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Inverno sem fim

Enquanto o futebol na maioria dos países da Europa para na virada de ano, a Inglaterra segue por um caminho inverso. Exatamente no período de festas se inicia uma maratona incessante nas três principais competições inglesas. Entre 26 de dezembro e 11 de janeiro, foram apenas quatro dias sem que nenhum clube da primeira divisão entrasse em campo, seja pelo Campeonato Inglês, pela Copa da Inglaterra ou pela Copa da Liga.

A situação desgastante volta a levantar um debate cada vez mais atual: há a necessidade de se criar uma pausa de inverno no país? Na Alemanha, na Espanha e na Itália, por exemplo, a bola parou de rolar entre os dias 21 e 22 de dezembro. La Liga e a Serie A já retomaram as atividades na primeira semana de 2012, enquanto a Bundesliga só retornará no dia 20. Enquanto isso, os clubes ingleses perdem a cada semana novos jogadores, prejudicados pelo ritmo forte de jogos e treinos.

Um dos times mais afetados por essa sequência está o Manchester City. Foram cinco partidas em apenas 17 dias, incluindo uma folga de apenas 48 horas entre os confrontos ante Sunderland e Liverpool pela EPL. Para piorar a situação, os Citizens ainda enfrentaram derbies contra Manchester United e Liverpool pelas copas. Entre as reclamações de Roberto Mancini quanto às opções de seu elenco, ganha destaque o pífio aproveitamento de 26,6% dos pontos disputados no período.

Apenas quatro times do Campeonato Inglês passaram invictos pela maratona recente, sendo que três deles (Stoke, Sunderland e Swansea) fizeram quatro jogos. Já o Tottenham obteve 86% de aproveitamento nas cinco partidas que fez. Ainda assim, o técnico Harry Redknapp preferiu evitar um cansaço maior de seus jogadores, escalando apenas reservas contra o Cheltenham Town, pela Copa da Inglaterra.

O que os personagens do espetáculo acham

Ainda em 2010, o executivo-chefe da Premier League, Richard Scudamore, rechaçou a possibilidade de readaptar o calendário para a criação de uma pausa de inverno. Entre as propostas estudadas estava mesmo a redução no número de participantes na elite do futebol inglês, indo dos atuais 20 clubes para 18, como na Alemanha.

“Temos que olhar para a culpa de nossos amigos da Fifa e da Uefa. A Uefa usava 13 dias de jogo e agora eles querem 21. A Fifa usava nove ou dez datas internacionais e agora, em média, tem 12. Alguém precisa ceder. Se tivéssemos 18 equipes, isso significaria passar de 380 eventos para 306 e não há nenhuma maneira de fazermos isso, por conta do interesse dos torcedores”, afirmou.

Na ocasião, a federação respondia a Fabio Capello. Após a eliminação na Copa do Mundo da África do Sul, o italiano apontou a ausência de uma pausa no inverno como motivo do desempenho abaixo das expectativas: “A Alemanha estava em boas condições porque a Bundesliga fica suspensa por um mês. Na Itália, Espanha e outros países, eles têm duas semanas, mas na Inglaterra é impossível, porque temos quatro competições. Todos os torneios são realmente duros e os mesmos times chegam à final. Clubes que possuem os melhores jogadores”.

“É impossível achar um espaço para a pausa no inverno, mas nós temos que mudar algo antes da próxima temporada. Eu lembro quando a Dinamarca ganhou a Eurocopa de 1992. Eles estavam na praia e chegaram quatro dias antes do primeiro jogo, depois que a Iugoslávia foi excluída. Isso mostra que não é preciso uma grande preparação, mas ao menos que os jogadores não estejam cansados”, completou o raciocínio.

Ao lado de Capello, algumas vozes de peso se posicionam a favor do período de descanso na virada do ano. Um movimento que ganha coro entre técnicos e jogadores. Em 2002, Wenger chegou a se reunir com Gérard Houiller, então treinador do Liverpool, para discutir o assunto. Entre os partidários da ideia estava Sven-Goran Eriksson, técnico da seleção inglesa na época.

Alex Ferguson também atribuiu a eliminação inglesa na Copa do Mundo de 2010 como consequência direta do calendário: “A FA precisa dar ao país a melhor chance possível de ir bem na Copa. Eles precisam realizar a ideia da parada de inverno, que tirou o time deles do Mundial. A temporada inglesa é exaustiva. Quando chega o fim da temporada e há competições como a Euro e a Copa, os jogadores não estão 100% em forma”.

Da mesma forma, Wayne Rooney ressalta o estilo do futebol inglês como um agravante: “Uma pausa de inverno poderia ajudar não apenas a seleção, mas também a EPL. É uma grande ideia, especialmente na Inglaterra, onde o jogo é bastante rápido e intenso”. Recentemente, Yaya Touré afirmou que os desfalques gerados pela Copa Africana de Nações são potencializados pela falta de uma parada no fim do ano.

Por outro lado, é mais raro encontrar treinadores ou atletas favoráveis à disputa contínua, como José Mourinho: “Haverá uma pausa aqui na Espanha, mas prefiro jogar, gosto de dar às pessoas o que elas querem. As pessoas que amam futebol gostam de ver o esporte na semana de feriado. Os jogadores são artistas que dão o show. Mas precisamos adaptar a situação para que as famílias também possam passar uma semana especial com os atletas”.

Os números corroboram as palavras de Mourinho. Em nenhuma das dez partidas realizadas na rodada do Boxing Day houve queda nas médias de público. Em sete estádios, nos quais as médias são próximas à capacidade máxima, os números foram mantidos. Já Bolton, Sunderland e West Brom contaram com acréscimo de cerca de três mil torcedores em suas arquibancadas.

O exemplo escocês

Se na Inglaterra o debate não passa da teoria, o futebol escocês já conhece o outro lado da moeda. A pausa de inverno foi abolida da Scottish Premier League na temporada 2001/02. Antes disso, a tradição do Boxing Day e das rodadas de fim de ano era respeitada. A competição, entretanto, parava logo no dia 1º de janeiro e só era retomada quatro semanas depois.

Na época da mudança no calendário, os técnicos se posicionaram fortemente contra a decisão. A frase mais emblemática foi de Alex McLeish, técnico do Rangers: “Isso foi uma mudança de rumos, mas agora estamos na idade das trevas. Há muitos amistosos internacionais e congestionamento de rodadas, mas ainda acho bom ter uma pausa”.

Esta ainda é a opinião de Martin O’Neill, que comandava o Celtic naquele período e hoje está no Sunderland: “Eu experimentei a pausa duas vezes em cinco anos e, em uma dessas temporadas, o Celtic chegou à final da Copa da Uefa. Não acho que foi coincidência. Que continue a tradição de Natal e Ano Novo, mas, depois da terceira rodada da FA Cup, talvez pudéssemos parar”.

Na Escócia, porém, a discussão hoje toma outros desdobramentos. A principal bandeira levantada no país é a de uma mudança radical na organização do futebol local, adotando o calendário solar para a realização do campeonato – o que inclusive ganha força em outros países.

Enquanto isso, a Inglaterra segue sem evoluir no debate. Uma solução possível, mantendo as rodadas de fim de ano, seria adotar um calendário semelhante ao da Escócia pré-2001. O efeito colateral seria um remanejamento das rodadas da Copa da Inglaterra e, principalmente, da Copa da Liga – cujo desinteresse dos principais clubes do país é notável. Até lá, a FA prefere deixar o futebol local “na idade das trevas”.

O jogo de forças

Entenda os argumentos favoráveis e contrários à pausa de inverno na Inglaterra

Prós

– Menos contusões e maior tempo de recuperação para quem já está machucado;
– Elencos mais enxutos, por conta das melhores condições dos jogadores;
– Jogadores mais preservados fisicamente para a seleção inglesa;
– Times mais inteiros para a disputa da Liga dos Campeões;
– Menor tempo de ausência dos jogadores que disputam a Copa Africana de Nações e da Copa da Ásia;
– Melhores condições dos gramados, evitando adiamentos de partidas por conta do clima;
– Melhor planejamento para as ações na janela de transferências;

Contras

– A tradição do Boxing Day e das rodadas de fim de ano no Reino Unido;
– O interesse dos torcedores pelas rodadas fim de ano, que possuem as maiores médias de público da temporada;
– O interesse da televisão, que poderia reduzir os valores dos contratos pelos direitos de transmissão em caso de pausa;
– A manutenção do ritmo de jogo dos atletas, que poderia ser prejudicada com uma parada muito longa;
– O excesso de datas ocupadas por competições da Uefa e da Fifa, que espremeriam o calendário no futebol inglês;
– A impossibilidade em se reduzir o número de times na Premier League ou o número de jogos nas copas nacionais;

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Equipe Trivela

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