Gyokeres no Arsenal: Como encaixa no time, o que leva de novo e preocupações
Gunners terão um dos maiores goleadores do mundo, mas como ele pode traduzir seu desempenho em Portugal na Premier League?
Viktor Gyokeres completou sua tão aguardada transferência ao Arsenal. O clube londrino “namorou” o atacante há meses e pôde finalmente fazer o tão sonhado upgrade do seu centroavante.
Segundo informou o jornalista italiano Fabrizio Romano nesta terça-feira (22), os Gunners desembolsaram 63,5 milhões de euros, mais 10 milhões de bônus (R$ 480 milhões no total), e fecharam um contrato de cinco anos pelo atacante.
O sueco vem de duas temporadas históricas no Sporting: foram 97 gols e 28 assistências em 102 jogos, uma média absurda de 1,22 envolvimento em gol por jogo. Mas como isso pode se traduzir em sua ida à Premier League?
O que Gyokeres leva de novo ao Arsenal
O estereótipo da recente geração de sucesso de atacantes nórdicos se aplica a Gyokeres: o sueco é o clássico centroavante alto, forte, explosivo, que está no seu melhor quando atuando com campo aberto para correr nas costas dos zagueiros.
A busca por um camisa 9 efetivo no Arsenal também passa pela ausência que o elenco tem dessas características. Gabriel Jesus, Kai Havertz e até Leandro Trossard, que foram os jogadores mais adiantados, têm todos valências mais voltadas à bola no pé, troca de passes e criação com dribles e tabelas.

Gyokeres leva ao Emirates Stadium a força de um centroavante que pode ser alvo em lançamentos como pivô, bolas áreas em cruzamentos e também passes em profundidade para chegar ao último terço com grandes chances de uma finalização perigosa — o que é um banho de renovação para o elenco.
Segundo dados do “SkillCorner”, o sueco é, estatisticamente, um dos principais atacantes do mundo no que diz respeito ao ataque a espaços nas costas da defesa. Em um recorte de centroavantes nas sete principais ligas europeias:
- Tem números maiores do que 89% dos jogadores em corridas nas costas da última linha defensiva;
- Tem mais corridas laterais do que 82% dos atletas no recorte.
A plataforma também indica que Gyokeres fez 85 corridas com mais de 25km/h por trás da defesa na última temporada — um número elevadíssimo. Foi o líder isolado do Campeonato Português (Samu, do Porto, foi o segundo, com 41) e ainda bem superior ao líder do quesito na Premier League, Nicolas Jackson (61).
A principal característica positiva que o sueco leva ao time de Mikel Arteta é essa: um centroavante que vai atacar a defesa em alta velocidade de forma incansável, inúmeras vezes por jogo, com força e técnica. Mas isso pode não ser traduzido em sua plenitude na Premier League.
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As preocupações: nível de enfrentamento e fiscalidade da Premier League

Tem sido levantados pontos de dúvida sobre o quão dominante Gyokeres poderia ser na Premier League, um campeonato mais físico, intenso e de mais duelos, mas também mais técnico do que o português.
Antes de ir ao Sporting, o sueco teve sucesso no Coventry City, sendo artilheiro da equipe na Championship e a uma vitória de levá-la à primeira divisão inglesa. Sua única experiência na elite nacional foi durante breve passagem pelo Brighton, onde teve oito jogos e um gol.
Na época, no entanto, ainda era um jovem de potencial e sem o porte físico que conquistou nos últimos anos. A tendência é que ele não se sobressaia tanto quanto em Portugal, mas não necessariamente por questões físicas individuais — e sim sobre um conjunto de todo o contexto tático da Premier League.
A maior questão para Gyokeres será justamente o espaço. Por mais que o futebol inglês seja menos pausado que em outros centros, como na Espanha, e mais de transições, o atacante definitivamente terá menos espaço para atacar nas costas da defesa como tanto fez com sucesso no Sporting.
Principalmente pela forma como o Arsenal joga: um time que constrói com passes mais curtos, progride com o time inteiro como unidade e geralmente faz as defesas adversárias se compactarem mais próximas ao gol.
Birthday boy: @viktor_gyokeres 🫱🫲 #BdaySCP pic.twitter.com/actNczQa1V
— Sporting CP (@SportingCP) June 4, 2025
Mais do que isso, os Gunners eram propositalmente lentos. Por mais que fosse um dos melhores times em pressão da liga (o quarto em roubos de bola fora do seu terço defensivo), apenas 6,7% das recuperações de bola do Arsenal resultaram em finalização — o terceiro pior número da liga, segundo o “The Athletic”.
Curiosamente, é nisso que o sueco pode ajudar o time de Arteta. Pode fazer com que o time seja mais rápido de forma eficiente e tenha mais armas para agredir os adversários em transições, algo que faltou à equipe na última temporada.
Onde Gyokeres encaixa em um Arsenal pausado e dominante?
Se não tiver espaço para atacar a profundidade, como o artilheiro de quase 100 gols em duas temporadas pode ajudar os Gunners? Seu movimento sem bola pode mudar muita coisa na forma como o time londrino entra no último terço.
Como reforçado, Gyokeres está entre os 18% de centroavantes com mais corridas laterais entre as sete principais ligas europeias. Esse movimento pode causar algumas implicações no sistema ofensivo do Arsenal:
- Suas corridas laterais podem ajudar na progressão pelo lado esquerdo: o time de Arteta teve a pior proporção da Premier League de toques no último terço vindos do lado esquerdo, apenas 32,9%. Seus ataques eram concentrados na direita (43%), com Bukayo Saka e Martin Odegaard, principalmente;
- Se não tiver espaço para atacar nas costas da defesa, pode puxar a marcação correndo lateral ou diagonalmente. Isso gera um efeito cascata: caso o zagueiro o acompanhe, liberará espaço e quebrará a estrutura defensiva; caso não acompanhe, gerará a dúvida sobre quem deve seguir o sueco, e esses poucos segundos e metros de indefinição são cruciais no jogo de alto nível;
- Se encontrar o espaço atrás da zaga, tende a ser letal em frente ao gol, então pode obrigar a linha defensiva a ficar cada vez mais perto do próprio gol — algo semelhante ao perigo gerado por Erling Haaland no Manchester City. Isso abre espaço no “funil”, a região frontal bem em frente à área, a mais perigosa do campo, estatisticamente.

Apesar de não ser sua principal característica, o sueco mostrou bons momentos pelo Sporting quando precisou dar as costas à defesa, fixar um zagueiro e manipular o posicionamento dos defensores na área, tanto para abrir espaço para companheiros, quanto para receber como pivô, girar e finalizar.
E isso pode ser positivo para o jogo de cruzamentos de Arteta: na última Premier League, nenhum time cruzou tanto quanto o Arsenal com a bola rolando, mas os Gunners tiveram o segundo pior aproveitamento da liga na conversão destes cruzamentos em chances — apenas 10,2%.
Gyokeres pode justamente ser o alvo destes cruzamentos para cabeceios, finalizações pelo chão ou trabalhos de pivô para servir companheiros. Curiosamente, no entanto, o sueco, apesar de ter 1,87m de altura, não marcou um gol sequer de cabeça no Sporting na última temporada. Também vale ressaltar que apenas 12,5% das suas finalizações foram com a cabeça, mas não deixa de ser um número preocupante.
Por mais que haja a preocupação sobre disputa física, o nível dos enfrentamentos em Portugal e na Inglaterra, a falta de gols de cabeça e o pouco espaço que ele terá na Premier League, é difícil não comparar Gyokeres com Haaland. O norueguês, apesar dos números históricos, também tem tido dificuldade de imprimir seu jogo mais confortável: enfrentar a defesa com espaço.
E mesmo assim ele consegue — é quem encontra o espaço onde outros centroavantes acham que não teria. Quem abre o espaço com sua fiscalidade. Quem coloca o pé em um intervalo pequeno e acha o gol “feio”. E é exatamente o que Gyokeres pode fazer pelo Arsenal.



