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Se é para voltar com os mata-mata, que se faça direito

Uma grande epidemia assolará o mundo, haverá um apocalipse zumbi e o que restará da humanidade será Will Smith sozinho no que sobrou de Nova York. Enquanto tenta sobreviver, ele terá apenas um dilema existencial: e então, os campeonatos de futebol eram melhor em pontos corridos ou em mata-mata?

PODCAST: Temos que falar sobre a volta do mata-mata ao Brasileirão

O debate não tem resposta porque virou uma questão ideológica. Para muita gente, não adianta mostrar argumentos racionais para defender um lado, é preferência pessoal e basta. É como se fosse um Gre-Nal, biscoito x bolacha, esquerda x direita, Flamengo x Sport (em relação ao título de 1987). Para não se perder nessa briga sem fim, é preciso ser prático. E, deixando a opinião sobre o tema de lado (sou a favor dos pontos corridos), dá para conceber um Brasileirão com mata-mata. Mas, se é para voltar, se se faça direito.

O mata-mata tinha vários problemas na época que existia. Nem é o caso de mencionar os campeonatos inchados entre 1972 e 1986, em que até tivemos primeira fase em que todos os times se classificavam para a segunda e média de renda como critério de desempate. Mas, a partir de 1988 (pulei 1987 porque não vou abrir discussão sobre Taça de Bolinhas), houve uma certa continuidade em torneios girando entre 20 e 32 clubes, com primeiras fases longas antes das decisões eliminatórias.

Nessa época, havia algumas questões que fizeram que muitos defendessem a adoção dos pontos corridos:

– Era injusto demais, e uma partida desastrada podia ruir uma campanha inteira;
– Premiava a desorganização ou trabalhos imediatistas que estourassem apenas em algumas semanas;
– Clubes classificados por antecipação pisando no freio nas rodadas finais;
– Clubes eliminados na fase de classificação ficando muito tempo sem atividade (e sem faturar);
– Público dos times classificados por antecipação se desinteressava nas rodadas finais.

Os pontos corridos não resolveram todos os problemas, mas voltar ao mata-mata só por voltar não vai ajudar. Algumas das questões são muito profundas, e não é o regulamento do campeonato que resolverá. Mas dá para se criar uma decisão eliminatória interessante, que motive os times mesmo durante a fase de classificação.

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O modelo que, segundo relatos, tem se discutido na CBF é o de dois turnos de todos contra todos (38 rodadas), com os quatro primeiros fazendo semifinal e os vencedores vão à final. Convenhamos, um regulamento desse cria a emoção dos jogos decisos, mas não muda a dinâmica das 38 rodadas. Brigar pelas quatro primeiras posições é algo que já ocorre devido às vagas na Libertadores. Além disso, não resolve o potencial acomodamento do primeiro e eventualmente do segundo colocado nas rodadas finais, quando a classificação está garantida.

Uma possibilidade seria ampliar o mata-mata. Classificar oito equipes, como ocorreu em 1988, 90, 92, 93, 94, 96, 97, 98, 99, 2001 e 2002, é exagerado, pois 40% das equipes estariam passando de fase. É banalizar a classificação, além de um convite a deixar até quatro times acomodados nas fases finais.

Por isso, a CBF deveria considerar um playoff de seis equipes. As duas primeiras se classificariam diretamente às semifinais, quanto que terceiro, quarto, quinto e sexto disputariam uma repescagem para definir os outros dois semifinalistas. Desse modo, os times que estão na ponta podem até se garantir entre os quatro ou seis primeiros, mas teriam de jogar bem até assegurar uma das duas primeiras posições. Com isso, seriam premiadas com a ida automática às semifinais (e, consequentemente, uma vaga na Libertadores) e uma semana de descanso antes das decisões.

Os times que estivessem imediatamente atrás na briga teriam interesse em chegar em terceiro ou quarto para terem vantagem do mando de campo na repescagem. entre quinto e talvez até oitavo ou nono seriam equipes disputando as vagas finais.

Com esse sistema, as equipes não se acomodariam com a classificação assegurada, há algum sentido de justiça em evitar que uma equipe do pelotão intermediário possa eliminar o time de melhor campanha por causa de uma partida fora da curva e cria uma dinâmica diferente para a fase de classificação. Mas essa é apenas uma ideia, a minha (não é necessariamente a opinião institucional da Trivela). Se vocês tiverem outras ideias de como fazer um mata-mata melhor que esse proposto, podem usar o espaço de comentários para opinar.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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