Eterno figurante, o Accrington Stanley vira protagonista de um conto de fadas na League Two

Olhando para as origens da Football League, há 130 anos, a cidade de Accrington está lá. Em sua pequenez, o vilarejo no noroeste da Inglaterra, que outrora foi um centro da indústria têxtil, participou da fundação da primeira liga nacional do planeta. O Accrington FC era um dos 12 participantes na edição inaugural do Campeonato Inglês, ao lado de outros clubes seguem figurando nos níveis profissionais. No entanto, os vermelhos foram os únicos a desaparecerem, deixando a competição cinco anos depois e fechando as portas por problemas financeiros. Desde então, a cidadezinha depositou as esperanças no Accrington Stanley, que se tornou seu principal representante. E pela primeira vez em 58 anos, o município alcança a terceira divisão do Campeonato Inglês.
O Accrington Stanley original surgiu em 1891, como Stanley Villa, e se aproveitou da extinção do Accrington FC para adotar o nome da cidade. Passou décadas vagando nos níveis regionais da Football League, até que a terceira divisão fosse nacionalizada em 1958/59. A equipe participou de duas edições da terceirona, mas logo foi rebaixada e voltou a enfrentar dificuldades econômicas nos anos 1960, o que levou a agremiação a se dissolver. Em um município ensanduichado entre Blackburn e Burnley – que ainda tem Blackpool, Preston, Bolton, Leeds, Manchester e Liverpool num raio de cerca de 100 km – sempre foi difícil fazer o futebol se tornar um negócio sustentável.
Em 1968, entretanto, a população local tentou novamente reavivar o futebol. Nos fundos de um pub, o Accrington Stanley foi refundado. Desde então, vagou pela non-league como um dos mais célebres clubes nanicos da Inglaterra. A insignificância era tão significante que virou até mesmo tema de comercial durante os anos 1980. Para “promover o consumo de leite”, uma propaganda britânica apresentava dois garotinhos. Enquanto um deles se recusava a tomar leite, o outro declarava que Ian Rush, astro do Liverpool na época, era um consumidor feroz da bebida. “Rush disse que se eu não beber muitos copos, quando crescer, serei bom apenas para jogar pelo Accrington Stanley”, justificava. Então, o outro menino replicava: “Accrington Stanley, quem são esses?”. E aí ficou uma piada célebre sobre o nanismo dos vermelhos.
Apesar da fama, o Accrington Stanley iniciou uma ascensão marcante a partir deste século. Em 2003, pela primeira vez desde sua refundação, o clube alcançou a quinta divisão do Campeonato Inglês. Precisou de apenas três tentativas para conquistar também o acesso à League Two, em 2006/07. Neste momento, o clube recolocou a cidade de Accrington na Football League após 58 anos de espera, o que já parecia um feito e tanto. E, ao longo da última década, os pequeninos passaram longe dos riscos de voltar à non-league – ao menos no campo de jogo.
Majoritariamente, o Accrington Stanley apareceu na metade inferior da tabela na League Two, sem grandes ameaças de ser rebaixado. Além disso, conseguiu por duas vezes disputar os playoffs de acesso, caindo nas semifinais em ambas as tentativas. E isso porque a temporada regular em 2015/16 terminou com um enorme drama. O clube teve o acesso direto nas mãos até os últimos instantes da rodada final. Aos 47 do segundo tempo, porém, o Bristol Rovers assegurou sua vitória sobre o Dagenham and Redbridge e, com os mesmos 85 pontos do Stanley, o tirou da terceira colocação pelo saldo de gols. Depois, nos playoffs, caíram diante do Wimbledon, por conta de um gol sofrido na prorrogação. Já nesta temporada, não houve quem parasse os vermelhos.
Desde as primeiras rodadas da League Two, o Accrington Stanley se colocou como candidato à terceirona. E apesar de um mês de dezembro difícil, no qual o time deixou a zona de acesso direto, a reação a partir de 2018 vem sendo impecável. O time sofreu uma mísera derrota desde a virada do ano. São 14 rodadas de invencibilidade, com 12 vitórias neste caminho. A última delas ocorrida nesta terça-feira, consumando a promoção com o triunfo por 2 a 0 sobre o Yeovil Town. Valeu a festa aos pouco mais de 3 mil presentes no Crown Ground, e também à cidadezinha de 35 mil habitantes. Comemoração que pode se ampliar ainda mais nos próximos dias, caso os vermelhos confirmem a conquista da League Two. Líderes, têm como principal perseguidor o tradicional Luton Town, na segunda colocação, somando quatro pontos a menos.
Autor de ambos os gols contra o Yeovil, o herói do acesso não parece mais apropriado. Billy Kee é o artilheiro do time, com 24 tentos até o momento, e foi eleito o melhor jogador da League Two. Aos 27 anos, o atacante formou-se na base do Leicester, dispensado aos 20 anos, e compartilhou por três anos os anseios do Burton Albion, outro nanico de ascensão meteórica. Já em 2015, chegou ao Crown Ground e se tornou peça importantíssima no clube. A promoção é também uma vitória pessoal do atleta, que no início do ano admitiu abertamente sua luta contra a ansiedade e a depressão. Anteriormente, pensou mesmo em abandonar a carreira.
Já no banco de reservas, é preciso reconhecer o trabalho hercúleo de John Coleman. Jogador de carreira modesta, o técnico chegou a Accrington em 1999, quando o Stanley militava na sétima divisão do Campeonato Inglês. Conquistou três acessos em sete temporadas e foi o responsável por recolocar o clube na Football League, assim como por dar estabilidade na League Two. Saiu em 2012, quando, na época, era o terceiro treinador mais longevo do futebol profissional na Inglaterra – atrás apenas de Sir Alex Ferguson e Arsène Wenger. Mas acabaria voltando ao Crown Ground em 2014. Depois da queda nos playoffs em 2016, acontece o merecido prêmio ao comandante.

E o feito do Accrington Stanley se torna bastante expressivo quando se comparam as condições do clube com a concorrência, mesmo dentro da quarta divisão inglesa. O elenco tem uma das menores folhas salariais da liga e, segundo o site Transfermarkt, o elenco com o menor valor de mercado. Sua média de público também é a segunda menor da Football League, o que rende menores lucros com bilheteria. Pior, a agremiação sequer possui um centro de treinamentos, precisando alugar um campo para as suas atividades. Condições tão modestas que o dono do clube causou polêmica há poucas semanas, ao falar que, como prêmio, pagava lanches do McDonald’s para os jogadores após as vitórias. Quem não reclama de sua benevolência é a própria torcida. Após cada triunfo como mandante, o clube vende pints de cerveja por apenas £1.
O dono Andy Holt, de qualquer maneira, merece os créditos por aquilo que tem conseguido fazer. Mesmo depois de subir para a League Two em 2006, o Accrington Stanley conviveu com as dificuldades financeiras e com o risco de fechar as portas. Pôde se sustentar graças à ajuda de empresários locais e de outros filhos ilustres da cidade (como David Lloyd, antigo técnico da seleção inglesa de críquete), que tiraram dinheiro do próprio bolso. Já a chegada de Holt em 2015 serviu para garantir uma gestão mais profissional, a um clube que convivia com atrasos salariais e outros problemas básicos.
Dono da maior companhia britânica de utensílios domésticos feitos com plásticos, o empresário providenciou novo aporte financeiro, o suficiente para evitar as ameaças de quebra – mas não necessariamente para colocar o clube entre os mais endinheirados da League Two. Há um teto salarial modesto e, como o próprio dirigente define, eles são “camponeses famintos à espera de restos” da Premier League. Apesar disso, a ideia de Holt é criar um clube que se sustente e possa trazer uma imagem positiva à comunidade. Vai cumprindo seu objetivo.
Diante das perspectivas ao futuro, o técnico John Coleman admite como a League One pode ser importante para o Accrington Stanley buscar mais. “O tamanho do nosso clube e nossa estrutura significam que seremos vistos como peixes pequenos. Poderemos nos estabilizar, ter um bom campo, boas arquibancadas e um centro de treinamentos. A partir de então, conseguiremos começar a nos desenvolver como um time apropriado, em vez de estar sempre mudando a gestão. Somos um clube autossustentável que pode competir na Football League”, declarou o treinador, em entrevista à Rádio BBC Lancashire.
Neste primeiro momento, certamente, o objetivo do Accrington Stanley será se estabelecer na League One antes de tentar passos maiores. Pelas diferenças de orçamento, será natural apontar como candidato ao rebaixamento na terceirona. Ainda assim, o clube não deve se preocupar com isso, ao menos por enquanto. A hora é de celebrar o acesso e, quem sabe, o título. Desfrutar o alívio de quem sabe das dificuldades que enfrenta e agora chega ao ápice, depois de mais de uma década militando na League Two. Nos passos de formiguinha, os vermelhos alcançaram o seu cume. Esta relevância, ninguém tira deles. Em vez de ser motivo de piada, se faz digna de aplausos.



