Inglaterra

Fatos, especulações e lorotas

O mês de julho é o mais complicado para a imprensa futebolística inglesa. Sem bola rolando e com o mercado de contratações ainda morno, não há muito que noticiar. Neste ano, então, as coisas estão ainda piores, já que grande parte das matérias ‘frias’ que se costuma usar para preencher espaço já foram ‘queimadas’ durante a Euro-2008, da qual a Inglaterra não participou.

Com isso, resta aos jornais menos sérios apelar à imaginação do torcedor para gerar manchetes. Boatos de supostos interesses, chances remotas de negociações ou a simples opinião de um agente viram fatos ‘quase’ confirmados com uma facilidade imensa. Se envolverem grandes nomes do futebol mundial, então, melhor ainda.

Foi assim que se criaram as grandes lorotas desta temporada. A mais famosa, naturalmente, foi a suposta ida de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid. Como toda boa lorota, ela tem um fundo de verdade: os Merengues realmente queriam o jogador, que aparentemente gostaria mesmo de se transferir.

Só havia um ‘pequeno’ entrave que todo mundo insistia em esquecer: o português ainda tem quatro anos de contrato com o Manchester United. Por que cargas d’água os Red Devils deixariam o jogador, favorito a ser eleito melhor do mundo no fim do ano, sair? Isso só aconteceria se o Real Madrid pagasse uma quantia ridícula, tipo € 100 milhões. Mas um número como esse nunca esteve, de fato, em discussão. E, hoje, tudo indica que Cristiano Ronaldo vai mesmo ficar no United.

Por falar em quantias ridículas, seria em torno de € 80 milhões o valor que o Chelsea teria oferecido ao Milan para contratar Kaká. E tome manchetes na mídia. Na hora que os veículos sérios foram apurar, porém, descobriu-se que não houve nenhuma oferta oficial, no máximo uma sondagem. E vale a mesma pergunta do caso anterior: por que o Milan venderia o Kaká? Mesmo se fosse oferecido um valor astronômico, os Rossoneri não precisam de dinheiro e sabem que o brasileiro é um jogador insubstituível, não importa quanta grana se tenha na mão.

Outra lorota forte foi a história de que Ronaldinho Gaúcho iria para o Manchester City. Neste caso, pelo menos, parece que houve uma oferta real – e o clube, com o dono tailandês Thaksin Shinawatra, teria dinheiro para bancar a compra do brasileiro. Em muitos veículos, a transferência foi tratada com uma possibilidade real. Mais uma vez, faltou senso crítico. É verdade que Ronaldinho Gaúcho não jogou bem nas últimas duas temporadas. Mas é óbvio que o brasileiro teria portas abertas em pelo menos uns cinco clubes mais importantes que o nono colocado do último Campeonato Inglês.

Subindo um pouco na escala de realismo está a possível ida de Frank Lampard para a Internazionale. Existe uma boa lógica por trás da especulação: a Inter é dirigida por José Mourinho, com quem Lampard jogou seu melhor futebol, o jogador deu sinais de insatisfação nos Blues, a chegada de Deco diminuiu ainda mais seu espaço entre os titulares…

O problema é que, com base nisso, muitos veículos começaram a tratar a transferência como certa. Eis que chega Felipão e, em sua primeira entrevista, afirma que Lampard lhe disse que quer permanecer no Chelsea. Oh! Surpresa geral! É claro que o meia ainda pode, sim, ir para a Itália. Mas que fique claro que ainda falta muito para que as negociações estejam concluídas.

Tão desesperados estão os jornalistas por notícias na Inglaterra que até inventaram um Bin Laden no Newcastle. Sério! Na realidade, trata-se de uma empresa de construção saudita que tem entre seus donos Bakr bin Laden, meio-irmão do famoso terrorista, que estaria pensando na hipótese de fazer uma oferta para comprar os Magpies. Para muitos, isso já virou quase uma certeza (o fato de Bakr ter se distanciado há mais de uma década do meio-irmão famoso, então, nem é mencionada).

A resposta oficial do clube sobre o assunto? “É um absurdo total”. A frase, aliás, se aplica muito bem à maioria das histórias que têm surgido neste ano, na Inglaterra.

É hora de rever a temporada (parte 5)

Seguimos com o nosso balanço time a time da temporada 2007/8 na Inglaterra. Nesta semana, comentamos o ano de Reading, Sunderland e Tottenham.

Reading

Destaque: Marcus Hahnemann
Classificação final: 18º lugar (36 pontos – rebaixado para a segunda divisão)
FA Cup: eliminado na terceira fase pelo Tottenham
League Cup: eliminado na terceira fase pelo Liverpool

A ‘síndrome da segunda temporada’ ataca de novo. Depois de conseguir um inacreditável oitavo lugar em seu primeiro ano na Premier League, o Reading caiu. E muito: ficou na 18ª posição e acabou rebaixado de volta para a Segundona.

O que deu errado? Para falar a verdade, nada. Só os ‘milagres’ da temporada anterior é que pararam de acontecer. Mesmo assim, os Royals não fizeram campanha tão ruim. Embora não tenha passado do 12º lugar em nenhum momento, o Reading dava pinta de que escaparia do rebaixamento – principalmente quando chegou à 30ª rodada na 13ª posição. Mas aí uma série de seis jogos sem vitórias (combinada com a inesperada recuperação do Fulham) acabou derrubando a equipe.

Dado que o Reading é um clube pequeno, não dá para dizer que o rebaixamento é o fim do mundo. No ‘capitalismo selvagem’ da Premier League, é apenas o desfecho natural. Mas a equipe sabe que, com um pouquinho mais de inspiração, poderia ter evitado o pior.

Nota da temporada: 4

Sunderland

Destaque: Danny Collins
Classificação final: 15º lugar (39 pontos)
FA Cup: eliminado na terceira fase pelo Wigan
League Cup: eliminado na segunda fase pelo Luton (3ª divisão)

A campanha do Sunderland nesta temporada teve a cara de Roy Keane: feia, dura, suada, raçuda, pouco brilhante, mas, no final das contas, vencedora. Os Black Cats estiveram longe de encantar a torcida, mas evitaram o rebaixamento com relativa segurança (não ficaram entre os três últimos nenhuma vez nas últimas 15 rodadas). Uma equipe recém-promovida não pode pedir muito mais do que isso.

Para evoluir na próxima temporada, o técnico Keane vai ter que ser mais ambicioso no mercado de transferências e procurar jogadores mais expressivos do que os refugos do Manchester United e ‘nomes B’ da seleção irlandesa que contratou nesta temporada. O Sunderland jogou com bastante raça neste ano, mas não dá para saber até quando isso vai ser suficiente para salvar a equipe.

Mas, pensando apenas no presente, a avaliação desta temporada é positiva. Ainda mais lembrando que Keane nunca dirigira um time de Premier League e que as duas últimas participações do Sunderland na elite haviam sido enormes vexames.

Nota da temporada: 6

Tottenham

Destaque: Robbie Keane
Classificação final: 11º lugar (46 pontos – classificado para a Copa Uefa via League Cup)
Resultados na Europa: eliminado nas oitavas-de-final da Copa Uefa pelo PSV (Holanda)
FA Cup: eliminado na quarta fase pelo Manchester United
League Cup: campeão

Graças a Deus pela League Cup! É isso o que os torcedores do Tottenham devem estar pensando. O título na terceira competição mais importante (de um total de três) do futebol inglês salvou o que seria uma temporada absolutamente desastrosa para os Spurs.

Além de não ter brilhado nem na Copa Uefa nem na FA Cup, no Campeonato Inglês os Spurs fizeram 14 pontos a menos do que na temporada anterior, terminando a competição em 11º lugar. É um desempenho patético, para um clube que, no começo da temporada, pretendida brigar por vagas na Liga dos Campeões.

O principal motivo para o desempenho ruim foi a instabilidade no banco de reservas. Martin Jol foi sabotado de tudo quanto é jeito (por jogadores e pela diretoria) no início da temporada e acabou trocado por Juande Ramos após a 10ª rodada, quando o time estava na zona de rebaixamento. O espanhol deu uma melhorada na equipe e afastou qualquer possibilidade de queda. Só que o interesse no campeonato evaporou depois que o time ganhou a League Cup.

Embora a Copa da Liga esteja longe de ser uma grande competição, a importância dessa conquista para o Tottenham não pode ser subestimada. Afinal, trata-se de um clube razoavelmente grande, que não ganhava nada desde 1999. No caminho para a conquista, o time ainda goleou o arqui-rival Arsenal na semifinal por 5 a 1 e derrotou o time titular do Chelsea na decisão. Com isso, apesar de todos os pesares, os torcedores dos Spurs saem desta temporada com um sorriso no rosto.

Nota da temporada: 6

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Equipe Trivela

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