Aposta, estratégia ou necessidade? O que move a busca por jogadores asiáticos no futebol britânico
Muito além do gramado: o impacto esportivo, comercial e cultural dos atletas da Ásia no Reino Unido
O som do moderno estádio do Tottenham ecoa com gritos de apoio a Son Heung-min. A alguns quilômetros dali, a força e a técnica de Kaoru Mitoma encantam a torcida do Brighton no Falmer Stadium. Mais recentemente, o Liverpool apostou no talento de Wataru Endo para seu meio-campo, enquanto o Wolverhampton, desde 2021, se beneficia dos gols de Hwang Hee-chan.
Esses são apenas alguns exemplos de como os jogadores asiáticos se tornaram presença constante e influente no futebol britânico. Antes considerados apostas arriscadas, os talentos da Ásia agora são vistos como ativos valiosos e estratégicos para os clubes do Reino Unido.
Mas afinal, o que impulsiona essa mudança de cenário? A resposta está em uma combinação de fatores, que vão desde estratégias de expansão de marca até mudanças significativas nas regras de contratação de atletas.
Abaixo, a Trivela explora os principais motivos que levam os times britânicos a olharem com cada vez mais afinco para o mercado asiático.
Expansão da marca para um mercado gigantesco
A Ásia, especialmente países como Coreia do Sul, Japão e China, representa um dos maiores e mais lucrativos mercados para o futebol mundial. Ao contratar um jogador asiático que chame atenção no seu continente de origem, os clubes — no caso os britânicos — ganham quase que instantaneamente uma considerável base de torcedores e consumidores nesses territórios.
Isso se traduz no aumento de vendas de camisas, patrocínios regionais e direitos de transmissão, gerando receitas significativas para o time em questão. A chegada de um atleta como Son, por exemplo, resultou no crescimento exponencial do número de seguidores do Tottenham na Ásia, estabelecendo-o como uma das marcas de futebol mais populares na região — coisa que certamente se manterá por anos, mesmo com a saída confirmada do sul-coreano.
A visibilidade, de fato, aumenta, e o clube se transforma em um “nome familiar” em lares asiáticos. Isso não somente atrai novos fãs, mas também estabelece uma conexão cultural e emocional, tornando o time a primeira escolha de muitos adeptos locais.

E essa conexão acaba sendo um trunfo valioso em meio a um mercado de mídia cada vez mais globalizado, onde a atenção do público é disputada por inúmeros eventos esportivos e equipes. A capacidade de um clube de se destacar e se manter relevante em uma região tão grande e tão apaixonada pelo futebol como a Ásia, é importante para seu crescimento a longo prazo, tanto financeiramente quanto em termos de prestígio global.
Trata-se de um movimento estratégico dos times britânicos, que demonstram a compreensão de que o futebol de hoje vai muito além das quatro linhas. Mais do que “apenas” reforçarem o elenco com essas aquisições, eles também plantam sementes em mercados gigantescos e constroem pontes culturais duradouras.
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A qualidade e o valor de mercado do jogador asiático
A crescente presença de jogadores asiáticos em grandes ligas europeias tem levantado questões sobre o que exatamente atrai os clubes — além da exposição da marca citada acima — ao investirem nesse mercado.
Mais do que um conjunto de características “específicas”, Tiago Bontempo, jornalista especializado em futebol japonês e autor do livro “Samurais Azuis”, enxerga uma mudança de estratégia dos times no momento de comprar esses atletas. Em entrevista à reportagem da Trivela, ele sugere que a motivação por trás dessas contratações vai além da qualidade técnica. O que parece estar em jogo é uma avaliação pragmática de risco e retorno.
— Mais do que buscar um conjunto de características, o que vejo é que os clubes ingleses descobriram um mercado bom e barato. Um investimento de baixo risco e com boas possibilidades de dar retorno. É só ver nomes como Ao Tanaka (Leeds United) ou Tatsuhiro Sakamoto (Coventry City), que foram contratados por valores baixos e estão rendendo mais que outros jogadores muito mais caros — disse.
E a descoberta desse mercado não é exclusividade da Inglaterra ou Reino Unido. Vários países europeus já utilizam tal estratégia há algum tempo. Tiago ainda destaca que o sucesso dos asiáticos em ligas de menor visibilidade tem sido um precursor para a atenção dos grandes centros — caso de Championship (segunda divisão inglesa) e Premier League.
Uma tendência, porém, que não é baseada em traços de jogo, mas sim no histórico de sucesso e na percepção de valor.
— Clubes da Alemanha, da Bélgica, de Portugal e da Holanda “descobriram” esse mercado, e agora os ingleses perceberam também. Não acho que seja por conta das características de jogadores asiáticos em si, até porque essas características variam de um jogador para outro. Vejo mais como um novo mercado que se abriu graças ao sucesso recente dos jogadores japoneses na Championship.

Pegando o futebol japonês como exemplo, a cadeia de desenvolvimento de talento do país se expandiu, e as equipes britânicas estão atentas a cada novo potencial que surgir. A Premier League pode ser um passo grande demais para um iniciante, mas a Championship é vista como um ambiente ideal para o desenvolvimento desses jovens, servindo de “trampolim” rumo à primeira divisão.
— O Japão está produzindo bons jogadores também em quantidade, não só em qualidade. Então é natural que os clubes ingleses continuem a pinçar qualquer talento que mostre potencial. Se a Premier League é um passo muito grande para quem ainda está em início de carreira no Japão, incluindo Kota Takai que acabou de chegar no Tottenham, a Championship pode ser um cenário ideal para desenvolver esses talentos — concluiu Tiago.
Quantos jogadores asiáticos jogam na Premier League e na Championship 2025/26?
- Premier League — 7 (sendo cinco japoneses e dois sul-coreanos)
- Championship — 12 (sendo nove japoneses e três sul-coreanos)
Brexit e mudanças nas regras de contratação
O Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia, trouxe mudanças significativas para o futebol britânico, especialmente no mercado de transferências. Antes dele, jogadores de qualquer país da UE podiam se mudar para o Reino Unido sem restrições de visto de trabalho, o que tornava a contratação de talentos europeus muito mais fácil e vantajosa financeiramente.
Com o Brexit, isso acabou. Agora, todos os atletas estrangeiros, incluindo os da UE, precisam de uma autorização de trabalho, concedida através de um sistema de pontos — criado pela Football Association (FA) em parceria com a Premier League e a English Football League (a liga da segunda divisão inglesa).
Como funciona esse sistema de pontos?
Os pontos são calculados com base em três critérios:
- Partidas pela seleção: Quantos jogos o jogador disputou pela seleção principal ou de base;
- Qualidade do clube de origem/vendedor: O nível da liga em que o clube está inserido, a posição na tabela, a participação em competições europeias;
- Minutos jogados: O número de minutos que o jogador atuou no campeonato nacional e em competições continentais.

Se um jogador não atinge a pontuação mínima, ele não pode ser contratado. Além disso, a contratação de estrangeiros menores de 18 anos foi proibida, e os clubes têm um limite de três atletas com menos de 21 anos por janela de transferências e seis por temporada.
Esse novo cenário dificultou a transferência de jovens promessas do velho continente que ainda não possuem carreira consolidada. Assim, diante das portas europeias mais restritivas, os times ingleses foram “forçados” a buscar alternativas em outras partes do mundo para encontrar novos talentos.
Mercados como o asiático e o sul-americano se tornaram mais atrativos, pois os jogadores desses continentes já estavam sujeitos a regras semelhantes de permissão de trabalho antes mesmo do Brexit. A mudança no sistema não foi tão impactante para eles quanto para os europeus.



