Premier League

Liderança, experiência e curto prazo: por que o Liverpool contratou Endo

Após perder nomes mais badalados e jovens, o Liverpool buscou um band-aid para o meio-campo - e trouxe um dos melhores que dava para achar

O primeiro impulso do Liverpool foi seguir a estratégia que adota desde a chegada de Jürgen Klopp. O desejo de contratar um novo primeiro volante tornou-se necessidade após as saídas de Jordan Henderson e Fabinho para a Arábia Saudita. Foram dias negociando por Roméo Lavia com o Southampton e um fim de semana de altos e baixos em que pareceu próximo de levar Moisés Caicedo. Em comum, são dois jovens que podem ajudar agora, mas têm potencial para serem donos da posição por muitos anos. Ambos foram para o Chelsea, e a prioridade virou o presente. Wataru Endo, confirmado nesta sexta-feira, não cumpre o perfil habitual dos reforços dos Reds, mas o que mostrou por Stuttgart e Japão o qualifica a ser a nova âncora do meio-campo.

A diferença mais fundamental é sua idade: 30 anos. Desde Ragnar Klavan, em 2016, Thiago é o único jogador com mais de 26 anos que exigiu investimento do Liverpool. Essa mudança de rota indica uma certa urgência em Anfield porque, depois de perder seus dois principais alvos para o rival Chelsea, preferiu não correr o risco de terminar a janela de transferências sem um especialista para a camisa 5. Trocou a projeção pela certeza de que terá alguém experiente para pelo menos encarar a próxima temporada. Uma quase certeza porque ainda precisamos ver como as qualidades de Endo na Bundesliga se transferem para o estilo da Premier League e para um nível de exigência e ambição maior que o do Stuttgart.

Existe a percepção de que Klopp conhece detalhadamente todos os jogadores da história da Bundesliga. E se é provável que ele já tenha trombado com Endo, a contratação vem com a provável bênção de duas figuras importantes. Uma delas é o diretor de futebol interino Jorg Schmadtke, que está conduzindo a janela de transferências do Liverpool e estava no Wolfsburg até o começo do ano. Esse sim sabe, ou deveria saber, tudo sobre Bundesliga. Outro é Sven Mislintat, o responsável por levar Endo do Sint-Truiden para o Stuttgart em 2019 e um amigo próximo de Klopp.

Caso ele tenha perguntado aos colegas se eles conheciam alguém pronto para chegar ao Liverpool e jogar imediatamente, independente da idade, uma espécie de band-aid para as fraturas no elenco causadas pela Arábia Saudita e pela inépcia das últimas semanas, Endo seria uma resposta natural. Não apenas pelas qualidades, mas também pela sua personalidade.

Como Endo pode ajudar o Liverpool?

Endo começou sua carreira no Shonan Bellmare e impressionou o bastante para acertar com uma das forças do Japão, em 2016. Pelo Urawa Red Diamonds, conquistou a Copa da J-League naquele mesmo ano e, logo depois, a Champions League asiática, atuando como lateral direito. A chegada à Europa foi por meio da Bélgica, com uma liga receptiva ao talento nipônico. Uma temporada pelo Sint-Truiden bastou para chamar a atenção de clubes mais ricos, ainda que tenha sido emprestado ao Stuttgart para disputar a segunda divisão em um primeiro momento.

O início foi como reserva, mas ganhou a posição a partir da 14ª rodada e foi um dos pilares do acesso. Desde que chegou à Bundesliga, apresenta a primeira qualidade que apela ao Liverpool: a durabilidade. Para um time traumatizado pelo excesso de lesões, muitas vezes no meio-campo, Endo provou estar sempre disponível. O Stuttgart disputou 102 jogos de Bundesliga desde a promoção. O japonês foi desfalque em apenas três: um por suspensão, um por coronavírus e outro por concussão. Simplesmente não se machuca.

Isso também pode ser uma espada de dois gumes porque significa que chega a uma liga mais exigente fisicamente, aos 30 anos, com uma quilometragem considerável nas costas. Mas a confiabilidade não parece ser um acaso. Todos os relatos dão conta de que é um profissional exemplar, dedicado, treina sempre com afinco e passa muito tempo na academia. São características que compõem o outro trunfo que pode representar ao Liverpool. Há um vácuo de liderança com as saídas de Jordan Henderson (capitão) e James Milner (vice-capitão). Endo era o capitão do Stuttgart e também usa a braçadeira de vez em quando pela seleção japonesa.

Terá que trabalhar para ganhar a confiança dos colegas nos vestiários, mas pelo menos tem o perfil que ficou em falta com as saídas de jogadores tão experientes. Em campo, a postura aguerrida e determinada deve fazer com que caia rapidamente nas graças das arquibancadas de Anfield. E com a bola no pé ou tentando tirá-la dos adversários?

As principais qualidades de Endo estão nas funções defensivas do meio-campo. E seus números são meio impressionantes. Segundo uma análise do The Athletic, desde 2020/21, quando subiu com o Stuttgart, é o jogador da Bundesliga que mais recuperou a posse de bola no último terço defensivo, que mais venceu duelos aéreos, apesar de ter apenas 1,78 metro, e que mais afastou o perigo, por baixo ou por cima. O segundo com mais recuperações no meio do gramado e em desarmes.

São números que precisam ser colocados em perspectiva porque a realidade de Endo mudou. O Stuttgart foi nono colocado assim que retornou, mas brigou contra um novo rebaixamento nas últimas duas temporadas. É um time acostumado a ser atacado, o que tende a inflar as estatísticas defensivas, por puro volume. Agora, o japonês está em um clube que, teoricamente, buscará a iniciativa na maioria das partidas e precisa ser mais preciso, principalmente para interromper contra-ataques e manter a pressão ofensiva. Os bons índices pelo alto e a força no desarme são promissores.

Como Endo, por enquanto, parece um substituto direto para Fabinho, o The Athletic também fez uma comparação entre ambos. Na parte defensiva, Fabinho se destaca mais em bolas recuperadas e interceptações, com Endo melhor na intensidade defensiva e no jogo aéreo. Com a bola no pé, a diferença é gritante: o novo reforço busca a progressão da posse por meio do passe e também gosta mais de arrancar e driblar. Naturalmente, tem um índice de retenção menor que o do brasileiro. Em português, perde mais a bola, um ajuste que precisará fazer para se encaixar em um time que dependerá menos da sua criatividade porque tem jogadores mais qualificados que o Stuttgart no setor ofensivo.

O Squawka também colocou os dois jogadores lado a lado. Essa comparação reforça que Fabinho tinha a tendência a dar passes mais seguros, para manter a posse de bola, em vez de tentar a jogada arriscada. O outro lado da moeda é que Endo criava mais chances pelo Stuttgart. Os índices de desarme e duelos ganhos pelo alto e por baixo são parecidos. O japonês leva vantagem na quantidade desses duelos e de bolas afastadas – novamente, dois atributos que podem ter sido inchados por estar atuando em um time que passava mais tempo defendendo do que o Liverpool deve fazer. Cometeu menos faltas que Fabinho.

Endo não é um primeiro volante de controle, como Sergio Busquets no Barcelona por exemplo, mas sabe quebrar uma linha e dar um passe um pouco mais sofisticado. Também não é artilheiro, embora 15 gols em 133 partidas pelo Sttutgart não sejam desprezíveis – muito menos o que marcou contra o Colônia em maio de 2022, aos 47 minutos do segundo tempo da última rodada, para cancelar o risco de rebaixamento dos suábios. Tem uma bela pancada de fora da área.

No Stuttgart, acostumou-se a atuar com outro volante ao seu lado – fez uma boa dupla com Orel Mangala, hoje no Nottingham Forest. Com a bola, essa configuração se mantém porque Klopp tem deslocado Alexander-Arnold para o meio. Na fase defensiva, porém, terá que se adaptar a ser o único jogador mais defensivo, atrás de Alexis Mac Allister e Dominik Szoboszlai.

Ele também chegou a jogar de lateral direito, o que pode ser útil porque ainda não há reserva para Alexander-Arnold, e também quebrou o galho como zagueiro – outro setor do Liverpool muito afetado por lesões recentemente. Não tem feito isso com frequência nos últimos anos, então deve ser uma opção apenas em emergências.

E o futuro?

O Liverpool não tem pudor em gastar o que precisa para contratar o jogador que se encaixa nos planos de Klopp. Por isso, estava disposto a quebrar a banca para ter Moisés Caicedo, até contradizendo uma famosa declaração que ele havia dado. Por isso, pagou tanto por Virgil van Dijk. Mas, se o reforço perfeito não estiver disponível, também não se importa em esperar. Van Dijk é novamente exemplo: o Southampton fez jogo duro no meio do ano, o Liverpool não contratou outro zagueiro e voltou à carga em janeiro de 2018.

No entanto, o meio-campo ficou tão desfalcado com as saídas de Henderson e Fabinho, além de Naby Keita, James Milner e Alex Oxlade-Chamberlain meses antes, que não dava para se dar ao luxo de fazer isso desta vez. Segue observando o mercado, de olho em Cheick Doucouré, do Crystal Palace, monitorando Ryan Gravenberch, do Bayern de Munique, ou esperando que alguma outra oportunidade apareça de repente. Pode ser que chegue ainda nesta janela. Pode ser que fique para janeiro ou para a próxima temporada.

Enquanto isso, fez um bom negócio, pagando apenas cerca de €20 milhões, por um volante forte defensivamente, com capacidade de fazer o jogo ofensivo andar, um profissional de primeira linha, experiente e um líder de vestiário. Como se adaptará a uma liga diferente, ao estilo de jogo de Klopp (o próprio Fabinho precisou de alguns meses quando chegou do Monaco) e às exigências de um time com ambições maiores são ponderações justas. Suas exibições na última Copa do Mundo, especialmente contra o estrelado meio-campo da Croácia, sugerem que não tem medo de cara feia.

Admitindo que toda contratação carrega um risco, porém, Endo é tanto uma bola de segurança para o curto prazo quanto dá para ser, e o futuro o Liverpool resolve depois.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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