele já ganhou na carreira.

Talvez a afirmação do treinador possa ser um pouco difícil de engolir por alguém que tem Champions League e títulos de ligas nacionais em dois países (Alemanha e Inglaterra) como conquistas de maior peso na carreira. Não no caso de Klopp. O alemão, multicampeão pelo Liverpool e vencedor também no Borussia Dortmund, falou sério naquele momento. Não é sobre o peso do troféu conquistado, mas sim o simbolismo dele. Foi a primeira e talvez única taça dos Reds depois que o carismático e amado comandante anunciou sua saída do clube ao final da temporada.

Klopp não aguentou segurar. Comunicou sua decisão cinco meses antes do término da temporada. Decisão essa que não só pegou de surpresa, mas machucou gravemente o coração do torcedor do Liverpool. Para muitos, a sensação com sua saída é semelhante a de estar perdendo um ente querido, tamanho simbolismo e identificação do alemão com o clube e sua gente. O ‘efeito colateral' disso é que agora, cada ocasião minimamente significativa será “a última vez” que Klopp faz uma determinada coisa à frente do Liverpool. O último jogo contra o Manchester United. O último jogo contra o Manchester City. O último jogo em competições europeias. O último jogo em Anfield.

Esta foi, potencialmente, a última final, o último jogo do Liverpool de Klopp em Wembley. Ainda há a Copa da Inglaterra pela frente, é verdade. Mas dada a crescente lista de lesões e o calendário acumulado dos Reds com compromissos pela Premier League e Liga Europa, não há garantia de que eles passarão da próxima fase do mata-mata nacional, muito menos de que chegarão à final.

Modesto, Klopp insistiu em entrevista pós-jogo que não quer que os próximos meses sejam sobre ele. Mas também não é bobo: sabe que mesmo que Mohamed Salah faça um hat-trick em cinco jogos consecutivos ou Darwin Núñez marque de bicicleta e voleio na mesma partida, ou até mesmo a defesa do Liverpool não seja mais vazada até o fim de 2023/24… tudo continuará sendo visto pela ótica de Klopp. A forma como o alemão transformou esse clube ao longo de oito anos e meio é muito impactante e não sairá do imaginário dos torcedores, sobretudo nestes seus últimos momentos na instituição.

Klopp ergue a taça da Copa da Liga Inglesa ao lado dos jogadores (Foto: Icon Sport)

Afago nos jovens, gritos com fúria, soco no peito: Klopp é um espetáculo à parte

Assistir Jürgen Klopp na área técnica é um acontecimento, um evento. Melhor do que muitos esportes por aí inclusive. O treinador alemão é tão único, tão singular, que quem o acompanha há um tempo já decorou seus movimentos. As conversas animadas e intensas com os auxiliares, a expressão triste e desolada quando as coisas não funcionam em campo, o sorrisão cativante e arrebatador nos momentos de alegria, aquela amedrontadora expressão de fúria onde ele range os dentes e franze a testa, e claro, as comemorações viscerais. Movido pelo coração e pela paixão, Klopp é especial justamente porque nunca esquece que é humano.

No segundo tempo da final de domingo, Klopp chamou Bobby Clark, de 19 anos. Antes da entrada do jovem meio-campista – oriundo das categorias de base do Liverpool, o técnico, com intuito de tranquilizá-lo e deixá-lo à vontade para que exercesse sua função em campo, colocou um braço sobre seus ombros, abriu um sorriso de orelha a orelha e deu um beijinho na testa do garoto. Pouco tempo depois, a câmera o flagrou enfurecido, gritando sem parar com um de seus jogadores por um erro de posicionamento. Este é Klopp. Capaz de ir do céu ao inferno em questão de minutos, alternando entre um vovô querido que lhe daria doces quando seus pais não estão olhando para um sargento pulso firme e mal-humorado.

No momento em que Van Dijk marcou o gol salvador da vitória e do título, Klopp bateu forte no peito com o punho. Na sequência, quando Jayden Danns mostrou raça e disposição ao efetuar um bloqueio na última investida do Chelsea, ele repetiu o movimento dando dois socos. O técnico alemão definitivamente não tem vergonha de participar das comemorações pós-jogos. Entretanto, dessa vez ele conseguiu se divertir ainda mais e curtir cada instante como se não houvesse amanhã. O árbitro apitou o final da decisão e lá estava Klopp, com os braços estendidos enquanto os jogadores cambaleavam insanamente e pulavam em cima dele. Ryan Gravenberch, que precisou ser substituído durante o jogo por conta de lesão, largou brevemente uma das muletas para abraçar seu comandante.

Enquanto o plantel do Liverpool comemorava em campo, Klopp perambulava em busca de pessoas para dar um daqueles enormes abraços de urso, que só ele sabe dar. Não importava quem fosse, o carismático e querido professor só queria demonstrar carinho e gratidão aos seus. Mais tarde, quando os jogadores se dirigiam para receber e erguer o troféu, o alemão recuou por um instante e observou seus comandados subirem as escadas de Wembley. Uma vez completo o trajeto dos atletas, ele escalou os degraus de maneira inusitada, saltando para cima e para baixo, como uma criança feliz que recebera um presente tão aguardado. E detalhe: ele nunca havia feito isso em nenhum dos outros títulos pelos Reds.

E as comemorações continuaram em campo. Klopp convocou sua comissão técnica para, juntos, se abraçarem, cantarem e contemplarem You'll Never Walk Alone na frente da arquibancada vermelha de Wembley. Posteriormente, se acabou de dançar com a execução de One Kiss, de Dua Lipa, que virou uma espécie de segundo ‘hino' adotado pelos torcedores do Liverpool nos últimos anos.

Klopp, o que fica é gratidão e um legado imenso

Depois de todo este monólogo de celebrações, Klopp pode até tentar negar, protestar e espernear que estes últimos meses não são sobre ele. Todavia, o alemão tem ciência de tudo que está acontecendo ao seu redor. E merecidamente, quer aproveitar ao máximo cada momento e ser central em todas as celebrações.

A noite de domingo em Wembley foi mágica. Tão mágica, que o mais otimista torcedor dos Reds certamente pensou consigo mesmo: “será que depois do que aconteceu aqui hoje, Klopp pode reconsiderar sua saída?”. A resposta é não. O comandante dos Reds parece decidido e vai mesmo pedir as contas. Mas o sentimento que fica é de alegria e dever cumprido. Independente do que aconteça até o final desta temporada, o histórico treinador deixa a instituição Liverpool Football Club um milhão de vezes melhor quando comparado ao que herdou lá atrás.

Jürgen Klopp fez do futebol inglês sua casa nos últimos oito anos. E vamos falar a verdade: teria sido muito mais chato e entediante sem ele. O profissional Klopp é muito bom. O personagem Klopp é excepcional. Mas o ser humano Klopp… Ah, esse daí é inconfundível e admirável! Aproveitem e divirtam-se nestes últimos jogos, porque a saudade será (já é) grande.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme Calvano

Apaixonado por futebol, uniu o amor pelo esporte mais popular do mundo ao jornalismo. Carioca da gema e grande entusiasta da Premier League, cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na música, vai de Post Malone a Armandinho. Eclético assim como na área técnica. Afinal, Guardiola e Mourinho são suas referências.
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