Gilberto Silva carregou o piano para dois grandes times fazerem história
Carregar o piano é um conceito bastante enraizado em Gilberto Silva. Vira e mexe aparece em entrevistas que concede quando palpita sobre algum time ou, principalmente, avalia a sua importância para as equipes que defendeu. E realmente, poucos devem conhecer essa função tão bem quanto o ex-volante, que anunciou nesta sexta-feira a sua aposentadoria do futebol profissional.
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No começo de dezembro, em entrevista ao Guardian, havia dito que ainda buscava voltar a jogar, depois de uma temporada afastado por lesões. Mas os pianos ficaram pesados demais. “Para mim, é um momento de transição, não uma primeira morte. Por mais dolorido que seja, é um momento que eu poderia ver como tristeza, mas vejo com muita alegria. São 20 anos de muita alegria. É o que fica para mim e minha família”, disse.
O que fica para a história foi a importância vital de Gilberto Silva para suas equipes. Ele carregou o piano, ou seja, concentrou-se quase exclusivamente na proteção à defesa, para os craques tocarem duas grandes melodias, a da seleção brasileira de 2002 e do Arsenal campeão inglês invicto na temporada 2003/04. Foi o mineirinho, natural de Lagoa de Prata, que fez o trabalho sujo para Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Rivaldo, Henry e Bergkamp brilharem.
No que Emerson deu azar de ficar fora da Copa do Mundo do Japão e da Coreia do Sul, Gilberto Silva deu sorte. Herdou a posição do lesionado e foi titular em todas as partidas. Nunca foi substituído. Segurou a bronca à frente da defesa e até conseguia chegar ao ataque. Começou a jogada que terminou com o primeiro gol de Ronaldo na decisão contra a Alemanha.
Em entrevista ao SporTV, comentou que Felipão teve como uma das suas primeiras medidas, no retorno à Seleção, colocar Luiz Gustavo de titular por saber da importância de um jogador como ele. “É uma função que aparece pouco, não dá ‘ibope’, mas a importância na proteção aos zagueiros faz com que o time sofra menos pressão. Por isso, tem que ter um jogador ali para carregar o piano”, disse.
O piano. No Arsenal, nos tempos mais áureos, quando o time conquistou a Premier League sem perder nenhum jogo, o último título inglês do clube, fazia isso para liberar Patrick Vieira. Mesmo em um futebol mais coletivo, em que todos os jogadores precisam exercer funções defensivas, teve o seu “trabalho sujo” muito elogiado pelo técnico Arsène Wenger naquela campanha.
“Ele, para mim, é classe”, afirmou no livro Invincible. “Modéstia, humildade, uma pessoa de primeira qualidade. Estava pronto para se sacrificar pelo time. Você precisa desse jogador em frente à defesa, que está pronto para fazer o trabalho sujo para outras pessoas”.
Gilberto Silva disse que, depois da sua saída do Arsenal, do qual chegou a ser capitão, Wenger teve dificuldades para achar um substituto. Na opinião do brasileiro, encontrou no francês Coquelin. “Tiveram outros jogadores nessa posição, como Mikel Arteta, Mathieu Flamini, e antes disso, Cesc Fàbregas, mas não o mesmo tipo de jogador, o cara que carrega o piano para os outros jogarem”, afirmou.
Sempre o piano. O piano que Gilberto Silva carregou de cabeça erguida e com resiliência desde o começo da carreira, o América Mineiro, até o fim da sua vida como jogador de futebol. Prepara-se para o futuro, está engajado no Bom Senso e deve se manter no ambiente do jogo que lhe deu tanta coisa na vida. Se virar treinador, talvez não resista à tentação de montar o time a partir do volante que carrega o piano e faz o trabalho sujo, mesmo que seja uma posição obsoleta hoje em dia.



