Inglaterra

John Barnes, exclusivo à Trivela: “Não podemos acabar com o racismo no futebol enquanto ele existir na sociedade”

Primeiro que ele chama o cara de Elton. Para nós, mortais, Elton Jonh é um dos maiores músicos de todos os tempos. Para John Barnes, Elton era o seu chefe. O torcedor apaixonado que havia comprado o Watford na quarta divisão e o impulsionaria ao segundo lugar da elite do Campeonato Inglês. No meio do caminho, o projeto do Rocketman impediu que um garoto jamaicano de 16 anos voltasse ao seu país de origem ao lhe dar uma chance de se tornar jogador de futebol profissional. Resultado: um dos mais explosivos e técnicos atletas que a Inglaterra já teve e que conversou com exclusividade com a Trivela, em entrevista organizada pelo Apostagolos.

Em 1987, John Barnes tornou-se apenas o segundo jogador negro da história do Liverpool. Em 1987 (!). O outro havia sido Howard Gayle, que fez apenas alguns jogos. Não que agora esteja muito melhor, mas o racismo era um problema sério no futebol inglês naquela época. Grupos neo-nazistas e de hooligans muitas vezes se misturavam. Como a Frente Nacional que uma vez atirou ofensas racistas a Barnes e outros jogadores negros da seleção inglesa durante um voo para a América do Sul. A Inglaterra venceria o Brasil por 2 a 0, e esses babacas chegaram a dizer, segundo a autobiografia de Barnes, que o placar foi apenas 1 a 0, porque “o gol de um negro não conta”. “Bom, eu cruzei a bola para o gol de Mark Hateley. Então, esse não contou também?”, escreveu no seu livro.

Esse era o tipo de coisa com que Barnes teve que lidar desde que começou a jogar bola profissionalmente, pelo Watford. Diz até que no Liverpool acontecia menos, mas, quando acontecia, às vezes calhava de ser em um jogo importante que estava passando na televisão, como aquele dérbi contra o Everton quando deu um chute de calcanhar em uma banana que foi atirada em sua direção.

Barnes tem uma visão bastante única sobre o problema do racismo no futebol. Começando pelo fato de que ele não acha que seja um problema. E não se preocupa que o que ele pensa não agrade muita gente. Chegou a falar ao Guardian que o futebol é a indústria menos racista da Inglaterra. “Qual outra indústria dá a um jovem garoto negro a mesma oportunidade que dá a um jovem garoto branco?”, argumentou. Entre essas opiniões, defendeu o ator Liam Neeson, que disse que queria matar um homem negro que havia estuprado uma amiga, o ex-companheiro de Liverpool, Peter Beardsley, suspenso por sete meses por chamar jogadores negros de macacos e Bernardo Silva, também punido por um tuíte com cunho racial em referência a Benjamin Mendy.

A visão de Barnes é que o racismo que acontece em campo não é tão importante quanto o que acontece nas arquibancadas. O verdadeiro problema, para ele, é o racismo da sociedade que impede pessoas negras de estudarem e ter um emprego. O outro nunca o incomodou. “Racismo no futebol, quando você fala sobre torcedores xingando outros jogadores, não é real. Se um jogador negro jogar pelo clube dele e fazer um hat-trick, ele vai amá-lo. O que é real são pessoas que não conseguem empregos, não conseguem estudar”, afirma à Trivela. “Até que lidemos com o racismo na sociedade, existirá em todos os âmbitos da sociedade, dos quais o futebol é um deles. Não podemos extrair o futebol e dizer que quando acabarmos com isso no futebol… não podemos acabar com o racismo no futebol enquanto continuar na sociedade. Temos que fazer na ordem inversa”.

Barnes chegou ao Liverpool no momento errado. Pegou apenas os último dois títulos ingleses de uma sequência impressionante de duas décadas no topo do futebol do país. Por que os Reds pararam de vencer, o pedido de demissão surpresa de Kenny Dalglish em 1991, como a Premier League transformou os jogadores em celebridades, inclusive os seus companheiros que foram apelidados de Spice Boys, foram alguns dos assuntos sobre os quais falou com propriedade e em detalhes.

E também do seu grande momento no futebol brasileiro. Aquele gol no Maracanã – o que os racistas da Frente Nacional não quiseram contar – foi um dos mais bonitos que marcou, após arrancar da esquerda e passar por meia dúzia de brasileiros. Um gol à Maradona, digamos assim, o seu jogador favorito. O papo foi conduzido antes da morte de Diego, mas Barnes também falou sobre como foi a experiência de enfrentá-lo, nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986, quando saiu do banco e quase conseguiu orquestrar o empate da Inglaterra.

Você se mudou pra Londres com sua família quando tinha 12 anos. Como foi, naqueles primeiros anos, um cara jovem, de outro país, tentando virar jogador profissional? Sempre foi esse o sonho?

Meu pai estava no exército e recebeu um posto diplomático por quatro anos. Quando eu tinha 12, viemos para a Inglaterra. Eu não vim para ser jogador de futebol. Eu vim porque minha família veio, sabíamos que voltaríamos para a Jamaica quando eu tivesse 16. Eu ficaria apenas quatro anos na Inglaterra. Quando eu tinha 16 anos, recebi uma bolsa porque eu cresci jogando futebol na Jamaica. Meu pai jogava futebol pela Jamaica, e ele era do exército, não há futebol profissional, mas ele jogou pela Jamaica. Eu estava animado para vir à Inglaterra. Eu vinha estudar, sabia que jogaria futebol, mas nunca pensei em ficar na Inglaterra, ainda mais ser jogador de futebol profissional. Eu sabia que voltaria para a Jamaica, jogaria lá ou talvez nos EUA.

Seis meses antes de eu voltar, um olheiro, um taxista, me viu jogando bola no parque, por um time local, e me recomendou a um outro olheiro. Um olheiro me viu jogando, e o Watford me convidou para treinar. Me ofereceu um contrato. Eu não cresci pensando em ser jogador de futebol. Sempre soube que jogaria futebol, mas nunca sonhei em ser jogador de futebol na Inglaterra até talvez seis meses antes de eu realmente ser.

O Watford era um time ainda na segunda divisão, mas o dono era Elton John. Como foi isso? Ele era um presidente presente ou mantinha a distância? Vocês tinham algum relacionamento?

Elton era um torcedor de verdade. Nós chegamos à primeira divisão no meu primeiro ano e fomos segundo lugar atrás do Liverpool, mas todos os jogadores subiram da quarta divisão, para a terceira, para a segunda, para a primeira. Eu só cheguei na segunda divisão. Elton era um torcedor de futebol porque, uma super-estrela como ele, se quisesse se envolver no futebol por causa do prestígio, não seria em um clube da quarta divisão como o Watford. Elton era presidente do Watford na quarta divisão, quando tínhamos 5 mil pessoas vendo o jogo, porque ele amava o time.

Elton John com o time do Watford na temporada 1982/83, o ano do vice-campeonato inglês (Foto: Imago/One Football)

Quando chegamos à primeira divisão, e ficamos em segundo, atrás do Liverpool, Elton estava em todos os jogos, sempre tinha uma festa na sua casa. Ele sempre vinha aos jogos, conversava conosco o tempo inteiro. Então, ele era um presidente bem presente. Obviamente, ele não tinha nada a ver com o time. Graham Taylor era o treinador, mas ele apoiava o time.

Até tem uma frase: Elton John não dizia a Graham Taylor quais jogadores escalar, e Graham Taylor não dizia a Elton John quais músicas cantar.

Eu cheguei a ver Graham Taylor dizer para Elton John se mandar, sair da sala, ir embora, se ele estava ficando animado demais porque os jogadores estavam indo bem. Naquela época, o treinador era a pessoa mais importante. Alex Ferguson, Bob Paisley, Kenny Dalglish. Eles tinham que ser. Porque os jogadores precisavam ver que o treinador estava no comando. O presidente, ou o dono, porque ama futebol, porque ama os jogadores, e todo mundo acha que entende de futebol, ele quer falar com o treinador, mas isso prejudica o trabalho do treinador. Elton entendia isso.

Agora, o futebol mudou. Temos donos de clubes que têm opinião, sobre como o time deve jogar, quem deve jogar, quem deve ser contratado. Não era assim nos anos oitenta. Não havia dono de clube de futebol que dizia ao treinador quem contratar, quem colocar para jogar, como jogar. E Elton tinha respeito suficiente pelo futebol e por Graham para entender isso. Para termos sucesso, Graham tinha que estar no comando e os jogadores tinham que ver isso. Então, Graham era mais importante do que Elton. Para ganharmos jogos. Claro, Elton apoiava o clube, dava o dinheiro, mas, para termos sucesso, o treinador tinha que estar no comando.

Aquele time ficaria em segundo lugar na liga, chegaria a uma final de copa, uma semifinal, algumas quartas de final. Mas você ficou frustrado de ter saído do Watford em 1987 sem ter conquistado um título?

Não me frustrou porque não era para o Watford ganhar um título. Como o Watford sai da quarta divisão para a primeira e ganha o título à frente do Liverpool, Manchester United, Arsenal, Tottenham? Ficamos em segundo lugar, depois em sexto, sétimo, oitavo (nota do editor: na verdade, 11º, 11º, 12º e nono, até Barnes sair para o Liverpool em 1987), era o que o Watford podia fazer. Você não fica frustrado porque o Watford não foi campeão, mas só de estar na primeira divisão era um feito. Então, não me frustrou, mas o que Graham Taylor sabia era que o Watford não podia fazer mais nada para que eu crescesse como jogador. Eu tinha que sair, ir para o Liverpool, e foi quando minha carreira disparou.

Você chega ao Liverpool no fim do domínio, mas ainda consegue dois títulos da liga. Naqueles primeiros anos, você foi capaz de ver por que o clube era tão bem sucedido? E depois que Dalglish vai embora, o que mudou exatamente, na cultura em geral, que fez com que o clube ficasse tanto tempo sem vencer?

Nós vimos imediatamente porque o Liverpool era tão bem sucedido. Por causa das tradições e da história do Liverpool que começaram com Bill Shankly e pela humildade dos jogadores. Os jogadores respeitavam o time. O time era a coisa mais importante. Havia grandes jogadores individualmente, mas o mais importante era o time. Se você tem bons jogadores individualmente, mas o foco deles não é em si mesmo, mas para o bem do time, você será campeão. Diferente do que acontece agora, quando falamos dos jogadores individualmente, do quão bom eles são, e eles sentem que são melhores que o time ou melhores que os companheiros.

Barnes com a taça do Campeonato Inglês de 1987/88, ao lado de John Aldridge e Steve McMahon (Foto: Imago/One Football)

Isso era uma coisa do Liverpool desde Bill Shankly, quando eles tinham os melhores indivíduos, mas esses indivíduos tinham humildade, respeito e reverência pelo time e pelos seus companheiros, mesmo os considerados inferiores. Eu sabia disso. Era assim no Watford. O time é a coisa mais importante. E o Liverpool também olhava para o caráter dos jogadores que contratava. Não tinha que necessariamente contratar os melhores jogadores, mas contratar as melhores personalidades.

Quando Kenny foi embora, o futebol estava mudando. A Premier League chegou. Mais dinheiro estava sendo injetado no futebol. Era sobre contratar os melhores jogadores. Você contrata os melhores jogadores e, se não der certo, você contrata mais. O Liverpool construía, durante anos e anos, mas não importava mais o quanto você construía, porque os jogadores, por causa das capacidades financeiras dos clubes, não necessariamente iriam ao Liverpool.

Com a Premier League, outros clubes puderam competir com o Liverpool porque o Liverpool estava apenas preocupado em ganhar jogos de futebol. Não estava preocupado com atividades comerciais, construir a marca, arrecadar dinheiro, era apenas sobre os melhores jogadores. O Liverpool não pagava seus jogadores mais do que outros clubes. Trazia os jogadores certos, que podiam fazer o que queriam que eles fizessem, com a mentalidade certa, a filosofia certa. Eles não pagavam mais. Quando os clubes começaram a dizer ‘ok, nós vamos pagar mais para você jogar por nós’, os jogadores começaram a ir para outros clubes.

O futebol mudou também porque o foco no jogador passou a ser mais importante do que no time. Porque, com a Premier League, você queria estrelas. Muitos jogadores sentiram que era sobre eles e não sobre o time. Os jogadores que o Liverpool estava contratando não cresceram na tradição do Liverpool, ou naquela tradição de os jogadores terem humildade e respeito pelo time, que o time era a coisa mais importante. O futebol passou a ser sobre o indivíduo. O indivíduo recebendo mais dinheiro, tendo patrocinadores, recebendo mais elogios do que seus companheiros. Isso se tornou aparente no futebol em geral. Antes, os jogadores que vinham para o Liverpool, não importava se fossem o Peter Beardsley, o jogador mais caro da história do futebol britânico (naquela época), tinham que ser subservientes ao time.

O perfil do futebol mudou e isso significava que Manchester United e Arsenal podiam gastar dinheiro, contratar jogadores, e a filosofia não era a mesma do Liverpool. Klopp retomou isso. Se você olhar para o que Klopp fez, não é sobre Salah e Mané. Acabamos de vencer o Leicester por 3 a 0, sem oito jogadores do time time titular. Não é sobre os indivíduos, e é isso que o Liverpool sempre foi. Mas passamos por um período do futebol em que tudo girou em torno dos indivíduos.

Mas o Liverpool tentou continuar fazendo a mesma coisa. Trouxe Graeme Souness depois de Kenny Dalglish, o que parecia ideal. Um ex-capitão, da cultura do Liverpool, de Bill Shankly, da Bootroom, mas o futebol havia mudado e isso foi um problema para ele.

Foi um problema para ele porque muitas pessoas na hierarquia do Liverpool achavam que tinham que continuar daquele jeito, mas tínhamos que olhar para a frente e mudar com os tempos. A maneira antiga, o que o Liverpool fez durante 30 anos, então tínhamos que continuar fazendo. Não era mais assim. Aquele jeito já era. Tinha que mudar. Se esperava que qualquer treinador que chegasse fizesse o que o Liverpool fazia no passado, em termos de cultura, filosofia. O Manchester United agora tem esse problema. Depois de Ferguson, quando um treinador novo chega, você tem que perguntar o que ele quer fazer. Van Gaal, Mourinho, eles querem fazer o que querem fazer, mas se você ficar preso ao que Fergie costumava fazer… tem que esquecer aquilo. Não houve um treinador do Liverpool até Jürgen Klopp para o qual disseram: você agora está no comando, esqueça a tradição, esqueça as filosofias do passado, o que você quiser fazer, você criará algo novo. E os treinadores do Liverpool não podiam fazer isso porque ainda estávamos vivendo no passado. Como o Manchester United está fazendo agora.

Entre esses títulos, houve Hillsborough. Você chegou a pedir dispensa de um jogo da Inglaterra para comparecer a alguns funerais naquela época. Você estava no clube há apenas dois anos, mas já sentia um senso de responsabilidade, uma conexão com a comunidade? Ou foi uma tragédia tão grande que você apenas sentiu que precisava fazer sua parte?

Eu cresci no Watford com aquela ideia de que a comunidade e o espírito do time são as coisas mais importantes. O Watford precisava da sua comunidade. O Liverpool tem torcedores no mundo inteiro. Não precisa da comunidade de Liverpool para que o estádio fique cheio, mas, eu tinha seis anos com aquela filosofia de que a comunidade, o time – o time é uma comunidade – são as coisas mais importantes. Eu fui para o Liverpool e era muito parecido com o Watford porque eu sentia responsabilidade com os torcedores e a comunidade. Quando cheguei ao Liverpool, eu simplesmente continuei isso. Bill Shankly era um socialista. Ele acreditava na comunidade, no time, não nas super-estrelas. O time inteiro. A moça do jantar, o jardineiro, os torcedores, os torcedores estrangeiros. É isso que é a família.

Barnes em ação pelo Liverpool (Foto: Clive Brunskill/Allsport/One Football)

Eu senti aquele senso de comunidade e aquele senso, não tanto de responsabilidade, porque você tem realmente uma responsabilidade, mas eu senti que precisava mostrar que eu era um deles, que eu sou como eles. Porque quando Hillsborough aconteceu, eu não era um jogador de futebol que jogava pelo Liverpool, que perdeu 96 torcedores. Eu era um ser humano, cujos amigos perderam seus entes queridos. Eu sou parte deles. Eu tive a sorte de que nenhum dos meus filhos morreu, mas poderia facilmente ter sido um dos meus filhos. O fato de que talvez tivesse um jogo da Inglaterra… esperava ter outra chance de jogar pela Inglaterra, mas se eu pudesse mostrar meu apoio a eles, mesmo perdendo um ou dois jogos da Inglaterra. Realmente não foi um problema.

O pedido de demissão de Kenny Dalglish pegou todo mundo de surpresa. Surpreendeu também os jogadores ou vocês estavam percebendo que ele estava exausto e não conseguiria continuar por muito mais tempo?

Foi uma imensa surpresa para mim. Alan Hansen e talvez alguns outros jogadores que atuaram com ele nos anos setenta podem ter percebido o tamanho do estresse pelo qual ele passava. Do meu ponto de vista, e de 90% dos jogadores, não sabíamos. Kenny nunca deixava transparecer. Na verdade, ilustrando o quanto foi surpreendente, nós jogamos contra o Everton na quarta-feira (NE: último jogo de Dalglish como técnico do Liverpool naquela primeira passagem). O próximo jogo era contra o Luton, no sábado. O Luton tinha um campo de plástico, de grama sintética, e o que acontecia era que, porque era o primeiro campo de grama sintética, nós treinávamos em Luton na sexta-feira, todos os times visitantes.

Jogamos na quarta-feira contra o Everton, tínhamos a quinta-feira de folga, treinaríamos em Luton na sexta-feira para jogar no sábado. Eu ainda tinha uma casa em Watford, onde vive minha ex-mulher, e Watford é perto de Luton. Depois do jogo de quarta-feira, eu perguntei a Kenny se poderia ir a Watford, ficar por lá, e encontrar o time na sexta-feira, em Luton, porque era a apenas meia hora de Watford. Kenny disse: “sem problema, vejo você em Luton na sexta-feira”.

Eu chego a Luton na sexta-feira, e a imprensa me diz, porque o ônibus ainda não tinha chegado: “O que você acha do que aconteceu com Kenny?”. E eu disse: “O que aconteceu?”. E eles: “Ele pediu demissão”. E foi o maior choque para mim porque, na quarta-feira, ele me disse: “Vejo você em Luton na sexta-feira”. E eu não sabia que ele estava estressado ou coisa assim. Obviamente, agora, quando você olha para trás, e pensa no que ele havia feito, indo aos funerais (NE: Dalglish foi ao máximo de funerais das vítimas de Hillsborough que conseguiu, incluindo quatro em um mesmo dia), a pressão de ter que vencer e jogar bem, é compreensível.

Os outros jogadores disseram que, na sexta-feira, quando estavam saindo de Liverpool, ele chegou ao vestiário, às 9h, a hora marcada para sair, e disse, em três minutos, que estava sob pressão, muito estressado e que estava pedindo demissão. Todos entraram no ônibus para o jogo e ele foi para casa.

Seu último ato no Liverpool foi a temporada em que o título ficou mais próximo de ser recuperado até aquele momento e por muitos anos depois. O time era chamado de Spice Boys. Você gostava do apelido? Acha que era justo?

Eu não era um dos Spice Boys porque tinha 34 anos (risos). Não era justo. Porque, claro, até aquele momento, depois de 1992/93 (fundação da Premier League), a cultura da celebridade no futebol era tão grande que os jogadores mais jovens eram vistos como celebridades. Kevin Keegan, Kenny Dalglish, eu, nos primeiros anos, não éramos celebridades, éramos pessoas normais, mesmo sendo super-estrelas do futebol. A Premier League começou com essa cultura de celebridades no futebol. Os jogadores eram vistos como popstars. Claro, Jamie Redknapp, Fowler, eram tratados como popstars e, não tendo tido sucesso, isso significava que eram criticados, que queriam ser celebridades como as Spice Girls. Era injusto porque eles eram bons profissionais, eles treinavam duro, mas eles não estavam vencendo. Porque se você olha para David Beckham, Ryan Giggs, eles era exatamente iguais aos Spice Boys. Eles também iam para baladas e festas, saíam com modelos e coisas assim. Mas eles estavam ganhando. Se você fizer isso e vencer, você não é criticado. Se faz isso e não vence… Sim, eles gostavam de sair, todos os jovens jogadores gostavam. Não foi culpa deles que a sociedade começou a tratá-los daquela maneira.

Você jogou 79 vezes pela Inglaterra, mas nunca teve muita sorte nas grandes competições. Mesmo com jogadores como Lineker e Beardsley, muito talento no ataque. Você acha que a Inglaterra não conseguiu tirar total vantagem de uma boa geração para ganhar um título?

Você precisa de sorte para ganhar um título. Eu nunca pensei, jogando pela Inglaterra, que éramos o melhor time do mundo. Chegamos às quartas de final de 1986, contra o Maradona, que era o maior jogador do mundo, e a Argentina era o melhor time. Perdemos em 1990 a semifinal para a Alemanha, que era o melhor time do mundo. Eu não acho que a Inglaterra necessariamente deveria ter vencido um título porque havia times melhores. Se tivéssemos um pouco de sorte contra a Alemanha, em 1990, porque foi o jogo em que atuamos melhor, poderíamos ter vencido aquele jogo, mas perdemos. Tivemos sorte contra Camarões e tivemos sorte contra a Bélgica. Então, claro, você sempre pensa por que não venceu, mas a única coisa que pode fazer é maximizar seu potencial. A Inglaterra nunca foi o melhor time do mundo. Fazia anos que não era. Por que deveriam ganhar, só por que são ingleses e inventaram o jogo? Jogamos contra times que eram melhores do que nós. Sim, poderíamos tê-los vencido, mas não tivemos sorte. Quando as pessoas falam que deveríamos ter vencido… por quê? Havia times melhores que nós. Com um pouco de sorte, poderíamos. Não conseguimos, mas acho que maximizamos nosso potencial.

Sua estreia em grandes competições foram 15 minutos contra Maradona nas quartas de final da Copa do Mundo. Do que você se lembra daquele jogo?

Eu me lembro de ver Diego Maradona pelos primeiros 75 minutos. Eu fiquei encantado. Ele era incrível, meu jogador favorito. Eu amo Pelé, mas não sabia muito sobre o Pelé, não havia tantas câmeras. Ver Maradona e entrar no mesmo campo que ele foi incrível. E também, obviamente, porque estávamos saindo da Copa do Mundo, perdendo por 2 a 0, e eu ainda não tinha entrado em campo. Eu tinha sido reserva em todos os jogos. Como eu me sentiria parte da Copa do Mundo se não jogava? Quando Bobby Robson me disse para aquecer, eu fiquei tão feliz de poder dizer que eu joguei uma Copa do Mundo. Eu não sabia como eu ia jogar, mas fiquei feliz apenas de estar em campo em uma Copa do Mundo. É similar ao gol que marquei no Maracanã contra o Brasil. Eu conhecia o Maracanã, onde Pelé havia feito seu milésimo gol, toda a história do Maracanã, o quão icônico era o estádio. Só jogar no Maracanã foi especial. Marquei um grande gol no Maracanã, mas teria sido especial só jogar lá. Então, eu joguei em uma Copa do Mundo. Claro que joguei em 1990 também, mas eu não sabia disso. Poderia ter sido minha única Copa do Mundo.

E você ainda foi bem. Deu assistência para o gol do Lineker, acredito que criou outra chance. Mesmo em 15 minutos, conseguiu causar impacto ao jogo.

O problema quando você enfrenta Diego Maradona é que você subestima, não respeita tanto, os outros jogadores. Eles eram um bom time. Tinham (Jorge) Valdano, (Jorge) Burrochaga, (José Luis) Brown na defesa, (Julio) Olarticoechea. Eram bons jogadores. Mas, claro, Maradona era uma super-estrela e você pensa que tudo é sobre Maradona. Eles eram um bom time. E aquela segunda chance, que dizem que Lineker perdeu, ele não perdeu. Foi uma das melhores ações defensivas que eu já vi. Se você colocar no Google, quando Lineker estava prestes a marcar de cabeça, Olarticoechea, o defensor, ficou de frente para ele e cabeceou para fora, para escanteio. Nunca vi uma ação defensiva como aquela. Era o ano de Maradona. Mesmo que tivéssemos marcado o segundo, tenho certeza que Diego teria feito alguma coisa para ganhar o jogo. Era impossível pará-lo.

Em 1984, você marcou um gol incrível contra o Brasil. Pegou a bola na esquerda e saiu driblando todo mundo, até o goleiro. Foi um dos seus melhores gols? Quão importante foi para você, naquele estágio inicial da carreira, fazer um gol em um palco como o Maracanã e contra o Brasil? 

Foi meu primeiro gol pela Inglaterra, no Brasil, onde a Inglaterra nunca tinha vencido, na televisão, com todo mundo vendo. E foi um gol, digamos assim, brasileiro. Mas eu olho para o gol, mesmo agora… e era um amistoso de fim de temporada. Eu passo primeiro por Leandro. Na cabeça dele, olhando agora, ele pensava que alguém iria me desarmar. Era um jogo amistoso, ninguém queria se esforçar demais. Eu cheguei ao último defensor, Júnior era o último. Em uma Copa do Mundo, tenho certeza que alguém teria dado uma entrada no meu pescoço ou em algum outro lugar. Sim, foi um grande gol, mas, se fosse um jogo sério, alguém teria feito uma tentativa melhor de me desarmar.

Você mal foi utilizado em 1986, teve três derrotas na Eurocopa de 1988, não jogou os últimos dois jogos de 1990, não foi para 1992 e para 1996, e a Inglaterra, claro, não se classificou para 1994. Há um consenso de que você nunca atingiu seu potencial com a camisa da Inglaterra. Você concorda com isso?

Eu estava machucado em 1990. Eu fui, mas não estava 100% fisicamente. Eu me machuquei contra a Bélgica, não deveria ter começado jogando contra Camarões, sai com 30 minutos. Mas era sobre o time. Eu queria apoiar o time. Aquele espírito que tínhamos em 1990 era especial. Em 1992, eu rompi o tendão de Aquiles e me tornei um jogador diferente. Duas semanas antes da Euro, estávamos jogando um amistoso na Finlândia, rompi o tendão e fiquei fora por seis ou sete meses. Depois disso, eu tive sorte de continuar jogando. O cirurgião que me operou disse que achava que eu nunca jogaria de novo. Eu ainda joguei pela Inglaterra até 1995 e profissionalmente até 1999. Mas eu tive que mudar o que eu era como jogador. Eu tinha velocidade, físico, mas tive que mudar.

Barnes com a camisa da Inglaterra contra a Escócia, em Wembley, 1988 (Foto: Simon Bruty/Allsport/One Football)

Eu concordo. Tem a ver com a maneira como os times jogam. No Liverpool, tínhamos muita posse de bola. Era um estilo muito continental. Nós nos concentrávamos em ter a posse. A Inglaterra, nos anos oitenta, era diferente. Era sobre bolas longas e lutar. Se você olhar para os três jogadores considerados os mais técnicos que tínhamos nos anos oitenta, Glen Hoddle, Chris Waddle e eu, nenhum de nós fomos valorizados ou maximizamos nosso potencial pela Inglaterra porque a Inglaterra não jogava esse tipo de futebol. Se olhar para a Inglaterra agora, é um jogo muito técnico, os jogadores ficam confortáveis com a bola. Se você olhar para os anos oitenta, o futebol nem era assim. Quando me perguntam por que eu não joguei pela Inglaterra o que joguei pelo Liverpool, eu digo que se a Inglaterra jogasse como o Liverpool jogava…

Não sei quantos anos você tem, mas tinha um um time nos anos oitenta chamado Wimbledon, que jogava de um jeito, com bolas longas. Se você colocasse o Messi naquele time, ele não conseguiria jogar. Ele ainda seria o Messi, mas as bolas longas não eram para ele. O jeito como a Inglaterra jogava não era para mim, não era para Chris Waddle ou para Glen Hoddle, e sempre fomos criticados. Mas quando Hoddle foi para o Monaco, e Waddle para o Olympique Marseille, Arsène Wenger, que teve Henry e Bergkamp no Arsenal, disse que um dos jogadores mais técnicos que ele treinou foi Glen Hoddle. Na Inglaterra, ele não era valorizado porque não era assim que a Inglaterra jogava. Eu concordo plenamente quando as pessoas dizem isso, mas esse é o motivo.

Você foi apenas o segundo jogador negro da história do Liverpool e certamente o primeiro mais importante, no momento em que o racismo era um grande problema na Inglaterra – e ainda é. Como você lidou com aquilo?

Eu já tinha seis anos de Watford. Eu recebi mais ofensas racistas em seis anos no Watford do que no Liverpool. Eu estava acostumado com isso. Claro que, quando você joga pelo Liverpool contra o Everton, e está todo mundo vendo pela televisão… mas eu já tinha seis anos de carreira e, sempre que eu jogava, isso acontecia. Não era novo para mim. Mas nunca me afetava porque eu sou um ser humano completo, completamente empoderado, eu me sinto completamente igual a todo mundo. Se um idiota está gritando para mim da arquibancada, me xingando, isso não vai fazer com que eu me sinta mal porque eu me sinto superior a ele. Como ele vai me fazer sentir inferior? Nunca me incomodou. Claro que as pessoas veem de maneira diferente, as pessoas fazem coisas diferentes, mas, para mim, nunca incomodou.

O que me incomodava era o racismo na sociedade. O racismo que rolava com os torcedores de futebol nas arquibancadas. Porque quando eu joguei pelo Watford contra o Liverpool, alguns torcedores do Liverpool me ofendiam de maneira racista. Quando fui para o Liverpool, aqueles mesmos torcedores me celebravam. Racismo no futebol, quando você fala sobre torcedores xingando outros jogadores, não é real. Se um jogador negro jogar pelo clube dele e fazer um hat-trick, ele vai amá-lo. O que é real são pessoas que não conseguem empregos, não conseguem estudar. Torcedores que são xingados no estádio. Eu nunca levei esse racismo para o pessoal. Mas isso sou apenas eu. Outras pessoas são diferentes.

Quase 40 anos depois, isso ainda acontece no futebol do mundo inteiro. O quão longe você acha que chegamos em aprender a como lidar com esse grande problema e quanto você acha que ainda falta?

Até que lidemos com o racismo na sociedade, existirá em todos os âmbitos da sociedade, dos quais o futebol é um deles. Não podemos extrair o futebol e dizer que, quando acabarmos com isso no futebol… não podemos acabar com isso no futebol enquanto continuar na sociedade. Temos que fazer na ordem inversa. Porque é sobre a percepção de uma pessoa negra. Os jogadores negros são 0,0001% da população negra. E as outras 99%, o que pensamos delas? Isso que tem que mudar. Henry, John Barnes, Obama, Beyoncé… mas como nos sentimos pela pessoa negra média?

Você deveria entender isso porque, no Brasil, quantos treinadores negros existem? E vocês tiveram jogadores negros por cem anos. Por que isso? Por que há tão poucos treinadores negros no Brasil? Por causa da percepção do intelecto da pessoa negra. Não apenas no treinador, mas, quando você olha os patamares mais altos das instituições, de qualquer instituição, quantas pessoas negras estão lá? Por que o futebol deveria ser diferente? Por que deveríamos ter mais treinadores negros se não temos gerentes de bancos negros? Em instituições e entidades corporativas. Racismo no futebol não é um problema. É o racismo da sociedade, da qual o futebol é uma parte.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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