Inglaterra

Glenn Hoddle, 60 anos: O meia excepcional que marcou época no Tottenham, mas permanece subestimado

Numa época em que virou praxe apontar a escassez de talentos nativos no futebol inglês, em especial pela profusão de estrangeiros de qualidade em atividade na Premier League, a trajetória de Glenn Hoddle, que completa 60 anos nesta sexta-feira, remonta a um outro momento histórico. Um período em que jogadores de categoria indiscutível eram encontrados também entre os locais, ainda que sofressem com a perene desconfiança dentro do ambiente futebolístico britânico. O meia que marcou época no Tottenham nos anos 80 e brilhou até fora da ilha, no Monaco, mereceu elogios de grandes nomes do futebol mundial, mas permanece um tanto subestimado dentro da constelação de astros daquele período.

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Hoddle foi um dos jogadores mais habilidosos – talvez o mais – de sua geração de meias ingleses. Era um armador clássico, elegante, de excelente visão de jogo, drible curto, ótimo controle e condução de bola, precisão nos passes curtos e longos com ambos os pés e também nas cobranças de falta: o chute poderia sair forte (de longa distância), com veneno (de média) ou mesmo como um leve toque encobrindo a barreira, quando mais perto da área. O comediante inglês Jasper Carrott certa vez cunhou a brincadeira: “Vi uma manchete que dizia ‘Glenn Hoddle encontra Deus’. E então pensei: ‘Caramba, que passe!’”.

“Hoddle jogava do jeito que eu gosto de ver o futebol ser jogado”, declarou ninguém menos que Johan Cruyff. Os dois chegariam a se encontrar em campo na última temporada da carreira do genial holandês, atuando pelo Feyenoord contra o Tottenham pela segunda fase da Copa da Uefa de 1983-84. Como numa espécie de passagem de bastão geracional, o time de Roterdã trazia ainda um jovem que em breve daria o que falar chamado Ruud Gullit. Mas naquele confronto, não teve para Cruyff, nem para Gullit. No jogo de ida, em White Hart Lane, os Spurs abriram 4 a 0 ainda no primeiro tempo, em quatro jogadas saídas dos pés de Hoddle (os visitantes diminuiriam para 4 a 2 no fim). Na volta, os londrinos fecharam a série vencendo também no De Kuip por 2 a 0. E Hoddle fez a assistência para Chris Hughton abrir o placar.

Nascido em Hayes, na região de Middlesex, filho de um antigo jogador amador (a quem muitas vezes acompanhava em viagens e peladas pela ilha afora), Glenn Hoddle já se destacava em equipes de garotos desde bem jovem. Como torcedor, adotou o Tottenham aos 11 anos, após assistir a uma partida dos reservas. As duas pontas se juntaram pouco depois, quando o garoto conquistou um torneio entre colégios da região de Harlow, Essex, onde morava, e recebeu a taça das mãos de Martin Chivers, centroavante com absurdo faro de gol do Tottenham de então (uma espécie de Harry Kane daquela época). Impressionado com o talento do meia, Chivers convidou-o para treinar na base do clube.

Seu primeiro jogo como profissional pelo clube veio em agosto de 1975, aos 17 anos, entrando durante uma partida contra o Norwich. Como titular, debutaria em fevereiro do ano seguinte, contra o Stoke, em grande estilo: marcando um bonito gol de fora da área vencendo Peter Shilton. Após um bom momento no início dos anos 70, quando conquistou uma Copa da Uefa, duas Copas da Liga e acumulou boas campanhas na liga, o Tottenham vivia tempos difíceis, de entressafra. Bill Nicholson, treinador histórico do clube, se aposentara em 1974, sendo substituído por Terry Neill e depois por Keith Burkinshaw, que não conseguiria evitar o rebaixamento ao fim da temporada 1976-77.

Burkinshaw não só seguiu no comando como delegou a Hoddle um papel importante no meio-campo, fazendo o jogador se firmar entre os titulares justo na hora mais difícil, na temporada que foi a única do clube fora da elite desde 1950 até hoje. Na volta à primeira divisão, no entanto, o meia ganhou um companheiro igualmente talentoso para dialogar no setor: o argentino Osvaldo Ardiles, recém-coroado campeão mundial pela seleção de seu país, que aportou em White Hart Lane trazendo consigo o compatriota Ricardo Villa, também integrante daquele elenco que levantou a Taça Fifa.

A ascensão e chegada aos Three Lions

Se as duas primeiras campanhas após o retorno à elite serviram para o Tottenham se assentar novamente na primeira divisão e ainda para que a dupla albiceleste se ambientasse ao futebol britânico, Hoddle já se colocava em outro patamar. Foi eleito o melhor jogador jovem da temporada 1979-80, na qual marcou 19 gols em 41 partidas pela liga. Também foi incluído pela primeira vez na seleção do campeonato (a qual voltaria a integrar quatro vezes pelas sete temporadas seguintes). E ainda estrearia na seleção, então sob o comando de Ron Greenwood, em novembro de 1979, marcando um bonito gol em chute colocado de fora da área na vitória por 2 a 0 sobre a Bulgária em Wembley, pelas Eliminatórias da Eurocopa.

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Num país de opiniões tão fragmentadas como a Inglaterra, naturalmente o meia também contava com sua horda de detratores. Jornalistas, treinadores, torcedores e até jogadores que valorizavam a combatividade e o espírito de luta mais do que quaisquer qualidades técnicas tachavam Hoddle do que costumam ser acusados os jogadores mais clássicos, de talento natural e evidente como ele: de faltar garra, de ser apático, de afinar quando o jogo endurecia e de se apagar em momentos decisivos. Esse tipo de mentalidade muitas vezes custou ao meia um lugar de relevo na seleção inglesa.

Em um trecho de seu celebrado livro de memórias de torcedor Febre de Bola, o escritor (e fanático pelo Arsenal) Nick Hornby relembra esse tempo e esse pensamento: “E também, é claro, houve a procissão de técnicos da seleção que trataram jogadores de real talento e habilidade – Waddle e Gascoigne, Hoddle e Marsh, Currie e Bowles, George e Hudson – donos de um futebol sutil e rebelde à disciplina, mas ao mesmo tempo muito mais valioso do que um par de pulmões de aço – com o mesmo tipo de desdém que em geral reservamos para corruptores de menores”. Brian Clough, técnico do Nottingham Forest, afirmava que “é preciso muita coragem moral para jogar como Glenn faz”.

Abrindo um parêntese, outro exemplo bem ilustrativo desse desdém vem do fato de que durante toda a Copa do Mundo de 1986 o talento explosivo de John Barnes só foi utilizado nos 16 minutos finais da partida contra a Argentina pelas quartas de final, quando Maradona já havia colocado a Albiceleste com dois gols de vantagem. O ponta-esquerda do Watford entrou e fez duas grandes jogadas de linha de fundo. Numa, Lineker anotou o gol que recolocou os ingleses no jogo. E na outra, o mesmo atacante ficou a milímetros de empatar a partida. Fecho o parêntese.

Na seleção inglesa sob o comando de Ron Greenwood, Hoddle era tratado como um luxo supérfluo, um jogador de estilo “leve” demais para ser colocado em campo em jogos cruciais. Na Eurocopa de 1980, só entrou em campo na última rodada, na vitória sobre a Espanha por 2 a 1, quando a equipe não tinha mais chance de avançar. Nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1982, quando os ingleses sofreram até o fim e estiveram seriamente ameaçados de ficar de fora do terceiro Mundial consecutivo, Hoddle só foi utilizado em um jogo. E na Copa, atuou duas vezes: entrou no intervalo na vitória sobre a Tchecoslováquia e começou jogando somente contra o Kuwait, numa partida em que alguns titulares foram poupados.

No Tottenham, entretanto, por essa época o meia já era inquestionável. Um grafite num muro da capital londrina dizia: “Hoddle Is God”. Em 1981, levantou seu primeiro título com o clube vencendo a FA Cup em uma final épica em dois jogos contra o Manchester City. E no ano seguinte, repetiria o feito, agora diante de um surpreendente Queens Park Rangers. No primeiro jogo, um empate em 1 a 1 obtido na prorrogação, Hoddle marcou o gol dos Spurs em chute de fora da área. E no segundo, decidiu a parada convertendo um pênalti logo aos seis minutos de partida, dando ao clube o bicampeonato da competição, numa temporada em que os Lilywhites já haviam terminado num bom quarto lugar na liga e chegado à final da Copa da Liga (perdendo para o Liverpool) e às semifinais da Recopa europeia (eliminados pelo Barcelona).

Mesmo com a participação pequena no Mundial espanhol, a boa fase no Tottenham – um clube com a duradoura reputação de valorizar um jogo mais estilista, de passes, acima do pragmatismo de seus pares e, portanto, perfeito para jogadores como Hoddle – continuou pelas próximas temporadas, ainda que vez por outra ficasse afastado por persistentes problemas físicos. Embora a equipe não repetisse o bom desempenho nas copas, terminaria novamente num bom quarto lugar na liga, classificando-se para a Copa da Uefa na temporada seguinte, onde realizaria uma campanha histórica.

Brilhando pela Europa

Ao mesmo tempo, continuava preterido na seleção, agora comandada por Bobby Robson. Nos primeiros cinco jogos pelas Eliminatórias da Eurocopa de 1984, entrou em campo apenas na goleada de 9 a 0 sobre Luxemburgo. Em 21 de setembro de 1983, a Inglaterra recebeu em Wembley a surpreendente Dinamarca de Sepp Piontek para um jogo crucial na fase de classificação para o torneio europeu. Foi derrotada por 1 a 0, gol de pênalti de Allan Simonsen. Hoddle mais uma vez ficou de fora. Três dias depois, como que para evidenciar o que a seleção estava perdendo, o meia brilharia novamente marcando um golaço contra o Watford em Vicarage Road: recebeu a bola pelo lado direito da área, driblou o marcador com um toque de calcanhar, girou e bateu por cobertura sobre um desesperado goleiro Steve Sherwood.

Chamado de volta aos Three Lions (o título de um artigo na imprensa da época se perguntava: “Como é possível ignorar Hoddle?”) para as duas últimas partidas das Eliminatórias, o meia abriria o placar contra a Hungria em Budapeste com uma cobrança de falta de categoria pura, bem na gaveta do goleiro Attila Kovacs, e daria o passe para Paul Mariner fechar a contagem em 3 a 0. Mas era tarde: a Dinamarca também venceu seus últimos jogos e carimbou o passaporte para a França. Ali, porém, valeu a lição de que a seleção da Inglaterra não poderia mesmo se dar ao luxo de desprezar o talento do armador dos Spurs.

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Antes do fim daquele ano haveria outro duelo de gigantes pela Copa da Uefa, agora contra o Bayern de Munique de Karl-Heinz Rummenigge. Os bávaros haviam eliminado os Lilywhites na edição anterior da Recopa e vencido o jogo de ida do confronto atual por 1 a 0 no Olympiastadion. Mas Hoddle daria outra aula na volta em White Hart Lane. Primeiro cobrando a falta que resultaria no primeiro gol, marcado pelo escocês Steve Archibald, e depois fazendo um lançamento espetacular para Mark Falco decretar a vitória por 2 a 0 e a classificação às quartas de final.

Hoddle, entretanto, não estaria em campo nas quartas contra o Austria Viena. Aliás, perderia toda a reta final daquela Copa da Uefa, em que os Spurs também passariam pelo Hajduk Split nas semifinais antes de levantarem a taça vencendo uma dramática decisão nos pênaltis contra um timaço do Anderlecht em White Hart Lane. Para o meia, o ano de 1984 foi marcado por lesões, que contrastaram com o grande momento vivido pelo clube. Entretanto, sua contribuição naquele título era inegável, após as memoráveis atuações contra o Feyenoord e o Bayern de Munique.

No ano seguinte, recuperado fisicamente, o meia enfim se estabeleceu como titular da seleção. Já no clube, viveu o fim do sonho de mais um título da Copa da Uefa ao cair nas quartas de final diante do Real Madrid: a derrota no jogo de ida por 1 a 0 foi a primeira do Tottenham em White Hart Lane por competições europeias, após 45 partidas. Na volta, um empate sem gols no Santiago Bernabéu classificou os merengues, que seguiriam para um bicampeonato no torneio. Na liga inglesa, os Spurs terminaram em terceiro, a melhor colocação desde 1971, ainda que bem distantes do Everton, campeão com campanha irretocável.

O Mundial mexicano foi uma verdadeira montanha russa de emoções para a seleção inglesa. E Hoddle vivenciou todas elas. De saída, dois péssimos resultados: derrota por 1 a 0 para Portugal e empate sem gols com o Marrocos, num jogo em que Bryan Robson voltou a deslocar o ombro, repetindo uma lesão que sofrera no começo do ano atuando pelo Manchester United, e Ray Wilkins foi expulso de forma tola, ao atirar a bola contra o árbitro após a marcação de uma falta. Foi a gota d’água para o técnico Bobby Robson, que reformulou completamente a equipe do meio para a frente, diante da iminente ameaça de eliminação ainda na fase de grupos.

Contra a Polônia, apenas Hoddle e o atacante Gary Lineker foram mantidos. Bryan Robson deu lugar a Trevor Steven (do Everton) na meia direita, enquanto Chris Waddle, ponta ofensivo que vinha atuando pelo lado esquerdo, deu lugar ao meia Steve Hodge, mais pragmático. No miolo do setor, o suspenso Wilkins foi substituído pelo dinâmico e batalhador Peter Reid (outro do Everton), dando mais liberdade a Hoddle para armar. Na frente, o grandalhão Mark Hateley, centroavante do Milan e um dos astros da equipe antes do Mundial, perdeu a vaga ao lado de Lineker para o habilidoso Peter Beardsley. E a Inglaterra deslanchou com uma vitória categórica por 3 a 0, três gols de Lineker ainda no primeiro tempo.

A Inglaterra seguiria com outra grande vitória – e uma ótima atuação de Hoddle – sobre o Paraguai pelo mesmo placar nas oitavas, antes de parar na Argentina de Maradona nas quartas de final. A atuação excessivamente cautelosa dos ingleses permitiu que El Pibe tivesse espaço de sobra para comandar inteiramente as ações por mais de dois terços da partida. Quando a equipe de Bobby Robson ensaiou uma reação, já era tarde – ainda que o empate estivesse por um triz.

De Londres a Monaco

Após o Mundial, o meia voltaria a brilhar num Tottenham que encheu os olhos por boa parte da temporada 1986-87, dirigido por David Pleat (ex-técnico do Luton) e contando ainda com nomes como Waddle, Ardiles, o goleiro Ray Clemence, o lateral escocês Richard Gough, o atacante belga Nico Claesen e o goleador Clive Allen – autor de nada menos que 33 gols pela liga, muitos deles com assistências de Hoddle. Entretanto, os títulos não vieram. O clube terminou em terceiro no campeonato, atrás de Everton e Liverpool. Perdeu pela primeira vez em sua história uma final da FA Cup, ao ser batido pelo Coventry na prorrogação com um gol contra do zagueiro Gary Mabbutt. E na Copa da Liga, caiu diante do rival Arsenal nas semifinais.

Aquela seria ainda a última temporada de Hoddle como jogador em White Hart Lane. Alimentando há tempos o sonho de atuar no exterior, especialmente numa liga de jogo mais de toque de bola, e também desapontado com o banimento dos clubes ingleses pela Uefa para as copas europeias, o meia recebeu uma boa proposta do Monaco. No fim de junho de 1987, a transferência seria concretizada.

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Mas antes, ainda se despediria em grande estilo dos torcedores em White Hart Lane. Em sua última partida pelos Spurs no estádio, marcaria mais um gol inesquecível contra o Oxford pela liga. Apanhando a bola num contra-ataque em seu próprio campo, o meia avançou, deu uma meia-lua no último zagueiro e um drible de corpo que deixou o goleiro estatelado no chão, antes de empurrar a bola para o gol vazio.

No Monaco, além de reencontrar o compatriota Mark Hateley, Hoddle integraria um elenco que incluía jogadores experientes, como o goleiro Jean-Luc Ettori, os defensores Manuel Amoros e Patrick Battiston, o meia Claude Puel e o ponta marfinense Youssouf Fofana. A equipe era dirigida por um treinador novato e promissor chamado Arsène Wenger. Já na primeira temporada veio o título da liga, derrubando a hegemonia do Bordeaux, vencedor de três das quatro edições anteriores do campeonato. Mais ainda: Hoddle foi eleito o melhor estrangeiro do campeonato, reforçando seu status dentro do clube.

Ettori, capitão daquela equipe, declarou anos depois sobre a passagem do meia pelo clube do principado: “Para nós, Glenn era ‘le bon dieu’ – ele era um deus. Não há mais nada a dizer”. Michel Platini também chegou a afirmar que se Hoddle fosse francês, “teria 150 partidas pela seleção”. Mas enquanto isso, no Engllish Team, o meia ainda precisava cortar um dobrado para vencer várias desconfianças. Na Euro 88, começou no banco, de onde assistiu a Ray Houghton abrir o placar para a Irlanda contra os ingleses logo aos cinco minutos. Entrou na metade do segundo tempo no lugar do meia Neil Webb e trouxe mais foco e lucidez ao setor, mas não conseguiu evitar a derrota.

A segunda partida se tornou crucial: o adversário, a Holanda, também tinha perdido na estreia para a URSS e precisava se reabilitar. Mas os ingleses começaram bem, com Hoddle de titular. O meia acertou a trave numa cobrança de falta, pouco depois de Lineker ter feito o mesmo no mesmo poste. O castigo veio com o gol de Van Basten a um minuto do intervalo. Na volta para a etapa final, os ingleses chegaram ao empate com Bryan Robson. Mas novamente Van Basten apareceria, marcando duas vezes e virtualmente acabando com as chances da Inglaterra. No último jogo, já eliminada, a seleção fez uma péssima partida e perdeu outra vez por 3 a 1, agora para os soviéticos.

Jogador e treinador: uma nova experiência

Aos 30 anos, Hoddle anunciaria sua aposentadoria da seleção após a Eurocopa, voltando suas atenções para o Monaco. Mas mais tarde começaria a sofrer com lesões, que o motivaram a deixar o futebol francês. Em novembro de 1990, ele encerrou seu contrato com os monegascos e rumou para o Chelsea, numa primeira passagem na qual não chegou a atuar. Em abril do ano seguinte, num rápido giro do destino, foi apontado como jogador-técnico do pequeno Swindon Town, da segunda divisão, o qual havia acabado de se envolver num escândalo financeiro que levou ao cancelamento do que seria o primeiro acesso do clube à elite inglesa.

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No Swindon, Hoddle evitou o rebaixamento do clube em sua primeira temporada e passou a brigar na parte de cima na seguinte. Adotando um esquema 3-5-2, então raro no futebol britânico, e no qual ele próprio exercia a função de líbero, levou os Robins novamente aos playoffs em 1992-93. Na decisão, em Wembley, contra o Leicester, coube a ele marcar o gol decisivo para o acesso inédito e histórico numa incrível vitória por 4 a 3. Para a tristeza dos torcedores, no entanto, ele não ficaria para a temporada de estreia na Premier League (e que se revelaria a única do clube até hoje): aceitou uma oferta do Chelsea, 11º colocado na elite na temporada anterior.

Ao chegar a Stamford Bridge, Hoddle tomou um choque: a estrutura do clube era precária, especialmente para uma equipe de primeira divisão. Enquanto liderava o processo de modernização das instalações, a equipe se mantinha no meio de tabela do Campeonato Inglês. Mas uma boa campanha na FA Cup naquela primeira temporada ajudou a levantar o moral. Os Blues chegaram à decisão contra o Manchester United em Wembley. Foram derrotados por 4 a 0, mas o placar não importou muito: graças à dobradinha feita pelos Red Devils com o título da Premier League, o Chelsea, que não disputava uma copa europeia desde a temporada 1971-72, herdou a vaga na Recopa de 1994-95.

A equipe faria boa campanha naquele torneio, caindo só nas semifinais para o futuro campeão Zaragoza. E o desempenho ajudaria no processo de elevar o patamar da equipe londrina, tanto no cenário nacional quanto no internacional. E Hoddle se aproveitou disso para realizar transferências ambiciosas no verão europeu de 1995: trouxe o bom lateral-direito romeno Dan Petrescu e o experiente atacante galês Mark Hughes, ídolo do Manchester United. Mas a cereja do bolo foi a contratação sem custos do meia holandês Ruud Gullit, vindo da Sampdoria, num passo decisivo para o começo da internacionalização do clube.

A turbulenta passagem no comando da seleção

Em meados de 1996, entretanto, seus projetos para o Chelsea seriam cancelados por um motivo forte: a FA bateu à sua porta com o convite para assumir o comando da seleção inglesa, recém-eliminada nas semifinais da Eurocopa que sediara, no lugar de Terry Venables, seu velho conhecido do Tottenham. Ironicamente, seu antigo posto nos Blues passaria a ser ocupado exatamente por Gullit, que aumentaria o influxo de jogadores de fora das ilhas britânicas no clube londrino.

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O trabalho de Hoddle no comando dos Three Lions começou bem: em junho de 1997, conquistou o Torneio da França (quadrangular que serviu de aperitivo para o Mundial do ano seguinte), superando a Itália e a dona da casa França, perdendo apenas para o Brasil no último jogo, quando o caneco já estava assegurado. Em outubro, confirmaria também a classificação direta à Copa do Mundo, ao segurar um 0 a 0 diante da Azzurrra em pleno Estádio Olímpico de Roma, mandando os italianos para a repescagem. Ao longo daquele caminho, promovia as estreias de nomes como David Beckham, Paul Scholes (meia pelo qual tinha especial predileção), Rio Ferdinand e um jovem atacante chamado Michael Owen.

A preparação para a Copa do Mundo, entretanto, foi turbulenta. Criticado por não convocar o meia Paul Gascoigne e por incluir na delegação a líder espiritual Eileen Drewery, Hoddle viu seus métodos de treinamento e sua maneira de lidar com os jogadores dividirem opiniões – e as negativas predominaram. Na França, a Inglaterra estreou derrotando a Tunísia com tranquilidade por 2 a 0. Em seguida, num jogo bem disputado contra a Romênia, perdeu por 2 a 1 com um gol de Petrescu quase no último lance. Também não teve dificuldade para bater uma decadente Colômbia por 2 a 0 na última rodada, mas o empate dos romenos diante dos tunisianos bastou para a seleção de Gheorghe Hagi ficar em primeiro no grupo G.

Veio então o jogo épico, de alta tensão, contra os argentinos pelas oitavas de final. Um jogo de reviravoltas no placar nos primeiros 45 minutos. Do golaço antológico de Michael Owen. Da expulsão ingênua de Beckham – por uma retaliação na qual Simeone, diga-se, valorizou enormemente. Do gol anulado de Sol Campbell perto do fim do tempo normal. E da decisão por pênaltis que consagrou o goleiro Carlos Roa como herói da Argentina e estendeu um drama dos ingleses, eliminados na marca da cal pela terceira vez nas últimas quatro grandes competições internacionais.

Mesmo com a eliminação, Hoddle continuou no cargo, do qual seria demitido apenas em fevereiro do ano seguinte. De tantas vezes em que a palavra “deus” aparece neste texto, é irônico que o treinador tenha sido demitido por episódio que nada teve a ver com o futebol, e sim com religiosidade e crença. Em 30 de janeiro de 1999, o Times publicou uma entrevista com Hoddle no qual ele expunha, entre outras coisas, seus pontos de vista sobre sua religião espírita, reencarnação e carma. Exemplificou afirmando que, para ele, deficientes físicos pagariam agora por pecados cometidos em vidas passadas.

A declaração repercutiu pessimamente, com pedidos até do primeiro ministro Tony Blair para sua destituição do cargo – ainda que alguns defendessem sua permanência com base no direito de expressar sua crença, controversa que fosse. Três dias depois da publicação da entrevista, a FA anunciava formalmente a demissão do treinador. Menos de um ano depois, ele estava de volta ao futebol, assumindo o Southampton em janeiro de 2000, e ajudando o clube a se salvar do rebaixamento na Premier League.

Na temporada seguinte, conduzia a equipe até um ótimo oitavo lugar em março, antes de sair – provocando grande decepção dos torcedores dos Saints – para retornar ao Tottenham. Não teve sucesso nessa volta, entretanto, nem no comando do Wolverhampton, entre dezembro de 2004 e julho de 2006. Após essas experiências, decidiu não aceitar mais ofertas de trabalho como treinador. Preferiu trabalhar na construção de uma academia de futebol, a qual administra atualmente, além de comentar jogos na TV britânica.

Como bônus, segue o momento em que Glenn Hoddle, escudado por seu companheiro de Spurs e de seleção Chris Waddle, vive instantes de astro pop – literalmente: o videoclipe de “Diamond Lights”, canção no melhor estilo “trilha sonora de Miami Vice” que a dupla lançou em 1987 e chegou ao 12º posto da parada de sucessos britânica em maio daquele ano.

https://www.youtube.com/watch?v=7WACF8ID-To

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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