Inglaterra

Guardiola não pedirá desculpas após ser criticado por ter cobrado presença maior da torcida do Manchester City

Após público relativamente baixo contra o Leipzig, Guardiola cobrou arquibancadas mais cheias no fim de semana e foi criticado por um representante do grupo de torcedores do City

Uma pequena rusga surgiu entre o grupo oficial de torcedores do Manchester City e o técnico Pep Guardiola após a vitória por 6 a 3 sobre o RB Leipzig na última quarta-feira. O catalão havia convocado a torcida a encher o estádio contra o Southampton neste fim de semana, após um público baixo para o jogo de Champions League, o que levou um representante da torcida a dizer que ele deveria “se limitar a ser técnico”. Nesta sexta, Guardiola afirmou que foi mal interpretado e se recusou a pedir desculpas pelas suas declarações.

Faz anos que as arquibancadas do Etihad Stadium têm uma relação conturbada com a Uefa. O Manchester Evening News citou um caso da Liga Europa de 2011/12, quando torcedores do Porto fizeram ofensas racistas contra Mario Balotelli, e o clube português foi multado em € 20 mil. No mês seguinte, o City recebeu sanção de € 30 mil por ter atrasado 30 segundos para o segundo tempo. Algumas temporadas depois, em 2014, a Uefa puniu o Manchester City por violações do Fair Play Financeiro com multa e restrições à inscrição de jogadores nas suas competições.

Desde então, não são raros os jogos em que os torcedores do City vaiam o hino da Champions League. A mais recente disputa entre as entidades, quando a Uefa excluiu o clube de seus torneios por duas temporadas – por novas violações do Fair Play Financeiro – antes de a Corte Arbitral do Esporte reverter essa punição, não contribuiu para aplacar a acusação de parte da torcida de que há um complô para impedir a ascensão de clubes como o City e manter o status quo.

Isso se reflete no público dos jogos. Apesar do trocadilho dos adversários – “Emptyhad” -, o Etihad Stadium costuma lotar para partidas de Premier League. A média nas três temporadas anteriores à que foi paralisada por causa da pandemia, ou seja, as últimas em condições normais, foi de aproximadamente 54 mil pessoas por jogo do City como mandante, bem próximo à capacidade máxima de 55 mil.

Na Champions , especialmente na fase de grupos, a história é diferente, e há mais exemplos de partidas com públicos baixos como essa mais recente contra o RB Leipzig, com apenas 38 mil pessoas. Em 2018, foram 40 mil contra o Lyon. Em 2017, 43 mil para enfrentar o Feyenoord e 45 mil contra o Shakhtar Donetsk. Uma partida contra o Borussia Monchengladbach em 2016 foi especialmente vazia, com apenas 30 mil almas.

Guardiola não pareceu irritado na declaração à BT Sport após a vitória sobre o Leipzig. Estava empolgado com o jogo e sorria enquanto convocava a torcida. Mas foi uma cutucadinha, e uma meio confusa porque o Manchester City não tem dificuldade para atrair público à Premier League. A questão são partidas menos importantes da Champions. “Nos últimos três jogos que fizemos aqui, marcamos 16 gols. Eu queria que viesse mais gente no próximo, no sábado. Precisamos de mais gente no sábado, por favor. Estaremos cansados. O time de Ralph (Hasenüttl) é bem similar na maneira como joga. É muito perigoso. É um jogo importante para nós. Convido toda nossa torcida para vir no próximo sábado, às 15h, para ver o jogo”, afirmou, à BT Sport.

Mas de qualquer maneira, a contradição da declaração crítica de Guardiola não passou despercebida pelo secretário-geral do grupo de torcedores oficial do City, Kevin Parker. “Claro que ele quer casa cheia, mas eu não sei por que ele questiona se teremos uma contra o Southampton no sábado”, afirmou. “É um cenário diferente. Jogamos duas vezes em casa no sábado e o estádio – do ponto de vista do City, pelo menos, o Norwich não vendeu todos seus ingressos – esteve cheio nas duas ocasiões. Acho que ninguém do clube deveria questionar a lealdade dos torcedores. É frustrante”.

Paker foi mais longe ainda e disse que Guardiola deveria se limitar a treinar o time. “Fiquei supreso. Não sei o que isso tem a ver com ele. Ele não entende as dificuldades que algumas pessoas têm de chegar a um jogo no Etihad em uma noite de quarta-feira às 20h. Elas têm filhos, podem não ter dinheiro, ainda há alguns problemas de Covid… Não sei por que ele comenta sobre isso. Ele é absolutamente o melhor técnico do mundo, mas, da maneira mais gentil possível, acho que talvez ele deveria se limitar a isso. Distrai do que foi uma boa noite. As pessoas estão falando mais sobre os comentários de Pep do que sobre um jogo fantástico”, disse.

E ainda serviu de munição para os torcedores rivais que tiram sarro dos públicos baixos do City – raras vezes com razão além da brincadeira. “Questionar a torcida, que é efetivamente o que ele está fazendo, é decepcionante e desnecessário. Cai no colo dos torcedores de outros times que querem aproveitar cada oportunidade para bater no City pelo que eles acham que são públicos ruins. As pessoas se referem ao Etihad como ‘Emptyhad’. É um pouco de brincadeira dos torcedores rivais, mas não há justificativa para isso. Nossos públicos são geralmente excelentes”, completou.

Agora bem mais incomodado, Guardiola afirmou que foi mal interpretado em suas declarações e que nunca disse que estava decepcionado porque o estádio não ficou cheio contra o Leipzig – o que é mais ou menos verdade porque “queria que viesse mais gente no próximo jogo” chega bem perto disso. “Interpretação é interpretação. Não pedirei desculpas pelo que eu disse. Estou surpreso com o que aconteceu com esse homem”, disse, referindo-se a Parker. “Não foi a primeira vez na minha carreira que disse. O mesmo no Barcelona e no Bayern de Munique. Você faz um jogo difícil de Champions League, sabendo que tem mais três dias e que o Southampton teve toda a semana para se preparar. Busquei uma abordagem para fazermos algo juntos no sábado, às 15h. O que disse é que adoraria, e precisava, do apoio deles. Fossem 10.000 pessoas, 50.000, 40.000, não importa quantos viessem. Eu os convido a vir e se divertir com o jogo”.

“Se depois de cinco temporadas, as pessoas não conseguem entender meu comportamento é porque não querem entender exatamente o que eu disse. Não pedirei desculpas nem por um segundo porque eu fui honesto. Prefiro estar com minhas pessoas do que sem minhas pessoas. Mas, se elas não quiserem vir por qualquer motivo, perfeito. Se vierem, será um prazer. O senhor Parker deveria revisar seus comentários. Não pedirei desculpas para ele, absolutamente não”.

“Somos quem somos. Conheço a história. Aprendi a história. Este clube nas divisões inferiores, o que significa torcer para este time. Não quero ser que nem o United, Liverpool, Barcelona, Bayern de Munique, Real Madrid – como todos os grandes clubes. Não coloque palavras na minha boca. Não gosto disso. Foi difícil contra o Leipzig. Estávamos exaustos. Eu vi no vestiário. Naquele momento, eu pensava sobre o jogo do Southampton em três dias”, encerrou.

Independente do espírito em que a declaração foi dada, pareceu mesmo uma cobrança à torcida do City por um público baixo contra o RB Leipzig, mesmo que em tom mais leve. Se a intenção de Guardiola era energizar as arquibancadas para um jogo que considera difícil no próximo sábado, bom… será que deu certo?

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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