Inglaterra

Ir de copas

Todo ano, quando algum time pequeno (se amador, melhor ainda) elimina uma força da Premier League, algum colunista de algum grande veículo inglês escreve um texto sobre “a magia das copas” ou “a mística das copas”. Eu ainda não vi nenhum texto com esse teor nesta semana, mas houve bons motivos para falar no assunto.

Veja só o que rolou. Nas semifinais da Copa da Liga, um Manchester United meio petulante venceu o Derby County por 4 a 2, mas um golzinho que sofresse no final levaria a decisão para a prorrogação, com os alvinegros tendo vantagem do empate. No dia seguinte, o Tottenham jogou no lixo uma vantagem de 4 a 1 sobre o Burnley no jogo de ida e só se classificou com dois gols nos dois últimos minutos da prorrogação.

Neste fim-de-semana, pela FA Cup, Liverpool e Everton fizeram um tenso clássico de Merseyside. Além disso, Arsenal e Aston Villa empataram com equipes de divisões menores e precisarão de jogo-extra, sorte que o Portsmouth não teve, ao perder em casa para o Swansea, time galês que faz parte da liga inglesa. Além disso, o sorteio da próxima fase já colocou o vencedor do replay de Everton x Liverpool com o vencedor do replay de Aston Villa x Doncaster.

Tudo muito legal, os ingleses se divertiram muito, os estádios estiveram cheios e ninguém põe em dúvida a importância esportiva e histórica da FA Cup. Mas ninguém também usa a Copa da Inglaterra como gancho para propor o fim dos pontos corridos no Campeonato Inglês. Isso ocorre porque os britânicos souberam separar as duas coisas e criar uma competição em mata-mata com atrativos extras.

Um conceito importante da FA Cup é praticamente considerar todos os clubes iguais. Com exceção do fato de os representantes das principais divisões entrem em fases mais avançadas, a fórmula de disputa não dá vantagens para ninguém. Não há cabeças de chave, não há vantagem pré-determinada do mando, não há vantagem prévia de decidir em casa. Tudo se define por sorteio, mesmo que isso custe colocar Manchester United e Liverpool frente a frente, enquanto que uma outra chave pode ficar com Rushden & Diamonds x Torquay United.

Foi o caso da quarta fase desta edição. De um lado, Liverpool e Everton fizeram um equilibrado e aguerrido clássico. Desfalcados, os Toffees aplicaram sua estratégia de marcar muito e contar com bolas paradas para fazer algo. Conseguiram abrir o marcador e poderiam ter vencido – mesmo injustamente – os Reds, que tiveram uma lance de brilhantismo de Fernando Torres (toque de calcanhar para Gerrard empatar a partida) e, de resto, dominaram territorialmente, mas estavam pouco inspirados.

Enquanto isso, Derby County e Nottingham Forest empataram no dérbi de East Midlands. E o Coventry City, time que ficou famoso por passar 33 anos na primeira divisão sem fazer nada de notável a não ser escapar do rebaixamento sempre, bateu fora de casa o Torquay United, que em 2007/08 estava em uma divisão amadora.

Outro componente da mística da FA Cup são os jogos apenas de ida (com sorteio determinando o mando), aumentando enormemente a chance de zebra. É o ápice da incerteza e imprevisibilidade de um torneio. Os brasileiros, que dizem valorizar tanto o “friozinho na barriga” e a “incerteza do futebol” induzida por um mata-mata não pensam em abrir mão dos jogos de ida e volta, com o grande decidindo em casa.

Essa é a tal “magia das copas” que os ingleses debatem todo ano. E eles sabem que um torneio de mata-mata interessante complementa muito bem um calendário sólido de pontos corridos, pois mistura duas competições de conceitos diferentes e não há concorrência entre elas.

Reproduzir 100% do modelo da FA Cup no Brasil é infantil, pois nem sempre a solução adequada para uma cultura se aplica a outra. Mas a Copa da Inglaterra, com seu sistema centenário, se mostra moderno que a Copa do Brasil, que precisa carregar o subtítulo “o caminho mais curto para a Libertadores” para ser valorizado pelos torcedores. Como se um torneio como esse não pudesse ter um valor intrínseco, independentemente da premiação esportiva que ele dá.

Há fumaça

Você leitor, venderia por R$ 120 algo que não sofre desgaste pelo uso e que, há um ano, você comprou por R$ 490? Imagino que não. Pois foi isso que fez Roman Abramovich nesta semana. Uma atitude tão estranha e pouco usual de alguém tão experiente no mercado que suscita dúvidas a respeito de sua situação financeira.

A negociação não tem ligação direta com o Chelsea. No caso, tratasse de 10% das ações da Highland Gold, empresa de mineração russa da qual ele detinha 40% de participação. Com a transação, ele recebeu £ 12 milhões (cerca de € 12,74 milhões) por algo que ele comprou, há 13 meses, por £ 49,1 milhões (€ 52,12 milhões).

Claro que Abramovich comprou e vendeu de acordo com o preço de mercado na época, algo que caiu significativamente com a crise econômica mundial. O empresário russo, porém, sabe muito bem que, em médio prazo, a tendência é de estabilização e os valores aumentariam um pouco.

A venda no período de maior baixa das ações sugere que ele precisasse do dinheiro com certa urgência e se disporia a perder quase € 40 milhões. Por mais grave que seja a crise mundial, ninguém imagina que o dono do Chelsea esteja com problemas para pagar as contas da casa. Assim, a suspeita lógica é que seu patrimônio tem pouca liquidez (capacidade de um ativo de ser convertido em outro, sobretudo em dinheiro vivo), com concentração maior em ações em baixa, imóveis e arte.

Abramovich nega que esteja com dificuldades. De acordo com assessores, a venda das ações da Highland Gold foi motivada pela ideia de atrair os dois compradores – Alexander Abramov e Alexander Frolov, dois sócios do dono do Chelsea em outros negócios – para dentro da empresa, que ganharia com a experiência de ambos no mercado de mineração.

O russo ainda argumenta que o corte de gastos nos Blues não está ligado à crise, mas a uma reação natural das empresas em um momento de crise generalizada. De qualquer modo, é sabido que o Chelsea não fechou uma temporada sequer no azul desde que Abramovich chegou a Stamford Bridge. A especulação de que o empresário teria oferecido o clube londrino a investidores árabes também é negada com veemência.

A história da venda do Chelsea aos árabes parece realmente pouco consistente. No mínimo, precisa de mais indícios para ter suporte. No entanto, a venda das ações e o corte de gastos do clube servem de alerta. Abramovich até tem suas explicações prontas, mas, quando tantos fatos apontam para a mesma direção…

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Equipe Trivela

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