Inglaterra

Grant, de vilão a vítima no Chelsea

Desde setembro, quando Avram Grant assumiu o comando do Chelsea, estava claro para todo mundo que o israelense só foi escolhido para o cargo porque era amigo de Roman Abramovich. Agora, em maio, Grant foi demitido exatamente pelo mesmo motivo: por ser amigo de Abramovich.

Se o público em geral, com razão, torcia o nariz para o técnico, pela maneira como ele ganhou o cargo, Grant agora passou a contar com razoável simpatia, devido à forma como foi mandado embora. A diretoria do Chelsea errou ao contratá-lo – o que não quer dizer que tenha acertado ao mandar o israelense embora.

Peter Kenyon, chefe executivo do clube, disse que Grant foi demitido porque seus resultados “não foram bons o bastante”. É preciso muita, mas muita cara-de-pau para afirmar isso. Quando Grant assumiu, fazer uma campanha digna (tipo chegar às quartas-de-final) na Liga dos Campeões e ficar em terceiro lugar no Campeonato Inglês já seriam considerados resultados satisfatórios. Embora Mourinho seja um grande técnico, é indiscutível que, até aquele momento, o Chelsea estava jogando mal – muito mal. Ao ser vice-campeão inglês e da LC, Grant não só superou as expectativas que se tinha para seu trabalho como se manteve no mesmo nível do próprio Mourinho, em termos de resultados: não ganhou a League Cup nem a FA Cup, mas fez melhor campanha nos dois torneios mais importantes da temporada.

O que aconteceu, na verdade, é que nem a torcida, nem a imprensa, nem os jogadores engoliram a contratação de Grant. Apesar de as críticas terem sido atenuadas nos últimos meses, dadas as chances de título que o Chelsea mantinha, o fato é que a contratação de um cara que não tinha currículo compatível com um cargo tão importante pegou muito mal. Aí a diretoria aproveitou a derrota na final da LC para mandar Grant embora e tentar manter um ar ‘profissional’ – ainda mais sabendo que, depois da Eurocopa, diversos técnicos ‘top’ estarão disponíveis no mercado. Foi pior a emenda que o soneto. Mais uma vez, a ‘board’ do Chelsea é criticada pelo amadorismo e pela impulsividade.

O mais ridículo é lembrar que, em dezembro, Grant assinou um contrato de quatro anos com o Chelsea. Sim, após apenas três meses no cargo, a diretoria já julgava que o técnico havia feito o suficiente para merecer confiança. Agora, só porque John Terry escorregou na hora de bater um pênalti, Grant virou um idiota e deixou de ser digno de treinar o Chelsea. Então tá.

Não se trata, aqui, de defender Avram Grant, nem de dizer que ele é um bom técnico. Na verdade, pelos resultados que se viram nesta temporada, não dá para dizer nada sobre o israelense: a opinião geral na Inglaterra é que ele pegou um time ‘pronto’, montado por Mourinho, mas teve inteligência suficiente para não comprar brigas à toa e manter o time no curso certo – sempre lembrando que o Manchester United, de fato, tem um elenco mais forte e é natural que tenha ficado à frente dos Blues.

Para conhecer a real competência de Grant, seria preciso mais uma temporada com ele no cargo. Aí, o time, necessariamente, ficaria mais com a sua ‘cara’. Mas a diretoria do Chelsea negou essa oportunidade. E deu a Grant a chance de ir embora posando de vítima.

Heróis e amarelões

Na final da Liga dos Campeões, aos 11 minutos da prorrogação, Ryan Giggs recebeu a bola na marca do pênalti e, com Cech caído, chutou colocado. Mas aí John Terry fez uma ‘defesa’ espetacular com a cabeça, evitando o gol que certamente decidiria o título da LC. Para todos os envolvidos, teria sido muito melhor que aquela bola tivesse entrado.

Decisões por pênaltis não são legais. Fica aquela sensação de acaso no ar, de insatisfação. Muito mais interessante seria que a final fosse decidida na prorrogação, ainda mais se fosse com um gol de um jogador emblemático como Giggs.

Além do público em geral, quem perdeu muito, mas muito, com o ‘shootout’ foi Cristiano Ronaldo. Apesar de ter desaparecido de campo depois que o Chelsea empatou, o português vinha conseguindo apagar a fama de ‘amarelão’ por ter marcado o gol do Manchester. Mas aí perdeu o pênalti. Aliás, não só desperdiçou a cobrança como bateu de maneira claramente insegura (para dizer o mínimo).

Terry foi outro que saiu em baixa com os pênaltis. Ele tem muito crédito por sua dedicação ao time e pelo gol que salvou no lance de Giggs, e por isso ninguém vai crucificar o jogador por ter escorregado na hora de bater o pênalti. Mas que ele tremeu, tremeu. Em 99% dos casos, quem escorrega, tropeça ou algo do gênero na hora de cobrar uma penalidade o faz porque estava inseguro (em tempo: Terry não é um ‘amarelão’, mas também não é um bom cobrador de pênaltis).

Aliás, Drogba também merece um puxão de orelha. O marfinense fez ótima temporada e apareceu bem na final, mas foi expulso de maneira infantil e realmente fez falta na hora dos pênaltis. Segundo relatos, Grant teve dificuldades para achar cinco batedores, e Terry acabou entrando no lugar que seria de Drogba. Se o atacante estivesse em campo, o resultado poderia ter sido diferente.

Mas o grande vilão das penalidades foi mesmo Nicolas Anelka. E o fato de o francês ter perdido o pênalti decisivo foi o de menos. Ridículo foi o que ele falou depois, quando reclamou por ter sido colocado em campo com pouco tempo de aquecimento, usando isso como justificativa pelo papelão de se recusar a bater um dos cinco primeiros pênaltis. Quando foi ‘forçado’ a cobrar a sétima penalidade, o fez de má vontade e já saiu de campo com a desculpa pelo erro pronta na ponta da língua. Isso é Anelka. E ter contratado o francês talvez fosse a melhor justificativa para a demissão de Grant.

Para não dizer que ninguém saiu com a cabeça erguida das cobranças de pênaltis, alguns nomes merecem menção. Anderson e Belletti foram jogados na fogueira e converteram suas cobranças, tirando todo crédito que a desculpa esfarrapada de Anelka poderia ter. Autor do gol do Chelsea no primeiro tempo, Lampard também converteu e mostrou que não é amarelão. E Giggs, que naquela noite tornava-se o jogador com mais partidas disputadas pelo Manchester United e perdeu um gol feito na prorrogação, teve a honra de converter o pênalti que acabou dando o título aos Red Devils. Ironias do destino…

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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