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Finalmente transformaram o machismo das arquibancadas em discussão

Imaginem a cena: após entrar no gramado para atender um jogador contundido, um médico negro é ofendido pela torcida adversária com palavras que não têm outra conotação senão de injúria racial. A repercussão na mídia e nas redes sociais seria, justificadamente, intensa, e esses torcedores, idealmente, seriam identificados e punidos de alguma maneira. Transforme esse caso hipotético de racismo em um real de machismo, e a importância dada não é a mesma. Pelo menos até agora. Nesta quinta-feira, chegaram imagens à FA em que torcedores do Manchester United e do Manchester City cantam músicas sexualmente abusivas para a médica do Chelsea, Eva Carneiro. O que espanta é o atraso com que isso aconteceu. O primeiro vídeo, por exemplo, foi gravado em outubro, no 1º turno da Premier League.

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A Federação Inglesa não tinha como agir sem ser notificada do problema, e aí está a questão mais preocupante. Por que levou tanto tempo para que o incidente fosse reportado? Por que ninguém nas arquibancadas ou nenhum funcionário que trabalhou no jogo denunciou o canto como provavelmente faria caso se tratasse de um abuso racial? Porque essa violência está normalizada.

Houve um pequeno progresso na Inglaterra, em especial, e o número de casos de abuso machista denunciados à Kick It Out e à Women in Football já saltou de apenas dois para 25 em questão de uma temporada. Não se trata de uma eclosão de incidentes, é claro, mas as pessoas estão se sentindo pouco mais confortáveis para ir a público.

Vídeo dos cantos abusivos da torcida do United:

Diretora executiva do Mansfield Town, time da quarta divisão inglesa, Carolyn Radford afirmou à BBC que passou pela mesma situação que Eva Carneiro diversas vezes e que as mulheres são “levadas a sentir que devem tolerar o abuso”: “Já tive torcedores cantando coisas abusivas para mim. É doloroso. Se fossem cantos racistas, talvez as pessoas fizessem algo a respeito. Mas, como é ‘zoeira’, digamos, eu tenho que mexer no meu cabelo e apenas aceitar”.

Anna Kessell, presidente da Women in Football, também se pronunciou sobre esse ambiente que faz as mulheres aturarem os insultos e assédio. “O machismo no futebol está tão enraizado na cultura do esporte ao ponto de que, enquanto o racismo é reconhecido como errado, o machismo é apenas reconhecido como brincadeira. As mulheres não têm confiança para reportar. Essa é a mensagem que estamos recebendo de nossa rede. Elas são muito relutantes em reclamar, sentem que precisam aturar”, avaliou.

Em entrevista ao Guardian, um porta-voz do Chelsea colocou a posição de condenação do clube aos atos dos torcedores do United: “Levamos extremamente a sério a questão da igualdade e abominamos a discriminação em todas as suas formas, inclusive o machismo. Tal comportamento é inaceitável e o queremos erradicado do esporte”. O Manchester City pronunciou-se anunciando a implementação de um guia de procedimento para abusos machistas em seu match programme (revista distribuída a cada jogo no estádio). Já o United limitou-se a dizer que, como nada foi reportado dentro de 24h após o ocorrido, deixará o assunto nas mãos da polícia.

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Há algum tempo ignorado, o racismo no futebol tem vindo à tona e tem sido combatido. É condenado de forma quase unânime – “quase” porque sempre há os defensores da barbárie, em qualquer lugar. A homofobia também começou a ser discutida, embora com passos lentos e pouquíssima aceitação do torcedor médio. O machismo também precisa ser discutido, mas enfrenta como grande barreira a forma velada como essa discriminação acontece.

Já houve marca internacional fazendo campanha em que sugeria mandar mulheres às compras enquanto os homens assistiam ao jogo, gerando mais risadas que reclamações. Atletas com aparência condizente com o padrão de beleza têm sua imagem mais valorizada que seu trabalho (pesquise “musa” nas notícias e veja só quantos resultados apenas de hoje), e profissionais de futebol que cometem erros em suas funções têm esses erros atribuídos, em geral, a seu gênero, em vez das questões técnicas usadas para julgar os mesmos erros quando cometidos por homens.

Para acabar com esse duplo padrão, com a condescendência e os abusos, necessariamente precisaremos passar por esse momento de apontar o dedo para o que há de errado e cobrar mudanças. O racismo no futebol passou por esse processo, e a homofobia e o machismo começam a dar seus passos. A Alemanha e agora a Inglaterra estabeleceram exemplos nesse combate a discriminações sexual e de gênero. A caminhada promete ser talvez mais longa que a da igualdade racial, que ainda não atingiu seu ponto ideal, mas está bem estabelecida. Mas apenas o fato de finalmente terem transformado em discussão e em pauta de grandes jornais já motivo para uma pequena celebração.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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